Diversidade é uma palavra bonitinha e super in, mas até que ponto estamos abertos à experiências que fogem da nossa rotina, do nosso círculo de amizades ou da forma como enxergamos o mundo? Essa é uma pergunta que eu me faço constantemente, porque me considero uma pessoa desapegada de opiniões irredutíveis, porém, apegada a outras coisas: minha cidade, minha família, meu grupo de amigos.

Pensei nisso voltando da cobertura de um evento em Campo Limpo. Opa, pera aí, você disse Campo Limpo? Ow, yeah, baby. Começa por aí. Não quero fazer a Rita Lee e ficar criticando quem mora em Itaquera, mas sim, Campo Limpo é muito longe pra uma caipira como eu, que mora na zona oeste de SP e continua indo ao mercado, farmácia e perfumaria de São Caetano do Sul, minha bonitinha e florida cidade natal. <3

Mas não é do apego à São Caetano que eu quero falar, até porque não quero me desapegar de lá, rs. Me deixa! Este post na verdade é sobre a alegria de fazer coisas diferentes da rotina e descobrir riquezas que estão aí, na nossa cara, pelo mundão. Quero falar que é muito bom sairmos da comodidade dos nossos escritoriozinhos, do egocentrismo dos nossos próprios projetos, e olharmos pra fora, porque são essas saidinhas que nos fazem, de fato, ter acesso à diversidade de pontos de vista sobre um mesmo assunto.

Às vezes não percebemos o quanto passamos 99% do tempo completamente focados na nossa rotina, acreditando que dela depende a paz mundial. Sei que, para muitas pessoas, falta motivação externa para fazer este tipo de coisa (chefes apegados à cartão de ponto, metas, prazos) e sobra motivação interna para mostrar que este tipo de “perda de tempo” não necessariamente é uma perda.

Uma das poucas vantagens de ser jornalista é ter este acesso a realidades diversas, e, na verdade, é uma das coisas que mais me atraem na profissão. E é por isso que eu quero contar a experiência de um dia produtivo, vivido na semana passada.

Participei da coletiva de imprensa que apresentou uma pesquisa feita com 400 adolescentes de todo o Brasil, que buscava identificar como as TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) influenciam na vida de meninas e meninos brasileiros. Dessa forma, buscava-se também descobrir e apontar os riscos que emergiram após a avalanche tecnológica que só tende a crescer – afinal, hoje, se você não sabe lidar com um iPad, desista – you are old!

A pesquisa é parte da publicação internacional “Fronteiras Digitais e Urbanas: Meninas em um ambiente em transformação” (“Digital and Urban Frontiers: Girls in a Changing Landscape”) e o evento foi realizado na Ong Obra do Berço, uma das parceiras neste projeto.

Era um dia normal por lá: dentistas tratando de dentes de crianças, merendeiras preparando o cachorro quente que seria servido depois do evento, faxineiros dando um trato no local. Fazia um sol bonito, que ressaltava ainda mais o colorido das paredes, o verde da grama, os desenhos e quadros espalhados, as cortinas esvoaçantes. A coletiva foi numa sala de aula minúscula, onde concentravam-se jornalistas, profissionais, crianças e adolescentes envolvidos com o estudo.

Alguns pontos me chamaram a atenção nesta experiência. Primeiro, alguns highlights interessantes, pra gente refletir: 79% das meninas disseram que não se sentiam seguras online, e, no entanto, quase 50% disseram que gostariam de encontrar pessoalmente alguém que tenham conhecido via web.

Obviamente é preciso olhar de forma critica pra estes números, afinal, pesquisas podem ser lidas com diferentes viéses. Mas é inegável que isso reflete muito sobre os problemas sociais que o Brasil enfrenta na questão da educação: como os pais e professores digerem essa merenda? Inclusive, uma das constatações do estudo é que os próprios adolescentes demonstram QUERER limites, ou seja, anseiam por liberdade de expressão mas, ao mesmo tempo, querem a proteção dos pais.

Achei legal também saber que, tanto as meninas quanto os meninos acreditam que o sexo feminino está mais vulnerável à violência. Isso pode ser explicado também no mundo offline: as mulheres estão mais expostas à violência, de um modo geral e historicamente falando. Em um bate-papo com a psicóloga que acompanhou a pesquisa, chegamos até a um consenso sobre o quanto a auto-estima feminina está impregnada nesta questão. Sabe aquela coisinha de querer ser aceita? Que pode ser interpretada como querer ser popular…ter mais amigos no Orkut…e aceitar “amigos” desconhecidos na rede, ampliando assim seu número de contatos – e riscos.

Outra riqueza do estudo – que, por outro lado, pode dificultar a leitura de alguns dados – é que foram ouvidas diversas classes sociais. Isso mostra o quanto o mesmo problema, em um mesmo país, pode ter diferentes nuances.

Nas entrevistas que eu fiz deu pra sentir um pouco disso. Uma das possíveis leituras dessa problemática é que a forma como a Internet é interpretada pode variar de acordo com a classe social. O jovem que vive em uma comunidade mais carente, por exemplo, pode encarar a Internet apenas como uma alternativa de diversão e, dependendo da comunidade, estar dentro de uma lan house é mil vezes mais seguro do que circular pela rua.

Já nas classes mais favorecidas existem um milhão de outras opções de lazer, sendo que a web é só mais uma. Além disso, existe uma demanda maior por parte das próprias escolas particulares em solicitar o uso da Internet como recurso para pesquisas escolares, a partir da ideia pré-concebida que este aluno tem um computador em casa. Compricado, não?

Ainda não tive tempo para ler o estudo inteiro e quero deixar claro que este é APENAS um recorte, vindo de uma das pessoas que eu entrevistei, ou seja, não existe preconceito, julgamento ou generalização. São apenas pontos de vista vindos de diferentes tipos de profissionais. Diversidade, minha gente, diversidade.

Tecnologia? Deixa com a gente!

O final do evento foi bem interessante. Por meio de uma videoconferência, o auditório da Ong (que estava repleto pela molecada *eufórica* atendida no local) foi conectado com o estado do Maranhão, com adolescentes que participaram da pesquisa nas cidades de Codó e São Luís.

Quem já participou de videoconferências bem sabe que, com poucos recursos, não tem como evitar o delay, a imagem que cai a todo momento, as falas sobrepostas. Confuso. Mas na verdade fazer o microfone funcionar ou ajustar a posição da câmera não era prioridade naquele momento. O mais importante, na verdade, era o encontro entre adolescentes de realidades tão diversas, e, ao mesmo tempo, tão completamente parecidos em sua essência. A faixa etária que ali se encontrava ia de 11 aos 19 anos, de todas as classes sociais.

A tensão do começo, devido à limitação tecnológica, desapareceu como um passe de mágica, no mesmo instante que o condutor da atividade largou o microfone nas mãos dos próprios adolescentes. Aí o negócio andou. É incrível como essa geração encara a Internet como algo natural. (#véia!)

A ideia é que eles fizessem perguntas uns aos outros, relacionadas ao tema da pesquisa. O que surgiu ali foram questões muito pertinentes, do tipo: “A Internet faz parte da sua vida ou é só uma diversão?”; “Vocês acessam pessoas desconhecidas no Orkut e MSN?”; “Já chegaram a se encontrar pessoalmente?”; “Você acha que o GTA, um jogo violento, influencia a sua vida?”. Quanto faro jornalístico, minha gente!!!

Neste momento, um dos parceiros internacionais, Michael Montgomery, de uma Ong canadense focada nos direitos humanos de adolescentes, me viu fazendo perguntas para algumas pessoas – eu tinha aproveitado o “fervo” para colher depoimentos. Então ele se aproximou dizendo que gostaria de saber o ponto de vista inverso: o que um jornalista brasileiro tinha achado sobre o trabalho realizado.

Achei interessante e comecei a gastar meu ingrêis sufriiido, com a ajuda fofíssima da assessora que o acompanhava (tenquiú girl!). Nesta conversa, ele contou um pouco do que viu em lugares como Tailândia, África e Timor Leste e disse que, de um modo geral, foi comprovado um comportamento omisso dos pais diante da violência virtual. É aquela coisa do “não querer enxergar”, sabe? Até porque, nos casos em que a violência é latente no mundo real, a tolerância à violência virtual também é maior.

Fechar-se para a realidade é uma forma de defesa, assim como fechar-se para o que é difícil ou diferente. Esse foi o meu aprendizado do dia amiguinhos, e só porque eu fui aberta a ouvir o que essas pessoas tinham a me dizer é que eu voltei com a sensação de que valeu a pena.

Nós, jornalistas, somos adestrados para desconfiar de tudo e de todos. Eu luto diariamente para não perder esse olhar desarmado. Não quero virar uma chata. Dia desses eu li, no prefácio de um livro, uma frase do Gilberto Dimenstein que grudou na minha mente: “Um dos critérios para medir a mediocridade de um indivíduo, qualquer indivíduo, é saber até que ponto ele vê o diferente, o inusitado, como uma ameaça ou fonte de riqueza.”

Vou lembrar dessa frase em todos os momentos em que eu me sentir ameaçada com o diferente ou acomodada com a tranquilidade da rotina. Mais do que a palavra da moda, levar “diversidade” ao pé da letra pra mim é isso – estar aberto a mudar o trajeto do trabalho, a agenda, as pessoas. Estar aberto a mudar de opinião, a ouvir opiniões. Estar pronto para reconhecer que olhar pra fora, às vezes, pode ser uma boa causa a ser abraçada.

Não vou (e nem quero, me deixa!) me desapegar das coisas que julgo importante, mas também não quero me cegar pro que está acontecendo ao meu redor – e a rotina nos escraviza neste sentido. Sei pra onde voltar, e pra quem voltar. E se eu puder viajar pra São Caetano, Tailândia ou Campo Limpo pra aprender algo novo e ver uma realidade diferente da minha, já valeu a pena ter passado por este mundão.

Do Campo Limpo para o mundo: próxima parada, Tailândia (espero que o universo ouça essa mensagem!)

Tem dias que eu tenho plena certeza de que fiz a escolha errada, há uma década atrás, quando optei pelo jornalismo, ao invés de investir na dança. Nestes momentos, tudo que eu gostaria de fazer era me esconder na minha toca e ficar assistindo, repetidamente, aos meus dois filmes preferidos ever – Flashdance e Dirty Dancing. Muito provavelmente, eu choraria nas mesmas cenas em que choro sempre, independente do fato de ter assistido a ambos mais de duzentas vezes.

Pra muita gente estes dois filmes podem parecer apenas mais duas porcarias clichezentas dos anos 80, mas pra mim eles dizem muita coisa. Nem vou ficar aqui explicando a minha história dramática de amor com a dança, pois isso renderia um livro. Acredito que, assim como a música, o gosto por filmes é algo muito pessoal. Uma história pode me tocar profundamente, mesmo sendo simples, enquanto, para outra pessoa, esse mesmo roteiro pode soar raso, banal ou simplesmente sem graça.

No caso, além do fato de reconhecer semelhanças entre algumas cenas e a minha própria trajetória na dança, eu também costumo fazer, inconscientemente, o paralelo de certas situações com a vida real.

Por exemplo, no Dirty Dancing, a cena que mais me emociona é aquela em que Baby e Johnny dançam ao som de “Hungry Eyes”. Para mim ela é muito emblemática porque é o momento em que Baby, de fato, se sente parte daquela coisa, se sente essencial no processo.

Recomendo que quem estiver lendo assista a cena, mas vou fazer um breve contexto pra quem não sabe do que eu estou falando (duvido que alguém não tenha assistido a esse filme, ele é um cláaassico da Sessão da Tarde). Baby é uma menina ingênua que vai passar as férias com a família em uma colônia. Ela é do tipo que chama mais a atenção pela inteligência do que pela beleza, porém, tem uma sensualidade escondida ali que nem ela reconhecia.

Em um dado momento, ela topa com nada mais nada menos do que Patrick Swayze (Johnny), no auge da sua virilidade, rs, lindo, sedutor, inacessível e, o melhor, exímio bailarino. Ele é o astro principal de um grupo que se apresenta diariamente no local. É claro que ela quer fazer parte daquela turma, que vara a noite dançando loucamente enquanto o resto da pousada descansa no silêncio careta dos seus chalézinhos.

Enfim, não quero fazer uma resenha do filme, até porque, né?!? Ele tem mais de VINTE anos e já foi visto por metade da população mundial, rs. A questão é que ela começa a se envolver com o grupo de dançarinos de brincadeira e, de repente, se torna uma peça importante nesse grupinho. A bailarina principal – Penny – engravida e Baby se vê como a única alternativa de substituição.

E eis que vamos para a cena que eu citei lá em cima (finalmente!!!). Johnny é um professor exigente, e não dá moleza pra coitadinha que por enquanto só está encantanda com a dança. Até esse momento do filme, Penny olhava para Baby com desprezo, como se fosse apenas mais uma hóspede apaixonadinha por Jonhny. Só que nesta cena, vira-se uma chave. O trio, que até então era composto por duas estrelas e uma espectadora abobalhada, vira um time. Let’s see it.

Em uma cena de apenas três minutos, são transmitidos conceitos que toda empresa gostaria de ver em suas equipes: parceria, liderança, respeito ao espaço do próximo, confiança no outro, persistência, seriedade, e por aí vai. Esse é um dos motivos que me faz chorar nessa cena. Será que, se eu tivesse optado pela dança, ao invés do jornalismo, eu teria mais acesso a cenas deste tipo?

Lógico que o filme prioriza o lado romântico da coisa, porém, a minha própria experiência na dança me diz que a arte requer este conjunto de habilidades para que um espetáculo dê certo. E eu vivi isso intensamente, ainda que nunca tenha atuado profissionalmente como bailarina.

Enquanto isso, no mundo da comunicação, muitos comportamentos recorrentes me tiram a energia aos poucos. Certamente, em TODO segmento existem os “ossos do ofício”, até na dança. Mas existe uma característica muito comum em pessoas da minha área que me cansa um pouco – a tal da opinião formada sobre tudo. Muitas vezes não sinto o “parar e pensar” antes de falar ou dar o próximo passo. A comunicação em excesso, o turbilhão de palavras e de informações de todos os tipos, sem filtro, é algo estressante.

Ao final do dia, sinto que na minha cabeça há um emaranhado de balõezinhos com frases feitas e “de impacto” que chegam a mim a todo momento, seja pessoalmente, no Twitter, nos programas de tevê.

Na dança, por outro lado, existe esse lance da concentração, respiração e equilíbrio individual e é só a partir disso que funcionam as duplas, trios, grupos. É disso que eu sinto falta. Dessa respirada das pessoas antes de tornarem públicos seus duros e inflexíveis posicionamentos. That’s sucks.

E olha, eu falo muito, até com as árvores e cachorros na rua. Mas preciso destes momentos de silêncio porque são eles que limpam minha cabeça do excesso de informação e aguçam meus sentidos para reparar nos detalhes do dia a dia. Só assim é possível tentar fazer de uma matéria trivial algo um pouquinho diferente, um pouco mais minimalista.

Acho que ter opiniões é muito rico mas mais rico ainda é saber a hora de compartilhá-las. É de uma sensibilidade muito bonita saber detectar quem está a fim de ouvir. No entanto, não gostaria que esse texto fosse entendido como uma crítica a esse comportamento, e sim, como um desabafo de alguém que está cansada, nada mais do que isso.

Até porque acredito que essa é uma questão de postura mesmo e, quanto a isso, cada um tem o direito de exercer a sua. Ou, talvez, eu esteja na área errada mesmo. O fato é que eu sempre fui muito comunicativa, desde muito pequenininha, mas ainda assim sou do tipo que prefere observar antes de me expor. No Twitter, sou mais de ler do que de falar. No Facebook, sou mais de ver fotos do que postar.

Em uma discussão acalorada, prefiro ouvir mais de um ponto de vista antes de disparar o que eu acho. Em uma entrevista, gosto de ter tempo pro contexto, pra entender a forma como a pessoa se expressa, o que a fez chegar onde está, e pra onde ela quer ir. É disso que eu gosto, de lidar com comportamento humano, identificar personagens interessantes, descobrir histórias de vida. Geralmente as mais simples são as que reservam as maiores riquezas.

Isso é o que me move e o que resolve minhas aflições quando acho que fiz a opção errada. Certamente, as nossas escolhas dizem muito sobre o que somos e é por isso que questiono constantemente as que fiz. Acho que isso faz parte da vida, não dá pra ser rosas e aplausos o tempo todo. Não teria graça nenhuma desencarnar em uma vidinha linear e quadrada.

A primeira entrevista que fiz na vida foi para um trabalho da faculdade, na qual eu poderia escolher uma personalidade qualquer e traçar um perfil. Como não sou boba nem nada, vi ali uma oportunidade de realizar um sonho antigo – me aproximar do Balé da Cidade de São Paulo, o primeiro grupo que assisti no teatro e um dos que eu mais gosto até hoje.

Escolhi a bailarina que eu mais admiro no grupo, Érica Ishimaru, uma japinha de pouco mais de um metro e meio mas que, no palco, é uma gigante. Aquele dia pra mim vai ficar guardado pra sempre, porque representa a primeira vitória que conquistei na minha área, com poucos meses de curso. Eu consegui a entrevista, ela foi muito receptiva e ainda me convidou para assistir a um ensaio! Fofa! <3

Eu não me cabia de tanta emoção, do auge dos meus 18 anos de idade. Portando meu gravadorzinho recém-comprado, desci a 23 de maio com o coração palpitando e fazendo uma imagem mental do que eu veria nos próximos minutos.

Aconteceu do jeitinho que eu esperava. Sentada no chão, eu não conseguia nem piscar. Mal podia acreditar que estava vendo de perto todas aquelas sapatilhas gastas. Eu estava tão perto dos bailarinos que podia ver cada contração dos músculos, ouvir o barulho do impacto que cada movimento causava ao pobre assoalho, a respiração, o toque, a expressão de desgosto com os erros, as comemorações vibrantes pelos pequenos acertos.

Para mim, este foi o primeiro exemplo de que observar e sentir o contexto de qualquer situação é algo muito enriquecedor. Hoje consigo perceber que, com relação à entrevista em si, não tive grandes inseguranças. Não fiquei com medo de cometer gafes – eu dominava o assunto – tampouco de gagejar na frente da entrevistada. Aconteceu de forma tão natural que tive a impressão de ter nascido praquilo. E na verdade eu fiz aquela entrevista pra mim, não pra faculdade, nem pra história do jornalismo, rs. Acho que é isso que procuro diariamente, na verdade.

Trabalhar na área de comunicação me trouxe e ainda traz muitas incertezas, estresse e dores no estômago, mas também muita experiência, sensibilidade, malícia e olhar apurado. A comunicação é uma eterna dança, na verdade. Escolhendo os parceiros certos, dá pra sair um bom baile.

Por outro lado, a dança também é comunicação: a do corpo. Dois corpos que se entendem sem precisar de palavras, apenas com a condução correta de movimentos. Não existe nada mais bonito do que isso, na minha opinião. Um diálogo que poupa palavras e se mostra por meio do toque, do olhar, da energia que pulsa e leva ao próximo passo.

Tem dias que, de fato, me sinto isolada e sozinha em um canto, enquanto o resto das pessoas está bebendo, falando e dando risada, como na clássica cena deste mesmo filme – “Nobody puts baby in a corner”. No entanto, prefiro acreditar que, no final das contas, vou ouvir essa frase e seguir dançando com um sorriso no rosto e a certeza de que a dança da comunicação ainda vale a pena.

Don’t be afraid to lose control

Na semana passada assisti a três filmes que, de diferentes maneiras, tratam de uma temática em comum: e exclusão social. Comecei com “Um sonho possível”, que fez com que finalmente Sandra Bullock ganhasse uma estatueta pra chamar de sua; passei por “Preciosa”, com a estreante Gabourey Sidibe; e terminei na pré-estreia de “Sonhos roubados”, de Sandra Werneck, que chega aos cinemas na próxima sexta-feira (23).

Usei o “rótulo” da exclusão social simplesmente para criar um elo entre as histórias, uma vez que, nos três casos, os protagonistas foram por algum motivo colocados à margem da sociedade. E essa também é a razão pela qual os três roteiros também falem muito sobre esperança, sobre a busca por um final feliz.

Diante das duas produções festejadas no Oscar, e uma brasileira, a que mais me tocou foi justamente a delicada história contada pela jornalista Eliane Trindade, em “Sonhos roubados”. Foi ela quem começou a escrever sobre prostituição de adolescentes para uma reportagem especial, sem maiores pretensões. Frente à dimensão do problema e à riqueza das histórias, resolveu engrossar o caldo e publicar o livro “As meninas da esquina – Diários dos sonhos, dores e aventuras de seis adolescentes do Brasil”, que inspirou Sandra Werneck a levar a trama para o mundo cinematográfico.

Foto: Divulgação/Vantoem Pereira Jr.

O filme é incrível, verdadeiro, sensível. Ao final da sessão, houve um debate aberto organizado pela Folha de São Paulo, com a autora do livro e a diretora do filme, o que tornou aquela noite ainda mais interessante. Entre perguntas sobre a seleção do elenco e as dificuldades em torno da produção, um comentário em particular me chamou atenção. Um moço levantou a mão, se apresentou, elogiou o filme mas fez questão de impor uma ressalva: não tinha concordado com o desfecho que, segundo ele, não ficou muito claro.

Posso estar enganada mas entendi a observação como uma ânsia pelo final feliz, aquela coisinha meiga e reconfortante que a gente fica esperando inconscientemente. Aquele momento que põe um sorriso no nosso rosto e vibramos como se fôssemos amigas íntimas daquela linda mulher, a prostituta que passou por um up grade e migrou das ruas pro cangote cheiroso de um Richard Gere lindo, bom de cama, sem preconceitos e, ora pois pois, milonário.

Alguns minutos depois, eu mesma resolvi levantar a mão e fazer uma pergunta pra autora do livro. Queria saber qual era o objetivo dela quando começou a escrevê-lo, sem considerar que ele pudesse virar um filme e ter um repercussão muito maior. Que tipo de impacto social ela quis gerar? Então ela me surpreendeu com a resposta mais simples e honesta possível: eu só queria contar uma boa história.

E, ainda que sem perceber, acho que ela acabou respondendo a pergunta do colega a algumas fileiras à frente da minha. Porque se tem uma coisa que é certa, é que a histórias de Jéssica (Nanda Costa), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias) são excelentes. Elas são adolescentes inseparáveis, vivem em uma comunidade carioca e encontram na prostituição um meio de sobrevivência.

A despeito da dureza de ter que vender um corpo recém-descoberto, elas levam a vida com a leveza comum à adolescência. Vão ao baile funk, tomam cerveja, paqueram, pintam o cabelo e as unhas com cores berrantes, tomam sol na laje, vão à praia, dançam, sonham. E apesar da realidade difícil, penso que não tinha que ser diferente…acho que seria hipócrita se o roteiro as colocasse no papel de vítima.

Eu digo isso porque acho que o preconceito com quem é socialmente menos favorecido às vezes é tão sutil que quase se passa por boa vontade. Querer um final feliz para uma garota que se prostitui é partir do pressuposto que a vida dela é uma bosta e que se ela continuar assim não vai conseguir nada além de doenças, traumas e uma penca de filhos de pais diferentes/desconhecidos.

Então bora se colocar um pouquinho na pele dessa garota? E se ela resolveu acreditar que, dentro da realidade em que vive, se prostituir foi o melhor caminho? Pra mim, que tive casa, família e educação, fica muito fácil nunca ter considerado a hipótese de virar puta pra pôr comida em casa.

Essa visão se tornou ainda mais clara pra mim quando fiz meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, um livro-reportagem sobre meninas da antiga Febem, atual Fundação Casa (daí eu ter gostado taaanto de Sonhos Roubados…tive um dejavú por segundo assistindo o filme <3).

Dentro da Febem elas tinham de tudo: curso de cabeleireiro, crochê, informática, dança do ventre…agora pergunta o que elas queriam MESMO? Elas queriam a sua liberdade pra voltar pra suas vidas, suas comunidades, seus namorados, ainda que eles fossem bandidos ou traficantes (fato na maioria das histórias).

Não estou defendendo o tráfico, nem a prostituição, nem o mundo do crime. Só que não dá pra achar que essas pessoas têm a obrigação de querer outro tipo de vida. Afinal, o mundo é injusto e, infelizmente, as oportunidades não são as mesmas no momento da largada.

Este tipo de preconceito velado ao qual me refiro é o mesmo (e este me irrita ainda mais) que limita as pessoas de acordo com a sua condição social, credo, cor. Gente que vê o sucesso de um pobre/preto/mulher/deficiente físico _______ (insira aqui sua minoria preferida) com espanto, como estivesse diante de uma aberração. Ou, pior, olha com fofisse, como se estivesse vendo um animalzinho na gaiola.

Tenho vontade de perguntar: JURA que você acha que essa pessoa é anormal por ter se dado bem na vida? Gente, qualquer ser humano é capaz de qualquer coisa e só depende da própria força de vontade. Por isso, despir-se de preconceitos requer um olhar muito mais apurado das coisas. É o famoso “o buraco é mais embaixo”.

Em meio a toda essa reflexão que me acompanhou durante a semana, em torno dos três filmes, fui sugada pela realidade de duas situações cotidianas e muito incômodas. Minha irmã foi assaltada duas vezes em um período de 15 dias. Da primeira vez, três meninos que aparentavam não mais do que 12 anos de idade mostraram o revolver e levaram tudo o que ela tinha naquele momento, voltando do trabalho em um puta trânsito de véspera de feriado – carro, bolsa, celular, carteira, documentos.

Da segunda, outro molequinho, em um farol movimentado perto do metrô Vila Mariana, enconstou na janela do carro portando uma faca enferrujada: “Eu só quero o celular”, disse ele. Esse ela conseguiu enganar (já profissa no esquema, rs), dizendo que estava sem, e ele se contentou com o relógio no pulso esquerdo, adquirido na 25 de março e com a bateria capengando.

Invasão, pânico e rancor são alguns dos adjetivos que podem traduzir o que eu e minha família sentimos, e ela, mais ainda. Ou então também podemos traduzir essas duas cenas como “fruto da exclusão social”. É aquele velho ciclo sem fim, do menino que não tem pai, nunca pisou na escola, a mãe sabe Deus onde está, então ele cheira cola pra passar a fome e o frio…e assalta pra ter o que comer.

É um discurso muito poético e eu acho que só consigo realmente descrevê-lo porque, acima dos prejuízos materiais – que a gente conquista novamente – a integridade física da minha irmã foi preservada. Talvez eu não sustentasse essa ideia se a situação tivesse sido mais drástica.

Prefiro afastar estes pensamentos e me apegar ao final feliz. Do primeiro assalto, o carro foi recuperado, a vida voltou ao normal. No segundo, eu estava comemorando meu aniversário, rodeada de amigos queridos, que fizeram o possível para eu entender que essa foi só uma mensagem do universo pra ela, e não uma nuvem negra que se instalou e não vai passar. E a vida seguiu de novo.

Ela está um pouco traumatizada, mas acredita fortemente que, se passou por dois assaltos ilesa, definitivamente ela é uma menina de sorte. E é assim, em busca de finais felizes diários, que a gente toca nossa vida. Não dá pra achar que sem uma carreira de sucesso, uma família doriana e um carro blindado não vamos viver uma vida memorável.

Ontem eu estava assistindo a um programa e em um determinado momento a apresentadora falou uma coisa que fez muito sentido pra mim. Normalmente quando somos mais jovens nos damos ao luxo de nos deprimir, porque, inconscientemente, entendemos que temos tempo pra gastar e resolver nossas angústias. Com o passar dos anos, o espaço dedicado à tristeza e ao recolhimento tem hora certa pra começar e acabar, afinal, não há tempo a perder.

É essa mensagem que “Sonhos roubados” me deixou. As meninas na verdade são novas só na idade. Já viveram muito pra se permitirem sofrer. Então, enquanto dependem da prostituição pra sobreviver, preferem se divertir um pouco já que a vida não tá fácil. Uma lição e tanto, principalmente pra aqueles que são cercados de oportunidades e, mesmo assim, não vivem o hoje pensando no amanhã. Preferem se sujeitar a uma rotina marromeno em nome do dia em que finalmente comprarem um carro incrível, uma cobertura em uma região nobre, um sonho. Que roubada!

As meninas do filme, na minha opinião, não tiveram seus sonhos roubados, simplesmente porque elas não vivem de sonhos, e sim, de pura realidade. E se a realidade é agora, o sonho ideal é viver a vida como qualquer adolescente a encara, independente do filme que protagonizam – com alegria, leveza e bom humor.

Life is…precious.

Beyoncé rebolava ao lado das suas duas fiéis bailarinas, sacudindo cada músculo do corpo e jogando os cabelos pra cima e pra baixo, nervosamente. Notei que aquele clipe era muitíssimo parecido com os outros que eu já tinha visto da mesma cantora, quase idêntico, mas a constatação não foi motivo suficiente para que eu não ficasse hipnotizada com a dança, o vozeirão e a beleza estonteante da moça.

Obviamente aquele clipe não me despertou nenhum senso crítico porque, musicalmente falando, eu sou bem mais rasa do que o Daniel por exemplo. Ele, por sua vez, via a mesma imagem que eu, só que sofrendo muito e resmungando mais ainda. Eu imagino que esse tipo de música chega a doer nos ouvidinhos dele, que tiveram como primeira referência musical os Beatles, aos cinco anos de idade, e desde então passaram a filtrar quase tudo com este humilde parâmetro.

Diante disso, eu me pergunto: qual a fórmula que faz algo se tornar pop?
Eu por exemplo acho “Dancing Queen”, do ABBA, a música mais foda do planeta, compartilhando da opinião de outras milhões de pessoas. Ou seja, ela é pop. E o que isso quer dizer?

Que ela é pop por ser mais acessível ao grande público? Então ela é pobre musicalmente? Ou ela não tem tanta qualidade musical quanto uma música do Philip Glass por exemplo, que eu também gosto de ouvir, por “n” motivos, mas que é tido para a maioria das pessoas como “música pra gente chata”? Uma coisa é certa: ele não é pop.

Me recuso a acreditar que ser pop é sinônimo de falta de qualidade, e os grandes nomes da música mundial estão para aí para nos confirmar: Michael Jackson, Beatles, Elvis, Madonna…não estou colocando tudo no mesmo balaio, mas é claro que se eles conseguiram afetar um imenso número de pessoas e até mesmo influenciar gerações, é porque fizeram um bom trabalho. Eles são pop, ainda que alguns estejam léguas abaixo da terra.

Obviamente não cheguei à conclusão nenhuma sobre esta questão, mesmo porque, quem sou eu pra querer explicar o fenômeno pop, né, minha gente? Mas quando comecei a fazer essa viagem maluca não era em música que eu estava pensando efetivamente, e sim, em pessoas.

Especialmente porque, impossibilitada de saracutear por aí por causa do pé quebrado, só me resta refletir nesta vida, rs. E se tem uma coisa que eu estou aprendendo com esse período de molho, é rever a ideia que eu tinha das pessoas que me cercam.

Bendito seja o cabeção que disse que, quando se está na merda, é que os verdadeiros amigos se manifestam e se fazem presentes. Comecei então por rever a quantidade de amigos que eu tinha aos 14, 15 anos, e a quantidade que tenho agora, beirando os 30.

Cheguei à conclusão de que eu já fui pop. Mas não pop do tipo princesinha do baile, amiga querida que todas as meninas invejavam, que era convidada pra sair pelo cara mais gato da escola. Eu simplesmente era conhecida, conhecia muita gente, tinha vários núcleos de amigos e, por mais estranho que pareça, um não tinha nada a ver com o outro. Como eu conseguia transitar entre tantos ambientes diferentes é que eu não sei.

Quando eu entrei pra dança de salão, isso ficou ainda mais nítido. Eu costuma chamar meu mais novo grupo de “amigos da dança”, e circulava por diferentes lugares em busca da mais perfeita pista para se dançar zouk, bolero, salsa, gafieira, etc. Eu também era pop nesse meio – conhecia muita gente, dançava com todo mundo (todo mundo MESMO) e, na maioria das vezes, ia sozinha pros lugares, com a plena certeza de que encontraria conhecidos por lá. E era o que acontecia.

O resultado dessa maratona insana eram muitas, mas muitas dores no corpo e nenhuma amizade que eu pudesse efetivamente chamar de verdadeira. As dores eram decorrentes da minha falta de critério ao aceitar dançar com qualquer um. Ao contrário do que muita gente pensa, dançar – mesmo que só por diversão – exige técnica e dedicação (homens: fikdik, rs). Além disso, quando você vai a um lugar pra dançar, não é necessariamente um bom papo que você está procurando. Então, com o tempo e com a chegada de outras prioridades na minha vida, acabei indo cada vez menos pras baladas desse tipo.

E isso não quer dizer que eu deixei de lado meu amor à dança: muito pelo contrário. Ainda que eu vá uma vez a cada semestre, quando vou é pra dançar com qualidade. Meu parceiro fiel nestas ocasiões é o meu eterno professor de dança, Celso Gazu, que além de ser um amigo verdadeiro é um mestre e não me deixa nenhuma sequelazinha de dor no dia seguinte.

E estou falando da mesmíssima coisa quando me refiro aos amigos de verdade. Quando olho pra trás, não considero que eu era rodeada de gente falsa, mas a questão é que nem todas as pessoas que conviviam comigo efetivamente me acrescentavam alguma coisa. E eu não me importava com isso.

Também pudera: atire a primeira pedra quem se preocupava com qualidade (em qualquer quesito) do alto dos seus 15 anos de idade. Nesta época, o que importava era lotar os carros e ir com um número maior de pessoas pras baladas, viagens, barzinhos, festas.

Com a idade (cof, cof), essa euforia passou – tanto a de dançar como se não houvesse amanhã, quanto a de ter uma turma imensa de amiguxos lindos estampando um gigante mural de fotos. Ao menos pra mim, passou. Passei a valorizar a dança com o parceiro certo. Compartilhar alegrias, angústias e dúvidas com as pessoas que realmente estão interessadas em ouvir.

Isso porque, com muito custo, aprendi dizer não praquilo que não me acrescenta algo de bom, relevante, ou novo. Ou para aquilo que simplesmente me afeta negativamente de alguma forma. Sim, porque pior do que as pessoas que “não cheiram e nem fedem” são aquelas que, mesmo sem querer, tiram boas doses da sua energia diária.

Custo a entender as pessoas da minha idade que ainda acham quantidade algo relevante – o número de seguidores do Twitter, de pessoas ou ligações na festa de aniversário. Quem ainda acha que legal é ser pop, e não ter um grupo seleto de pessoas que efetivamente fazem a diferença na sua vida.

Talvez eu esteja ficando uma velha chata mesmo, mas a questão é que me faz bem saber diferenciar quem é amigo de cerveja e quem é amigo de pé quebrado. Isso ficou ainda mais claro pra mim agora, no período de repouso. Amigos que nem convivem comigo e estavam bem longe fisicamente demonstraram sua preocupação, seja por um e-mail, por uma ligação, pelo Twitter.

Outros se dispuseram a ajudar, a fazer uma visita ou até mesmo a vir almoçar comigo. Achei tão sensível essas pessoas perceberem que, em 45 dias sem poder sair pra trabalhar, talvez eu quisesse uma visita que agitasse um pouquinho minha nova rotina.

O fato é que em meu primeiro carnaval fritando dentro de casa, tive tempo suficiente pra refletir sobre tudo isso e, inclusive rever conceitos sobre quem eu realmente quero levar pra minha vida, em todos os momentos.

Estou aprendendo a esperar menos de quem não tem muito a me dar. E a ouvir apenas quem realmente tem o que dizer, não quem dispara opiniões sem ter a menor sensibilidade ou preocupação em saber se está falando merda. Ignorar os lemas de quem só abre a boca pra ser aceito, pra causar impacto, pra ser pop.

Felizmente, não terei que me juntar a 50 milhões de leitores pra descobrir “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, segundo o escritor americano Dale Carnegie. Prefiro influenciar poucos, mas significativos. Escolher amigos é uma arte refinada, difícil e rara, em uma era em que o “influenciar” perde para o “cultivar”.

Pra mim, mais legal do que ser pop é poder contar com aqueles que gostam de mim do jeito que eu sou, sem julgamentos, independente se gosto de ABBA ou do Philip Glass; se danço zouk; se me emocionei assistindo a última pérola pop do cinema americano, Avatar; ou se ainda acho graça da série mais pop de todos os tempos, Friends. Isso sim é fazer amigos influenciar pessoas. E, definitivamente, não é lendo um livro que a gente aprende a fazer isso.

Beyoncé says: “Oh, men, that’s a terrific book! That’s my favourite!

Não era pra eu ter ido àquele debate, não era mesmo. No entanto, minha mania de abraçar o mundo falou mais alto: “Vai dar tempo”, pensei. Tentei me cadastrar como imprensa, uma semana antes, com o objetivo de conseguir um crachá que me permitisse fazer perguntas aos componentes da mesa. Em vão.

Segunda tentativa, me cadastrar como visitante. A resposta veio em poucos minutos: eu estava na lista de espera, uma vez que os 100 primeiros lugares já estavam ocupados. Beleza! Desencanei do evento e fui cuidar da vida, afinal, cada minuto do meu dia vale ouro. Quédizê, ouro, oooouro, não vale, mas vale o meu honesto salariozinho que ganho com tanto esforço.

Com tanta coisa na cabeça, uma semana depois eu já havia esquecido do tal cadastro. No entanto, quando abri meu e-mail pela manhã recebi a notícia que todas as pessoas da lista de espera participariam do evento.

Ok, lá vou eu repaginar meu dia. Corre daqui, adianta essa matéria, passa essa pro outro repórter, putz, tenho que ir ao banco, então vou almoçar em 20 minutos…ufa, será que consigo sair daqui às 17h pra chegar lá às 18h?

Com muita correria, consegui sair às 17h40, obviamente atrasada. Sento o pé no acelarador, mas desanimo ao chegar na Av. Dr. Arnaldo, coalhada de carros em frente ao metrô Vila Madalena. Opa! Tive uma ideia. Vou largar o carro aqui e ir de metrô, em 20 minutos estarei no local do evento – o auditório do Masp.

Dito e feito. Cheguei ao local com 20 minutos de atraso, apenas. Já havia começado, mas valeu muito a pena. Me uni às outras 200 pessoas que assistiam, com entusiasmo, Gilberto Dimenstein,  Marcelo Tas e diversos outros convidados a falarem sobre cultura e apropriação do espaço urbano da capital paulista.

O evento terminou e, embora a discussão tivesse sido rica, não rendeu nenhuma pauta para os portais para os quais escrevo. Senti uma coceira: preciso tirar alguma coisa disso aqui. Os debatedores, providos de uma paciência que eu não teria, se mantiveram no palco por uma meia hora pra atender estudantes, curiosos e puxa-sacos que se enfileiravam para garantir suas novas fotos do Orkut.

Com receio por estar sem crachá de imprensa, esperei a poeira baixar. Falei com um, com outro e, quando vi que restavam apenas duas ou três menininhas ao redor do Tas, me antecipei: “Posso ser a última?”. Pacientemente, ele respondeu à pergunta que formulei, de maneira atrapalhada e de última hora.

Feliz com a surpresa do imprevisto, fui embora. Para um evento em que o destino me forçou tanto a desistir, até que me saí bem – sem credenciamento, mas com um depoimento bacana. Debaixo de chuva na Av. Paulista, liguei primeiro pro meu namorado, depois pra minha irmã: “Entrevistei o Tas!”, disse, saltitante. Durante o trajeto do metrô, escrevi mentalmente minha matéria.

Desço na estação brigando com o meu guarda-chuva, que teimava em virar pra cima. Com uma bolsa na mão e uma sacola ecológica na outra, só tive tempo de ver o homenzinho ficando verde pra mim, que naquele momento “estava” pedestre.

Um carro vinha em minha direção e, em poucos segundos, estava em cima do meu pé esquerdo. Gritei de dor. Caí no asfalto molhado, parando o trânsito. O motorista, transtornado, não se deu conta que estava em cima do meu pé.

Eu chorava, gritando: “Dá ré!” e, no mesmo instante, um coro de gente repetia a mesma coisa. Ele percebeu e recuou. Desceu do carro tão assustado quanto eu. Meu pé pendeu pro lado esquerdo. Fiquei com medo de olhar o estrago.

Pensando agora, com calma, não sei se a dor era mesmo tão grande ou o susto é que foi maior. Com tantos afazeres na cabeça, com tanta coisa pra resolver, como eu podia estar ali, caída bem no meio daquele cruzamento? Por incrível que pareça, a segunda pergunta que fiz pra mim mesma naquele momento foi: “Como vou cumprir todos os meus compromissos profissionais sem poder andar?”. A primeira, obviamente, foi como eu avisaria minha família sobre a situação.

Ironicamente, a semana seguinte seria uma das mais críticas no meu trabalho, já que teríamos uma Campus Party pela frente e estávamos nos programando pra trabalhar diretamente de lá, com todos os percalços que uma cobertura externa pode nos acarretar. Mas já estava feito e tudo que não dizia respeito ao meu pé acabava de se tornar secundário.

Pude perceber que o momento de um acidente é, indiscutivelmente, cinematográfico. Surgem anjos que você não sabe de onde saíram, para segurar sua mão e amenizar a dor do corpo e da alma. Aquele cenário que parecia caótico até um segundo atrás – chuva incessante, trânsito absurdo, buzinas, aglomerado de pessoas – fica congelado em torno da vítima. O farol, a pressa de chegar em casa ou de alcançar o ônibus tornam-se meros coadjuvantes.

Meu corpo inteiro tremia de frio, afinal, a chuva não dava trégua. O moço que me atropelou tirou a camisa do próprio corpo pra me cobrir. Vendo que não adiantou, passou a tirar tudo o que tinha no carro pra colocar sobre mim: uma calça jeans usada, um pedaço grande de plástico, uma caixa de ventilador.

A moça que segurava minha mão era irmã do motorista e voltava da festa da sua colação de grau. Usava um vestido preto e maquiagem leve. Seu rosto bonito e sua voz suave conseguiram me acalmar pelos próximos 20 ou mais minutos que fiquei ali, deitada, esperando o resgate – ainda bem que foi só o pé! Perguntei em que havia se formado, ela respondeu Psicologia, e disse também que pretende se especializar em Psicologia Hospitalar. Bingo! Não à toa, virou minha companhia constante até tudo se resolver.

As cenas que seguiram foram inéditas, ao menos pra quem nunca sofreu um acidente. Bombeiros testando minha consciência, maca, teto da ambulância, chegada ao hospital, pessoas te olhando, diversos enfermeiros e médicos fazendo perguntas, policial com prancheta na mão.

Eu só conseguia pensar que, se um machucado no pé causa todo este transtorno, o que é sofrer um acidente grave? Agora, na pele de uma acidentada leve, consigo ao menos imaginar. Duas horas depois, meu diagnóstico saiu, com uma boa e uma má notícia.

A boa é que fraturei apenas um ossinho do pé, sem lesões ou consequências mais graves. A ruim é que terei que ficar de 30 a 45 dias em repouso absoluto, sem poder, em hipótese alguma, colocar o pé no chão. Quem me conhece sabe que ficar parada pra mim é o pior dos castigos.

O médico que me deu a notícia tinha um aspecto paterno e me fez sentir criança, fazendo recomendações pausadamente com uma voz suave. Ao ver a tatuagem “Dance” no meu pé direito, deu um sorrisinho de lado e soltou o comentário óbvio: “Ainda bem que não foi nesse, né? Mas não se preocupe que você vai voltar a dançar.”

A tala não ofusca minha francesinha nas unhas – afinal, o charme a gente não perde assim, em um acidente qualquer ;-)

Fiquei meio transtornada, tanto que cheguei a perguntar se eu não poderia dirigir com a tala. Oi?!? Demorei a entender que, nos próximos 45 dias, eu deixaria de fazer 90% das coisas que eu faço normalmente. E, finalmente, me senti dependente de tudo e de todos.

Ainda estou digerindo a ideia mas posso afirmar que, de tudo isso, já consigo tirar duas coisas boas. A primeira é ser grata aos meus anjos da guarda que me protegeram de inúmeras desgraças maiores: e se eu estivesse de salto? De rasteirinha (eu estava de All Star!!!)? E se no momento que eu caísse, fosse atingida por um segundo carro? Ou batesse a cabeça? E se o moço que me atropelou não tivesse prestado socorro? Enfim, existem mil e um desdobramentos pra este efeito borboleta. Posso afirmar que o final dessa história foi feliz – e me considero uma menina de sorte por isso. =)

A outra coisa tem a ver com a mania que muitas pessoas têm (e eu me incluo nisso) de se acharem imprescendíveis. Sim, porque estou tendo um trabalho danado pra acreditar que deixarei pessoas na mão durante este período. A ideia de achar que alguém precisou de mim e eu não estava lá me perturba, e muito.

E mesmo não podendo caminhar (acreditem: isso complica MUITO a vida), fico igual uma louca tentando conciliar tudo, sendo que absolutamente ningúem além da minha própria família e do meu namorado está realmente preocupado se estou sentindo algum tipo de incômodo. Mas enfim, terei um mês pra exercitar o desapego e a paciência, depois escrevo outro post pra dizer se aprendi.

Minha nova inseparável amiga tem pezinhos estranhos

Pra finalizar, queria enfatizar que o maior intuito deste texto foi o de reafirmar, de uma maneira um pouquinho mais criativa, clichezões como “aproveite a vida”, “dê valor ao que você tem, “entenda a sua insignificância e não pense que sem você o mundo vai parar”, “não pense que você tem o domínio da sua vida, porque você não tem!”, e blá blá blá.

Acredito que pratico alguns destes belíssimos ditados mas, com a loucura da vida, confesso que sou engolida pela insana mania de tentar resolver tudo, e ao mesmo tempo.

Acredito muito nessa coisa de destino e acho mesmo que isso tudo aconteceu pra me ensinar alguma coisa. E a mais notória pra mim é que eu sou muito importante sim, mas sobretudo pra mim mesma. Cada articulaçãozinha do meu corpo tem a sua importância e compõe a minha verdadeira essência – em carne, osso e atitude. Colocar-se em primeiro lugar é o que realmente importa, pra saber lidar com os imprevistos – felizes ou tristes – com os quais a vida nos brinda.

É preciso cumprir compromissos com menos seriedade e mais sutileza, pra não se decepcionar tanto quando eles são interrompidos ou simplesmente não dão certo. Permitir-se levar a vida leve… como o efeito das asas de uma borboleta. É isso que eu quero pra mim.

Eu tenho medo de casar. É, sempre tive. Na verdade, sempre me senti um pouco anormal por não sonhar com vestido de noiva, daminhas e pagens espalhando pétalas de rosa pelo meu caminho, votos de compromisso e trombetas angelicais.

Aliás, toda vez que ouço a marcha nupcial em casamentos eu sofro fisicamente, o que se resume a um misto de frio na barriga e enjôo. Temo pelos dois pobres coitados que estão entrando na igreja, e não consigo controlar o bombardeio de mau-agouros que rondam minha cabeça: o que será que eles estão pensando neste momento? Que ficarão MESMO juntos até que a morte os separe? Que respeitarão um ao outro na tristeza e na alegria? Que a vida de casados vai ser romântica e regada à libido?

Pra mim é nítido que essas pessoas estão jogando dinheiro fora, uma vez que, com toda certeza, vão se separar. Durante estes eventos, eu sofro. Muito. E na hora do buquê então? Nestes momentos, geralmente estou do lado oposto do burburinho, olhando com cara de desprezo as solteironas que se acotovelam pagando micos homéricos.

Vestido de noiva? Acho tudo igual. O neurônio feminino que distingue, há quilômetros de distância, um vestido com um bom corte de um vagabundo, não habita meu cérebro. No tal grande dia, sou capaz de achar que tanto a minha vizinha quanto a Lady Di têm o mesmíssimo aspecto. Quando o assunto é casamento, eu penso como homem m-e-s-m-o, porque, pra mim, ele se resume a três palavras: fim da linha.

Ao contrário do que possa parecer, não julgo os que sonham casar, nem a festa, nem o vestido, nem nada. Só nunca quis pra mim. A verdade é que eu sempre gostei da solteirisse. E a questão não era poder ficar livre pra pegar quem eu quisesse, mas sim para FAZER o que eu quisesse, sem me preocupar se vou magoar alguém ou ter que dar satisfação pra onde vou. Como sempre fui amante da dança, preferia dançar a namorar.

Minha mãe cansou de rezar pra Santo Antônio pra que eu mudasse de idéia, afinal, a vida toda ela me ouviu dizendo que não casaria. Eu sempre a tranqüilizava dizendo que, para mim, “solteira” não é sinônimo de “encalhada” ou “sozinha”. Eu sempre ressaltei que, caso viesse a envelhecer só, jamais seria triste, afinal, eu sei ser feliz comigo mesma.

Não era um discurso feminista, era sincero. Mesmo porque nunca descartei a hipótese de encontrar alguém de verdade (alou, eu gosto de homem!), eu só não procurava. Tanto que meu discurso, embora profético, sempre acabava com um tom animador: “Mãezinha, se aquiete. Quando eu encontrar alguém que tenha a minha cara, não vou ficar enrolando, namorando, noivando…vou me juntar rapidinho, você vai ver.”

E como tudo que a gente joga pro planeta realmente acontece, tou eu aqui, mais casada do que nunca. Aconteceu tudo como eu planejei, mesmo que sem querer. Eu conheci o Dan e, com seis meses de namoro estávamos morando juntos, e assim estamos até hoje – dividindo contas, problemas e muitos, muitos momentos bacanas. Isso não é casamento? Bom, pra mim é. Mas pras nossas católicas famílias, não. Lógico que elas anseiam por uma festança que marque esta passagem, que pra mim já aconteceu faz tempo.

Como eu não sou louca de contrariar minha gordinha, resolvi começar a pensar na possibilidade. Comprei então uma revista de noivas, pra ver se eu me animava (nem eu acreditei). Comecei a ficar assustada já na banca, quando a moça que me atendeu abriu um enorme sorriso e passou a falar com a voz da Sandy quando eu disse que estava pensando em me casar. Ao abrir a revista, fui direto ao editorial, pra ver o que tinham a me dizer. Tenho certeza que 99,9% das noivas não lê nem a primeira frase desta seção, afinal, oras bolas, o que importa são os vestidos!

Choquei com algumas frases do tipo: “um vestido de deixar todo mundo de boca aberta e ser comentado ao longo de todo o ano” e  “cheirinho de amor e sabor de chocolate com morango”. Meu, é muita melação pra uma coluna só, desculpa. Folheei apressada e impaciente e, assim que cheguei em casa, arremessei a revista no criado-mudo, lugar onde ela está até hoje, empoeirada.

Meses se passaram e eu dei um “abafa o caso” no assunto, mas pra minha falta de sorte ele voltou a tona em grande estilo. O irmão do Dan casou no último final de semana, como manda o figurino. Nem preciso dizer que o evento passou a ser a desculpa perfeita pra todo mundo nos cobrar em tom de brincadeira sobre a oficialização.

Tudo estaria bem se eu fosse uma pessoa que cagasse pra minha família e pros meus amigos. Se eu ignorasse o fato de que minha vozinha provavelmente iria morrer de emoção no meu casamento, que minha mãe ia se sentir plenamente realizada, que todos os meus amigos ficariam extremamente felizes – tantos foram os que acompanharam de perto minha história com o Dan e torceram intensamente.

Então eu mesma passei a me cobrar. Por que tenho tanto medo de casar? Comecei a puxar na memória e, apesar de achar que isso é caso pra terapia, existem alguns indícios bem óbvios.

Um dos motivos é o fato de eu ser bastante independente mesmo. Não consigo me lembrar de um dia que deixei de sair por falta de companhia. Meus pais sempre foram muito liberais comigo, e isso fez com que, na adolescência, eu tivesse algumas vantagens em relação às minhas amigas – ir às matinês, viajar, passear. Então eu tinha que escolher: ou esperava as raras vezes em que eram liberadas pra sair, ou eu ia sozinha. Eu optava por ir sozinha.

Outro motivo é a bagagem mesmo. Conheço tantos casais que eu julgava perfeito e que o casamento desgastou…que só de pensar nestes exemplos me dá mais medo de colocar a aliança…

Em meio a essa história toda, minha avó materna completa 80 anos este mês. Como jornalista da família, fiquei responsável por fazer o vídeo que irá homenageá-la na festa. Deparei-me com a certidão original de casamento dela, além de lindas fotos de momentos alegres dela ao lado do meu avô.

Ela teve a sorte de se casar com o homem que amava em uma época em que os pais escolhiam os maridos. Ele era um moreno bonito, falador e muito carismático – não é à toa que eles ficaram juntos por mais de 50 anos. Quando ele faleceu, ela poderia ter arrumado outra pessoa, mas não quis. Pra ela “não existe outro Tião no mundo”. Até hoje, quando fala dele, abre um sorrisão apaixonado.

Do alto da minha teoria sobre casamentos mau-sucedidos, me senti bem idiota. Sempre achei que quem se “entrega” ao casamento não sabe direito o que está fazendo, mas descobri que é justamente o contrario. A cagona da história sou eu. Quem decide apostar em um compromisso sério definitivamente é alguém corajoso, que quer viver intensamente, dure o tempo que durar. Ninguém casa pensando que vai acabar um dia, mas, se vier e acabar…qual o problema? Pelo medo de acabar não vale tentar?

Acho que só o fato de acreditar já é um mérito. Quantas coisas deixaríamos de fazer por medo? Chego à conclusão que, neste caso, vale mais a pena remediar do que prevenir. Mesmo porque a aliança é só um simbolismo pra um casamento que já existe, dentro da alma e do coração. Com ou sem aliança, o que importa é viver sem economizar sentimentos, palavras e emoções, fazendo valer o “sim” dia após dia. Taí minha vozinha pra confirmar: amar vale a pena.

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Vó Nena e Vô Tião, que dançaram juntos por mais de 50 anos

Dizem que ser jornalista é a maneira mais divertida de ser pobre. Olha que tem hora que eu até concordo com essa afirmação, embora nunca tenha trabalhado em lugares muito glamourosos. No entanto, tenho a vantagem de ter uma alma deveras abobalhada, e isso me permite ter diversão frequente, intensa e, o que é melhor – de graça.

Comecei a pensar nisso após passar uma quarta-feira fria e chuvosa fazendo uma matéria sobre o Metrô de São Paulo, transitando entre inúmeras estações durante um dia inteiro. Foi uma experiência cansativa e, ao mesmo tempo, muito inusitada. Primeiro porque voltei a ser criança ao andar na cabine do metrô – e dos novos! – junto com a ‘maquinista’ e com a videorepórter que me acompanhava. Coloco ‘maquinista’ entre aspas pois pelo visto ela está muito mais pra piloto do que pra qualquer outra coisa, comandando vários botões coloridos diante de quatro piscantes e modernosas touch screens.

Ouvi muitas histórias, conversei com funcionários, observei a rotina diária de algumas estações de metrô de uma forma que, na pele de usuária apressada, nunca antes havia percebido.  Mas uma coisa é certa: sempre fui fã assumida do metrô de São Paulo. Sinto-me orgulhosa por saber que, em meio a tanto caos, desordem e reclamação, alguma coisa na capital paulista possa funcionar tão bem quanto nos países europeus.

Antes que eu seja xingada publicamente, devo avisar que não estou fechando os olhos para o problema da superlotação.  O fato é que, apesar deste gigantesco problema – as 3,3 milhões de pessoas que diariamente provam seu amor ao metrô de SP –, o trem funciona. Com uma exceção aqui outra acolá, as estações e vagões estão sempre limpos, com a manutenção em ordem e funcionários sempre muito bem informados e dispostos a ajudar. Apesar de sempre estar atenta a estes detalhes, a oportunidade de visitar os bastidores me fez crer ainda mais na eficácia do serviço.

Depois de muito ouvir e observar, visitei a área que mais me chamou atenção: a seção de “Achados e Perdidos”. Por ter gostado tanto de pisar naquele lugar, descreverei a cena com detalhes. Trata-se de uma sala pequena, divida por biombos, localizada na estação Sé. Ao entrar, me deparei com pilhas e pilhas de malotes, daqueles verde-escuro, que cercavam a única funcionária presente no local naquele horário. Era uma verdadeira trincheira de malotes,  interrompidas apenas pelos armários acinzentados no melhor estilo repartição pública.

Apesar  da aparência bagunçada, o clima no local era muito amistoso e, ao cruzar uma pequena porta que dividia a sala principal do depósito de coisas perdidas, vi que de desorganizado aquilo ali não tinha nada. Trata-se de um corretor estreito, com armários cuidadosamente categorizados por “coisas”.

Sendo assim, existem gavetas específicas para objetos como celulares, documentos, carteiras, dinheiro (?!?) e chaves,  por exemplo. Dou um sorriso instantâneo quando vejo um exército de bichinhos de pelúcia amontoados, ao lado de cor-de-rosas mochilinhas infantis. Logo à frente, está uma CPU bem amarelada, além muitas blusas de frio e malas inteiras esquecidas.

A quantidade de coisas não me surpreendeu, afinal, todos os objetos achados nos vagões ou estações do metrô vêm diretamente para esta central. Mas depois de alguns minutos imersa naquela atmosfera de objetos cuidadosamente aglomerados, fiquei bem curiosa pra conhecer algumas histórias sobre aquele lugar. Afinal, imagine o bocado de situações que um funcionário tem pra contar? De pessoas que perderam objetos importantes, de valor emocional, e depois os reencontraram? Ou se sentiram aliviados por encontrar sua carteira cheia de documentos, ou com o último salário recebido…e intacto? Fiquei imaginando mil coisas e não demorou muito para que eu partisse para cima da funcionária.

Recebi um cartão vermelho do assessor de imprensa que me acompanhava, pois, como em toda grande empresa, utilizar um depoimento ou imagem de um funcionário desencadeia uma avalanche de autorizações.  Eu compreendo a burocracia, e, com sorte, o assessor era um cara muito gente boa. Se prontificou ele mesmo a me contar umas histórias, como dos objetos mais estranhos  já encontrados na opinião dele: um fogão e um vestido de noiva.

Contou também a história da velhinha que veio visitar a filha em São Paulo e ao ir embora, levava os exatos R$ 470 para pagar a passagem. A carteira recheada foi encontrada em uma estação, ela estava em outra, um funcionário resolveu anunciar pra geral. A velhinha recuperou a carteira, o funcionário virou herói, o causo virou notícia no Diário de São Paulo e, de quebra, o assessor de imprensa também ficou satisfeito com o “furo” com o qual presenteou a imprensa naquele dia.

Mesmo sem poder falar comigo, a funcionária que observa eu anotando, nervosamente, tudo o que via, fez questão de me mostrar a forma como tudo era limpo e organizado. Os objetos pequenos são armazenados em saquinhos. Os que trazem o endereço, são postados para os seus donos. E os guarda-chuvas, que naquele dia chuvoso marcaram presença, ocuparam todos os espacinhos do chão. “Eu coloco aqui para que eles sequem antes de ensacar”, contou-me, orgulhosa.

Fiquei feliz por conhecer pessoas que fazem seu trabalho com amor, apenas por acreditar no que fazem. A funcionária do “Achados e Perdidos” foi o exemplo mais ilustrativo que encontrei, mas ao longo do dia me deparei com vários deles. O assessor de imprensa, a maquinista, o jovem cidadão que cuidadosamente conduzia uma deficiente visual pelo piso tátil.

Foi um presente que recebi após um período tão escasso de exemplos como estes. Ando cansada de gente que se arrasta através de suas infelizes escolhas, que se contenta com rotinas medíocres e fazem disso um inferno coletivo, cuspindo cansaço e desgosto na cara de quem não tem nada a ver com tanta amargura.

Conversar com gente feliz e satisfeita me fez lembrar que é possível ser uma pessoa otimista acima de qualquer coisa. E acreditar que, embora perder seja inevitável, achar ainda é a opção mais bonita.

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Estação Sumaré, a minha preferida. =)

Esses dias fiquei viajando com a minha irmã, em um típico momento de preguiça pós-almoço, sobre a “insubstituição” das pessoas. Sim, porque todo mundo acha muito bonito falar que “ninguém é insubstituível”, mas vai eu querer faltar no meu trabalho e mandar minha vizinha no meu lugar. Demissão por justa causa, no mínimo.

Após discorrermos pouco mais que 10 minutos sobre o assunto, chegamos à conclusão de que o mundo seria MUITO melhor se tivéssemos este nível de livre arbítrio. Como toda estréia, o começo desse novo modo de vida ia ser uma bela duma putaria.

- Mãe, você pode comparecer numa reunião hoje às 15h na Avenida Paulista?
- Claro filha, tô di boas. Onde você vai estar?
- Ah, vou fazer depilação, porque se pans no sábado eu vou pra praia.
- Ok. Sendo assim, você pode ir na minha reunião de condomínio hoje à noite? Não vou conseguir chegar a tempo.
- Tá bom. Eu te passo o briefing e você me passa o nome do féladaputa do síndico. Xingar vale?

É… it´s not sounds good. Porém, acredito que, com um ajuste aqui outro acolá, rolaria. Pensa bem, já absorvemos idéias muito mais bizarras nesse mundão de meu Deus. Nos acostumamos a palavras novas como “delete”, “formatar” e “desfragmentar”, quando ainda éramos todos off-line no mundo digital.

Também passamos a achar normal nêgo pulando em cima do vidro do carro pra lavá-lo sem ninguém pedir, a pagar imposto sem nem mesmo conseguir destrinchar as siglas a que se referem, a assistir moças-de-família com traseiros/air-baggs avantajados se transformando em meros codinomes frutíferos…Nos acostumamos até a ver avião cair – coisa que até pouco tempo atrás era raridade – e passamos a acompanhar fielmente a cobertura esdrúxula e atrapalhada da imprensa.

Acredito que essa idéia também se aplicaria muito bem no caso das mulheres que sofrem com a TPM ou às pessoas de humor duvidoso, os famosos “de lua”. Manja? Nêgo que canta um dia inteiro na sua orelha feito um passarinho e no dia seguinte te fuzila com apenas um olhar, culpando você por um “bom dia” um pouco mais sorridente?

Tenho MUITO medo de gente assim. Tenho algumas pessoas desse tipo no meu caminho e não acho nada fácil conviver com tanto destempero. Prefiro os totalmente blasés ou os totalmente alegrões, sério. Ou, melhor ainda, os simplesmente normais, com variações compreensíveis de humor. Isso é até saudável.

Achei a idéia tão boa que acabei resgatando lá no meu depositório de pensamentos inúteis um outro insight maravilhoso que tive uma vez: o rodízio humano. Se uma vez por semana o carro tem que ficar na garagem, pelo bem do planeta e do trânsito, porque nós não paramos também, pelo fim do velho problema da falta de tempo?

Fim de semana não conta, eu falo é de dia útil mesmo. Não seria maravilhoso ter tempo para resolver tudo quanto é pendenga chata e usar o sábado e o domingo SÓ para descansar? No fundo acho quo plano do Barbudo era esse mesmo, proporcionar dois dias de alegria pra galera depois de cinco na lida. Porém, trabalhando 60 horas por semana ninguém consegue sequer ligar pra marcar um dentista.

Seria o máximo poder passar por consultas médicas em qualquer horário do dia, sem obrigar-se a abrir o consultório e ver a recepcionista, mau-humorada, sintonizar a Alpha FM e ligar a cafeteira. Também evitaríamos a fila do banco que bomba na hora do almoço, momento em que todos o pobres assalariados conferem seus saldos e pagam suas contas. E o que dizer sobre poder xingar, no aconchego do seu lar, aquela atendente da Claro/Vivo/Tim que te liga pra oferecer serviços inúteis bem na hora que seu chefe está do seu lado?

Os shoppings seriam menos lotados; as promoções relâmpagos de super-mercados muito melhor aproveitadas; as recepcionistas, em geral, seriam menos estressadas e eu faria mão e pé no salão toda semana – aproveitando o desconto oferecido em dias de menor movimento.

Mas o maior ganho com tudo isso, sem sombra de dúvidas, seria a melhora do humor da galera. Aquela pessoa “de lua” que convive com você poderia escolher o dia de rodízio para afogar o ganso, ir almoçar com as amigas ou ficar de bobeira assistindo o “Vale a pena ver de novo”. Ela recarregaria as energias e voltaria no dia seguinte para o trabalho feliz e contente.

Até agora só vi vantagens nessa minha idéia. Só não sei como poderia ser operacionalizada, se pelo ano de nascimento, pelo final do número de identidade ou pela cor do cabelo. Só sei que se a opção fosse livre, eu optaria pela quarta.

Começaria meu dia na feira, onde compraria frutas e comeria um delicioso e enorme pastel. Passaria o dia resolvendo coisas e voltaria à labuta no dia seguinte, com um baita sorrisão. Ao me deparar com gente estressada, eu encheria a boca para dizer “Nem vem que não tem”, no sentido amplo da frase. O mau humor alheio me influenciaria menos, afinal, eu dedicaria mais tempo a mim mesma do que agüentando cara feia.

Enquanto minha idéia não vira, o jeito é aprender se ausentar, mesmo que mentalmente, do convívio de gente feia, boba e chata. Agora, quando a galera aderir de vez ao rodízio humano, aí poderemos pensar em campanhas muito mais ousadas, como “não ao cartão de ponto”, “fim do crachá”, “abaixo à ditadura dos horários”, “queimem os terninhos oriundos da José Paulino”, etc.  Mas isso é muito Google, muito 2050.

Até lá, vou tocando minha louca rotina diária, tentado extrair deste modelinho retrô e sem graça momentos de alegria com aqueles que, para mim, definitivamente são insubstituíveis.

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Bob Esponja, em seu dia de rodízio, resolveu caçar águas-vivas.

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