Não era pra eu ter ido àquele debate, não era mesmo. No entanto, minha mania de abraçar o mundo falou mais alto: “Vai dar tempo”, pensei. Tentei me cadastrar como imprensa, uma semana antes, com o objetivo de conseguir um crachá que me permitisse fazer perguntas aos componentes da mesa. Em vão.
Segunda tentativa, me cadastrar como visitante. A resposta veio em poucos minutos: eu estava na lista de espera, uma vez que os 100 primeiros lugares já estavam ocupados. Beleza! Desencanei do evento e fui cuidar da vida, afinal, cada minuto do meu dia vale ouro. Quédizê, ouro, oooouro, não vale, mas vale o meu honesto salariozinho que ganho com tanto esforço.
Com tanta coisa na cabeça, uma semana depois eu já havia esquecido do tal cadastro. No entanto, quando abri meu e-mail pela manhã recebi a notícia que todas as pessoas da lista de espera participariam do evento.
Ok, lá vou eu repaginar meu dia. Corre daqui, adianta essa matéria, passa essa pro outro repórter, putz, tenho que ir ao banco, então vou almoçoar em 20 minutos…ufa, será que consigo sair daqui às 17h pra chegar lá às 18h?
Com muita correria, consegui sair às 17h40, obviamente atrasada. Sento o pé no acelarador, mas desanimo ao chegar na Av. Dr. Arnaldo, coalhada de carros em frente ao metrô Vila Madalena. Opa! Tive uma ideia. Vou largar o carro aqui e ir de metrô, em 20 minutos estarei no local do evento – o auditório do Masp.
Dito e feito. Cheguei ao local com 20 minutos de atraso, apenas. Já havia começado, mas valeu muito a pena. Me uni às outras 200 pessoas que assistiam, com entusiasmo, Gilberto Dimenstain, Marcelo Tas e diversos outros convidados a falarem sobre cultura e apropriação do espaço urbano da capital paulista.
O evento terminou e, embora a discussão tivesse sido rica, não rendeu nenhuma pauta para os portais para os quais escrevo. Senti uma coceira: preciso tirar alguma coisa disso aqui. Os debatedores, providos de uma paciência que eu não teria, se mantiveram no palco por uma meia hora pra atender estudantes, curiosos e puxa-sacos que se enfileiravam para garantir suas novas fotos do Orkut.
Com receio por estar sem crachá de imprensa, esperei a poeira baixar. Falei com um, com outro e, quando vi que restavam apenas duas ou três menininhas ao redor do Tas, me antecipei: “Posso ser a última?”. Pacientemente, ele respondeu à pergunta que formulei, de maneira atrapalhada e de última hora.
Feliz com a surpresa do imprevisto, fui embora. Para um evento em que o destino me forçou tanto a desistir, até que me saí bem – sem credenciamento, mas com um depoimento bacana. Debaixo de chuva na Av. Paulista, liguei primeiro pro meu namorado, depois pra minha irmã: “Entrevistei o Tas!”, disse, saltitante. Durante o trajeto do metrô, escrevi mentalmente minha matéria.
Desço na estação brigando com o meu guarda-chuva, que teimava em virar pra cima. Com uma bolsa na mão e uma sacola ecológica na outra, só tive tempo de ver o homenzinho ficando verde pra mim, que naquele momento “estava” pedestre.
Um carro vinha em minha direção e, em poucos segundos, estava em cima do meu pé esquerdo. Gritei de dor. Caí no asfalto molhado, parando o trânsito. O motorista, transtornado, não se deu conta que estava em cima do meu pé.
Eu chorava, gritando: “Dá ré!” e, no mesmo instante, um coro de gente repetia a mesma coisa. Ele percebeu e recuou. Desceu do carro tão assustado quanto eu. Meu pé pendeu pro lado esquerdo. Fiquei com medo de olhar o estrago.
Pensando agora, com calma, não sei se a dor era mesmo tão grande ou o susto é que foi maior. Com tantos afazeres na cabeça, com tanta coisa pra resolver, como eu podia estar ali, caída bem no meio daquele cruzamento? Por incrível que pareça, a segunda pergunta que fiz pra mim mesma naquele momento foi: “Como vou cumprir todos os meus compromissos profissionais sem poder andar?”. A primeira, obviamente, foi como eu avisaria minha família sobre a situação.
Ironicamente, a semana seguinte seria uma das mais críticas no meu trabalho, já que teríamos uma Campus Party pela frente e estávamos nos programando pra trabalhar diretamente de lá, com todos os percalços que uma cobertura externa pode nos acarretar. Mas já estava feito e tudo que não dizia respeito ao meu pé acabava de se tornar secundário.
Pude perceber que o momento de um acidente é, indiscutivelmente, cinematográfico. Surgem anjos que você não sabe de onde saíram, para segurar sua mão e amenizar a dor do corpo e da alma. Aquele cenário que parecia caótico até um segundo atrás – chuva incessante, trânsito absurdo, buzinas, aglomerado de pessoas – fica congelado em torno da vítima. O farol, a pressa de chegar em casa ou de alcançar o ônibus tornam-se meros coadjuvantes.
Meu corpo inteiro tremia de frio, afinal, a chuva não dava trégua. O moço que me atropelou tirou a camisa do próprio corpo pra me cobrir. Vendo que não adiantou, passou a tirar tudo o que tinha no carro pra colocar sobre mim: uma calça jeans usada, um pedaço grande de plástico, uma caixa de ventilador.
A moça que segurava minha mão era irmã do motorista e voltava da festa da sua colação de grau. Usava um vestido preto e maquiagem leve. Seu rosto bonito e sua voz suave conseguiram me acalmar pelos próximos 20 ou mais minutos que fiquei ali, deitada, esperando o resgate – ainda bem que foi só o pé! Perguntei em que havia se formado, ela respondeu Psicologia, e disse também que pretende se especializar em Psicologia Hospitalar. Bingo! Não à toa, virou minha companhia constante até tudo se resolver.
As cenas que seguiram foram inéditas, ao menos pra quem nunca sofreu um acidente. Bombeiros testando minha consciência, maca, teto da ambulância, chegada ao hospital, pessoas te olhando, diversos enfermeiros e médicos fazendo perguntas, policial com prancheta na mão.
Eu só conseguia pensar que, se um machucado no pé causa todo este transtorno, o que é sofrer um acidente grave? Agora, na pele de uma acidentada leve, consigo ao menos imaginar. Duas horas depois, meu diagnóstico saiu, com uma boa e uma má notícia.
A boa é que fraturei apenas um ossinho do pé, sem lesões ou consequências mais graves. A ruim é que terei que ficar de 30 a 45 dias em repouso absoluto, sem poder, em hipótese alguma, colocar o pé no chão. Quem me conhece sabe que ficar parada pra mim é o pior dos castigos.
O médico que me deu a notícia tinha um aspecto paterno e me fez sentir criança, fazendo recomendações pausadamente com uma voz suave. Ao ver a tatuagem “Dance” no meu pé direito, deu um sorrisinho de lado e soltou o comentário óbvio: “Ainda bem que não foi nesse, né? Mas não se preocupe que você vai voltar a dançar.”
A tala não ofusca minha francesinha nas unhas – afinal, o charme a gente não perde assim, em um acidente qualquer ![]()
Fiquei meio transtornada, tanto que cheguei a perguntar se eu não poderia dirigir com a tala. Oi?!? Demorei a entender que, nos próximos 45 dias, eu deixaria de fazer 90% das coisas que eu faço normalmente. E, finalmente, me senti dependente de tudo e de todos.
Ainda estou digerindo a ideia mas posso afirmar que, de tudo isso, já consigo tirar duas coisas boas. A primeira é ser grata aos meus anjos da guarda que me protegeram de inúmeras desgraças maiores: e se eu estivesse de salto? De rasteirinha (eu estava de All Star!!!)? E se no momento que eu caísse, fosse atingida por um segundo carro? Ou batesse a cabeça? E se o moço que me atropelou não tivesse prestado socorro? Enfim, existem mil e um desdobramentos pra este efeito borboleta. Posso afirmar que o final dessa história foi feliz – e me considero uma menina de sorte por isso. =)
A outra coisa tem a ver com a mania que muitas pessoas têm (e eu me incluo nisso) de se acharem imprescendíveis. Sim, porque estou tendo um trabalho danado pra acreditar que deixarei pessoas na mão durante este período. A ideia de achar que alguém precisou de mim e eu não estava lá me perturba, e muito.
E mesmo não podendo caminhar (acreditem: isso complica MUITO a vida), fico igual uma louca tentando conciliar tudo, sendo que absolutamente ningúem além da minha própria família e do meu namorado está realmente preocupado se estou sentindo algum tipo de incômodo. Mas enfim, terei um mês pra exercitar o desapego e a paciência, depois escrevo outro post pra dizer se aprendi.
Minha nova inseparável amiga tem pezinhos estranhos
Pra finalizar, queria enfatizar que o maior intuito deste texto foi o de reafirmar, de uma maneira um pouquinho mais criativa, clichezões como “aproveite a vida”, “dê valor ao que você tem, “entenda a sua insignificância e não pense que sem você o mundo vai parar”, “não pense que você tem o domínio da sua vida, porque você não tem!”, e blá blá blá.
Acredito que pratico alguns destes belíssimos ditados mas, com a loucura da vida, confesso que sou engolida pela insana mania de tentar resolver tudo, e ao mesmo tempo.
Acredito muito nessa coisa de destino e acho mesmo que isso tudo aconteceu pra me ensinar alguma coisa. E a mais notória pra mim é que eu sou muito importante sim, mas sobretudo pra mim mesma. Cada articulaçãozinha do meu corpo tem a sua importância e compõe a minha verdadeira essência – em carne, osso e atitude. Colocar-se em primeiro lugar é o que realmente importa, pra saber lidar com os imprevistos – felizes ou tristes – com os quais a vida nos brinda.
É preciso cumprir compromissos com menos seriedade e mais sutileza, pra não se decepcionar tanto quando eles são interrompidos ou simplesmente não dão certo. Permitir-se levar a vida leve… como o efeito das asas de uma borboleta. É isso que eu quero pra mim.







Pra quem não conhece, essa é Maringá! A cidade mais arborizada que eu já vi de perto.
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