Eu tenho medo de casar. É, sempre tive. Na verdade, sempre me senti um pouco anormal por não sonhar com vestido de noiva, daminhas e pagens espalhando pétalas de rosa pelo meu caminho, votos de compromisso e trombetas angelicais.

Aliás, toda vez que ouço a marcha nupcial em casamentos eu sofro fisicamente, o que se resume a um misto de frio na barriga e enjôo. Temo pelos dois pobres coitados que estão entrando na igreja, e não consigo controlar o bombardeio de mau-agouros que rondam minha cabeça: o que será que eles estão pensando neste momento? Que ficarão MESMO juntos até que a morte os separe? Que respeitarão um ao outro na tristeza e na alegria? Que a vida de casados vai ser romântica e regada à libido?

Pra mim é nítido que essas pessoas estão jogando dinheiro fora, uma vez que, com toda certeza, vão se separar. Durante estes eventos, eu sofro. Muito. E na hora do buquê então? Nestes momentos, geralmente estou do lado oposto do burburinho, olhando com cara de desprezo as solteironas que se acotovelam pagando micos homéricos.

Vestido de noiva? Acho tudo igual. O neurônio feminino que distingue, há quilômetros de distância, um vestido com um bom corte de um vagabundo, não habita meu cérebro. No tal grande dia, sou capaz de achar que tanto a minha vizinha quanto a Lady Di têm o mesmíssimo aspecto. Quando o assunto é casamento, eu penso como homem m-e-s-m-o, porque, pra mim, ele se resume a três palavras: fim da linha.

Ao contrário do que possa parecer, não julgo os que sonham casar, nem a festa, nem o vestido, nem nada. Só nunca quis pra mim. A verdade é que eu sempre gostei da solteirisse. E a questão não era poder ficar livre pra pegar quem eu quisesse, mas sim para FAZER o que eu quisesse, sem me preocupar se vou magoar alguém ou ter que dar satisfação pra onde vou. Como sempre fui amante da dança, preferia dançar a namorar.

Minha mãe cansou de rezar pra Santo Antônio pra que eu mudasse de idéia, afinal, a vida toda ela me ouviu dizendo que não casaria. Eu sempre a tranqüilizava dizendo que, para mim, “solteira” não é sinônimo de “encalhada” ou “sozinha”. Eu sempre ressaltei que, caso viesse a envelhecer só, jamais seria triste, afinal, eu sei ser feliz comigo mesma.

Não era um discurso feminista, era sincero. Mesmo porque nunca descartei a hipótese de encontrar alguém de verdade (alou, eu gosto de homem!), eu só não procurava. Tanto que meu discurso, embora profético, sempre acabava com um tom animador: “Mãezinha, se aquiete. Quando eu encontrar alguém que tenha a minha cara, não vou ficar enrolando, namorando, noivando…vou me juntar rapidinho, você vai ver.”

E como tudo que a gente joga pro planeta realmente acontece, tou eu aqui, mais casada do que nunca. Aconteceu tudo como eu planejei, mesmo que sem querer. Eu conheci o Dan e, com seis meses de namoro estávamos morando juntos, e assim estamos até hoje – dividindo contas, problemas e muitos, muitos momentos bacanas. Isso não é casamento? Bom, pra mim é. Mas pras nossas católicas famílias, não. Lógico que elas anseiam por uma festança que marque esta passagem, que pra mim já aconteceu faz tempo.

Como eu não sou louca de contrariar minha gordinha, resolvi começar a pensar na possibilidade. Comprei então uma revista de noivas, pra ver se eu me animava (nem eu acreditei). Comecei a ficar assustada já na banca, quando a moça que me atendeu abriu um enorme sorriso e passou a falar com a voz da Sandy quando eu disse que estava pensando em me casar. Ao abrir a revista, fui direto ao editorial, pra ver o que tinham a me dizer. Tenho certeza que 99,9% das noivas não lê nem a primeira frase desta seção, afinal, oras bolas, o que importa são os vestidos!

Choquei com algumas frases do tipo: “um vestido de deixar todo mundo de boca aberta e ser comentado ao longo de todo o ano” e  “cheirinho de amor e sabor de chocolate com morango”. Meu, é muita melação pra uma coluna só, desculpa. Folheei apressada e impaciente e, assim que cheguei em casa, arremessei a revista no criado-mudo, lugar onde ela está até hoje, empoeirada.

Meses se passaram e eu dei um “abafa o caso” no assunto, mas pra minha falta de sorte ele voltou a tona em grande estilo. O irmão do Dan casou no último final de semana, como manda o figurino. Nem preciso dizer que o evento passou a ser a desculpa perfeita pra todo mundo nos cobrar em tom de brincadeira sobre a oficialização.

Tudo estaria bem se eu fosse uma pessoa que cagasse pra minha família e pros meus amigos. Se eu ignorasse o fato de que minha vozinha provavelmente iria morrer de emoção no meu casamento, que minha mãe ia se sentir plenamente realizada, que todos os meus amigos ficariam extremamente felizes – tantos foram os que acompanharam de perto minha história com o Dan e torceram intensamente.

Então eu mesma passei a me cobrar. Por que tenho tanto medo de casar? Comecei a puxar na memória e, apesar de achar que isso é caso pra terapia, existem alguns indícios bem óbvios.

Um dos motivos é o fato de eu ser bastante independente mesmo. Não consigo me lembrar de um dia que deixei de sair por falta de companhia. Meus pais sempre foram muito liberais comigo, e isso fez com que, na adolescência, eu tivesse algumas vantagens em relação às minhas amigas – ir às matinês, viajar, passear. Então eu tinha que escolher: ou esperava as raras vezes em que eram liberadas pra sair, ou eu ia sozinha. Eu optava por ir sozinha.

Outro motivo é a bagagem mesmo. Conheço tantos casais que eu julgava perfeito e que o casamento desgastou…que só de pensar nestes exemplos me dá mais medo de colocar a aliança…

Em meio a essa história toda, minha avó materna completa 80 anos este mês. Como jornalista da família, fiquei responsável por fazer o vídeo que irá homenageá-la na festa. Deparei-me com a certidão original de casamento dela, além de lindas fotos de momentos alegres dela ao lado do meu avô.

Ela teve a sorte de se casar com o homem que amava em uma época em que os pais escolhiam os maridos. Ele era um moreno bonito, falador e muito carismático – não é à toa que eles ficaram juntos por mais de 50 anos. Quando ele faleceu, ela poderia ter arrumado outra pessoa, mas não quis. Pra ela “não existe outro Tião no mundo”. Até hoje, quando fala dele, abre um sorrisão apaixonado.

Do alto da minha teoria sobre casamentos mau-sucedidos, me senti bem idiota. Sempre achei que quem se “entrega” ao casamento não sabe direito o que está fazendo, mas descobri que é justamente o contrario. A cagona da história sou eu. Quem decide apostar em um compromisso sério definitivamente é alguém corajoso, que quer viver intensamente, dure o tempo que durar. Ninguém casa pensando que vai acabar um dia, mas, se vier e acabar…qual o problema? Pelo medo de acabar não vale tentar?

Acho que só o fato de acreditar já é um mérito. Quantas coisas deixaríamos de fazer por medo? Chego à conclusão que, neste caso, vale mais a pena remediar do que prevenir. Mesmo porque a aliança é só um simbolismo pra um casamento que já existe, dentro da alma e do coração. Com ou sem aliança, o que importa é viver sem economizar sentimentos, palavras e emoções, fazendo valer o “sim” dia após dia. Taí minha vozinha pra confirmar: amar vale a pena.

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Vó Nena e Vô Tião, que dançaram juntos por mais de 50 anos

Dizem que ser jornalista é a maneira mais divertida de ser pobre. Olha que tem hora que eu até concordo com essa afirmação, embora nunca tenha trabalhado em lugares muito glamourosos. No entanto, tenho a vantagem de ter uma alma deveras abobalhada, e isso me permite ter diversão frequente, intensa e, o que é melhor – de graça.

Comecei a pensar nisso após passar uma quarta-feira fria e chuvosa fazendo uma matéria sobre o Metrô de São Paulo, transitando entre inúmeras estações durante um dia inteiro. Foi uma experiência cansativa e, ao mesmo tempo, muito inusitada. Primeiro porque voltei a ser criança ao andar na cabine do metrô – e dos novos! – junto com a ‘maquinista’ e com a videorepórter que me acompanhava. Coloco ‘maquinista’ entre aspas pois pelo visto ela está muito mais pra piloto do que pra qualquer outra coisa, comandando vários botões coloridos diante de quatro piscantes e modernosas touch screens.

Ouvi muitas histórias, conversei com funcionários, observei a rotina diária de algumas estações de metrô de uma forma que, na pele de usuária apressada, nunca antes havia percebido.  Mas uma coisa é certa: sempre fui fã assumida do metrô de São Paulo. Sinto-me orgulhosa por saber que, em meio a tanto caos, desordem e reclamação, alguma coisa na capital paulista possa funcionar tão bem quanto nos países europeus.

Antes que eu seja xingada publicamente, devo avisar que não estou fechando os olhos para o problema da superlotação.  O fato é que, apesar deste gigantesco problema – as 3,3 milhões de pessoas que diariamente provam seu amor ao metrô de SP –, o trem funciona. Com uma exceção aqui outra acolá, as estações e vagões estão sempre limpos, com a manutenção em ordem e funcionários sempre muito bem informados e dispostos a ajudar. Apesar de sempre estar atenta a estes detalhes, a oportunidade de visitar os bastidores me fez crer ainda mais na eficácia do serviço.

Depois de muito ouvir e observar, visitei a área que mais me chamou atenção: a seção de “Achados e Perdidos”. Por ter gostado tanto de pisar naquele lugar, descreverei a cena com detalhes. Trata-se de uma sala pequena, divida por biombos, localizada na estação Sé. Ao entrar, me deparei com pilhas e pilhas de malotes, daqueles verde-escuro, que cercavam a única funcionária presente no local naquele horário. Era uma verdadeira trincheira de malotes,  interrompidas apenas pelos armários acinzentados no melhor estilo repartição pública.

Apesar  da aparência bagunçada, o clima no local era muito amistoso e, ao cruzar uma pequena porta que dividia a sala principal do depósito de coisas perdidas, vi que de desorganizado aquilo ali não tinha nada. Trata-se de um corretor estreito, com armários cuidadosamente categorizados por “coisas”.

Sendo assim, existem gavetas específicas para objetos como celulares, documentos, carteiras, dinheiro (?!?) e chaves,  por exemplo. Dou um sorriso instantâneo quando vejo um exército de bichinhos de pelúcia amontoados, ao lado de cor-de-rosas mochilinhas infantis. Logo à frente, está uma CPU bem amarelada, além muitas blusas de frio e malas inteiras esquecidas.

A quantidade de coisas não me surpreendeu, afinal, todos os objetos achados nos vagões ou estações do metrô vêm diretamente para esta central. Mas depois de alguns minutos imersa naquela atmosfera de objetos cuidadosamente aglomerados, fiquei bem curiosa pra conhecer algumas histórias sobre aquele lugar. Afinal, imagine o bocado de situações que um funcionário tem pra contar? De pessoas que perderam objetos importantes, de valor emocional, e depois os reencontraram? Ou se sentiram aliviados por encontrar sua carteira cheia de documentos, ou com o último salário recebido…e intacto? Fiquei imaginando mil coisas e não demorou muito para que eu partisse para cima da funcionária.

Recebi um cartão vermelho do assessor de imprensa que me acompanhava, pois, como em toda grande empresa, utilizar um depoimento ou imagem de um funcionário desencadeia uma avalanche de autorizações.  Eu compreendo a burocracia, e, com sorte, o assessor era um cara muito gente boa. Se prontificou ele mesmo a me contar umas histórias, como dos objetos mais estranhos  já encontrados na opinião dele: um fogão e um vestido de noiva.

Contou também a história da velhinha que veio visitar a filha em São Paulo e ao ir embora, levava os exatos R$ 470 para pagar a passagem. A carteira recheada foi encontrada em uma estação, ela estava em outra, um funcionário resolveu anunciar pra geral. A velhinha recuperou a carteira, o funcionário virou herói, o causo virou notícia no Diário de São Paulo e, de quebra, o assessor de imprensa também ficou satisfeito com o “furo” com o qual presenteou a imprensa naquele dia.

Mesmo sem poder falar comigo, a funcionária que observa eu anotando, nervosamente, tudo o que via, fez questão de me mostrar a forma como tudo era limpo e organizado. Os objetos pequenos são armazenados em saquinhos. Os que trazem o endereço, são postados para os seus donos. E os guarda-chuvas, que naquele dia chuvoso marcaram presença, ocuparam todos os espacinhos do chão. “Eu coloco aqui para que eles sequem antes de ensacar”, contou-me, orgulhosa.

Fiquei feliz por conhecer pessoas que fazem seu trabalho com amor, apenas por acreditar no que fazem. A funcionária do “Achados e Perdidos” foi o exemplo mais ilustrativo que encontrei, mas ao longo do dia me deparei com vários deles. O assessor de imprensa, a maquinista, o jovem cidadão que cuidadosamente conduzia uma deficiente visual pelo piso tátil.

Foi um presente que recebi após um período tão escasso de exemplos como estes. Ando cansada de gente que se arrasta através de suas infelizes escolhas, que se contenta com rotinas medíocres e fazem disso um inferno coletivo, cuspindo cansaço e desgosto na cara de quem não tem nada a ver com tanta amargura.

Conversar com gente feliz e satisfeita me fez lembrar que é possível ser uma pessoa otimista acima de qualquer coisa. E acreditar que, embora perder seja inevitável, achar ainda é a opção mais bonita.

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Estação Sumaré, a minha preferida. =)

Esses dias fiquei viajando com a minha irmã, em um típico momento de preguiça pós-almoço, sobre a “insubstituição” das pessoas. Sim, porque todo mundo acha muito bonito falar que “ninguém é insubstituível”, mas vai eu querer faltar no meu trabalho e mandar minha vizinha no meu lugar. Demissão por justa causa, no mínimo.

Após discorrermos pouco mais que 10 minutos sobre o assunto, chegamos à conclusão de que o mundo seria MUITO melhor se tivéssemos este nível de livre arbítrio. Como toda estréia, o começo desse novo modo de vida ia ser uma bela duma putaria.

- Mãe, você pode comparecer numa reunião hoje às 15h na Avenida Paulista?
- Claro filha, tô di boas. Onde você vai estar?
- Ah, vou fazer depilação, porque se pans no sábado eu vou pra praia.
- Ok. Sendo assim, você pode ir na minha reunião de condomínio hoje à noite? Não vou conseguir chegar a tempo.
- Tá bom. Eu te passo o briefing e você me passa o nome do féladaputa do síndico. Xingar vale?

É… it´s not sounds good. Porém, acredito que, com um ajuste aqui outro acolá, rolaria. Pensa bem, já absorvemos idéias muito mais bizarras nesse mundão de meu Deus. Nos acostumamos a palavras novas como “delete”, “formatar” e “desfragmentar”, quando ainda éramos todos off-line no mundo digital.

Também passamos a achar normal nêgo pulando em cima do vidro do carro pra lavá-lo sem ninguém pedir, a pagar imposto sem nem mesmo conseguir destrinchar as siglas a que se referem, a assistir moças-de-família com traseiros/air-baggs avantajados se transformando em meros codinomes frutíferos…Nos acostumamos até a ver avião cair – coisa que até pouco tempo atrás era raridade – e passamos a acompanhar fielmente a cobertura esdrúxula e atrapalhada da imprensa.

Acredito que essa idéia também se aplicaria muito bem no caso das mulheres que sofrem com a TPM ou às pessoas de humor duvidoso, os famosos “de lua”. Manja? Nêgo que canta um dia inteiro na sua orelha feito um passarinho e no dia seguinte te fuzila com apenas um olhar, culpando você por um “bom dia” um pouco mais sorridente?

Tenho MUITO medo de gente assim. Tenho algumas pessoas desse tipo no meu caminho e não acho nada fácil conviver com tanto destempero. Prefiro os totalmente blasés ou os totalmente alegrões, sério. Ou, melhor ainda, os simplesmente normais, com variações compreensíveis de humor. Isso é até saudável.

Achei a idéia tão boa que acabei resgatando lá no meu depositório de pensamentos inúteis um outro insight maravilhoso que tive uma vez: o rodízio humano. Se uma vez por semana o carro tem que ficar na garagem, pelo bem do planeta e do trânsito, porque nós não paramos também, pelo fim do velho problema da falta de tempo?

Fim de semana não conta, eu falo é de dia útil mesmo. Não seria maravilhoso ter tempo para resolver tudo quanto é pendenga chata e usar o sábado e o domingo SÓ para descansar? No fundo acho quo plano do Barbudo era esse mesmo, proporcionar dois dias de alegria pra galera depois de cinco na lida. Porém, trabalhando 60 horas por semana ninguém consegue sequer ligar pra marcar um dentista.

Seria o máximo poder passar por consultas médicas em qualquer horário do dia, sem obrigar-se a abrir o consultório e ver a recepcionista, mau-humorada, sintonizar a Alpha FM e ligar a cafeteira. Também evitaríamos a fila do banco que bomba na hora do almoço, momento em que todos o pobres assalariados conferem seus saldos e pagam suas contas. E o que dizer sobre poder xingar, no aconchego do seu lar, aquela atendente da Claro/Vivo/Tim que te liga pra oferecer serviços inúteis bem na hora que seu chefe está do seu lado?

Os shoppings seriam menos lotados; as promoções relâmpagos de super-mercados muito melhor aproveitadas; as recepcionistas, em geral, seriam menos estressadas e eu faria mão e pé no salão toda semana – aproveitando o desconto oferecido em dias de menor movimento.

Mas o maior ganho com tudo isso, sem sombra de dúvidas, seria a melhora do humor da galera. Aquela pessoa “de lua” que convive com você poderia escolher o dia de rodízio para afogar o ganso, ir almoçar com as amigas ou ficar de bobeira assistindo o “Vale a pena ver de novo”. Ela recarregaria as energias e voltaria no dia seguinte para o trabalho feliz e contente.

Até agora só vi vantagens nessa minha idéia. Só não sei como poderia ser operacionalizada, se pelo ano de nascimento, pelo final do número de identidade ou pela cor do cabelo. Só sei que se a opção fosse livre, eu optaria pela quarta.

Começaria meu dia na feira, onde compraria frutas e comeria um delicioso e enorme pastel. Passaria o dia resolvendo coisas e voltaria à labuta no dia seguinte, com um baita sorrisão. Ao me deparar com gente estressada, eu encheria a boca para dizer “Nem vem que não tem”, no sentido amplo da frase. O mau humor alheio me influenciaria menos, afinal, eu dedicaria mais tempo a mim mesma do que agüentando cara feia.

Enquanto minha idéia não vira, o jeito é aprender se ausentar, mesmo que mentalmente, do convívio de gente feia, boba e chata. Agora, quando a galera aderir de vez ao rodízio humano, aí poderemos pensar em campanhas muito mais ousadas, como “não ao cartão de ponto”, “fim do crachá”, “abaixo à ditadura dos horários”, “queimem os terninhos oriundos da José Paulino”, etc.  Mas isso é muito Google, muito 2050.

Até lá, vou tocando minha louca rotina diária, tentado extrair deste modelinho retrô e sem graça momentos de alegria com aqueles que, para mim, definitivamente são insubstituíveis.

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Bob Esponja, em seu dia de rodízio, resolveu caçar águas-vivas.

É minha gente, um novo ciclo se inicia na minha vida. Começando pelo fato de alcançar os 28 anos agora em abril, ou seja, já sou quase uma balzaca. Mas a mudança principal, essa bem mais significativa, é que começo em um emprego novo na semana que vem. Estou muito feliz, mas com aquela dorzinha no coração que há muito tempo não sentia.

Hoje eu vejo que realmente amadureci: pra chegar a essa decisão gastei váaarios neurônios pesando prós e contras. Coisa que eu não fazia desde a época da faculdade, quando eu queria experimentar tudo dentro do jornalismo e, é claro, “salvar o mundo”, honrando pelo clichê de todos os meus amigos focas*. Só que nem todo mundo vive de causas no jornalismo…e muitos de nós acabam deixando toda essa ideologia guevarista de lado pra poder sobreviver.

É claro que nós, jornalistas, já entramos na faculdade comprando brigas e pagando um bom preço por nossas escolhas. Em primeiro lugar, ninguém te apóia. Todo mundo acha que é um curso pra bicho-grilo que não dá dinheiro (taí uma verdade, rs). Em segundo lugar, você vai estagiar nos lugares mais doidos e ter chefes mais doidos ainda que te pagam um salário ridículo plus um vale-coxinha pra você agüentar as ego-trips deles.

Ok, este texto é autobiográfico, mas também falo com base nas histórias que ouvia nas mesas do Passagem, saudoso bar onde eu e minhas amigas da facul tomávamos cerveja e xingávamos nossos respectivos bosses. Era muito divertido, mas confesso que eu não via a hora de aquietar o faixo em um lugar onde me reconhecessem como profissional e não como uma recém-formada deslumbrada com a profissão.

Demorou um pouco, mas esse dia chegou. Entrei em uma empresa onde eu não precisava xingar meus chefes, pois eles eram MUITO legais. E olha só que surpresa, os meus colegas de trabalho TAMBÉM eram super bacanas – nada de gente invejosa, fofoqueira ou superficial. Aprendi tantas coisas, conheci pessoas incríveis que abriram minha mente (não, entorpecentes não eram liberados), vivi dias maravilhosos. Conheci o amor da minha vida, que me conquistou jogando bolinha de papel no meio do expediente (ops, falei). Fui em tantos almoços, happy hours, despedidas, aniversários. Xinguei algumas vezes, mas comemorei outras tantas….que todo esforço valeu a pena.

Com o passar do tempo, aconteceu o que pra mim era improvável. Eu quis mais. Encontrei uma causa que para mim me pareceu maior do que tudo aquilo que eu estava vivendo, e essa causa era ganhar o mundo, ir pra Londres, jogar tudo pro alto. É lógico que minha alma inconformada não se aquietaria tão facilmente. Mas doeu um pouquinho, afinal, tudo ia tão bem… É lógico também que meu chefe me tirou de louca, dizendo que eu seria mais uma a lavar pratos do outro lado do mundo. Ele estava tentando diminuir minhas expectativas para que eu não me frustrasse, mas no final das contas acabou entendendo que nada me faria ficar. E me apoiou.

Eu fui, vivi tudo o que podia viver em seis meses longe de casa e voltei. Novamente, recebi mais uma oportunidade da mesma empresa onde eu trabalhava, para voltar pra minha velha cadeirinha. Claro que eu aceitei, com imensa gratidão. Mas pra mim foi tudo muito estranho. Parece que eu tinha voltado de um fim de semana e não de uma temporada fora do Brasil. Achei que era hora de refletir. Às vezes é bom, né?

Então comecei a comparar o meu posicionamento profissional atual com o cenário que eu vislumbrava ao concluir o curso de jornalismo. Quando saí da faculdade, após escrever um livro-reportagem sobre a Febem Feminina no Trabalho de Conclusão de Curso, eu tinha certeza de que poderia ajudar pessoas com a minha profissão. Escrever sobre os excluídos era a forma que eu tinha de mostrar minha indignação com a desigualdade social e chamar a atenção de quem finge que não vê esse tipo de injustiça.

Obviamente essa é uma linha de raciocínio bem romântica e eu não consegui fazer muito mais do que escassos trabalhos voluntários como jornalista dentro da área social. Olhando pra trás, me dei conta que me distanciei bastante do que eu “queria ser”, já que também comecei a me encantar com outros valores como um bom salário, um ambiente tranquilo pra se trabalhar, benefícios, férias remuneradas.

Mas pensando bem, não consegui necessariamente me sentir culpada por isso ou, ainda pior, atribuir uma parcela de culpa à empresa ou ao sistema capitalista em que vivemos. Acredito que as nossas escolhas são conseqüências das oportunidades que vão surgindo na nossa vida. Cabe a nós enxergá-las e apostar no que julgarmos mais conveniente. Eu apostei no caminho do jornalismo corporativo e acabei virando uma redatora, mas isso não quer dizer que saí completamente da rota que eu tinha traçado, pois tive muitas surpresas agradáveis nessa trajetória – justamente por ter apostado.

Pude escrever sobre assuntos ligados ao desenvolvimento de pessoas, que me fizeram acreditar ainda mais que a educação é a base mais segura para um crescimento saudável e bem-sucedido. Durante todo este tempo falei com um público selecionado, exigente e intelectual. Pessoas que já ocupam cargos de liderança em grandes empresas e também as que se preparam (fortemente) para ocupar essas cadeiras. Durante todo este tempo, isso tudo fez muito sentido pra mim. Porém, a sede de mudança apareceu de novo depois que eu voltei de viagem e eu acredito que isso é mais do que natural.

Hoje fico feliz por saber que vou continuar no caminho da educação. Só que, dessa vez, falando com quem tem muito menos oportunidade do que os grandes líderes com quem convivi – direta ou indiretamente – nos últimos três anos. Finalmente, vou deixar o salto alto de lado e voltar a usar All Star…finalmente, vou fazer jornalismo social, uma das minhas grandes paixões.

Talvez agora eu esteja um pouco mais próxima da ideologia da época da faculdade, só que muito menos utopista e mais consciente. Talvez eu não consiga salvar o mundo, mas a sensação de estar fazendo a escolha certa já é uma salvação – pra mim e pras pessoas que me rodeiam e que, de certa forma, eu influencio. Espero que essa minha decisão não só beneficie a mim, mas inspire àqueles que, volta e meia, deixam suas ideologias de lado. Viva la revolución!

* Dentro do jargão jornalístico, “focas” são os jornalistas recém-formados. Nunca entendi esse apelido como algo pejorativo, pelo contrário. Afinal, quer analogia mais bonitinha pra ilustrar nossos olhos atentos e ávidos por informação ao entrevistar alguém pela primeira vez? E olha que com tamanha ousadia o Che daria uma foca e tanto, viu?

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- Você acha mesmo? Só se fosse pra trabalhar no Fantástico!

PS.: Lara, te dedico, amiga. Valeu por ser meu eterno “cupido” profissional. ;-)

Pergunto eu, neste momento, o que um ser humano com idade acima dos cinco anos, pensa ao escrever um texto com um título desse. A resposta é simples: tirei férias! =D Pois é, depois de quase dois anos sem sair de cima, consegui dez dias que, por serem tão breves, prefiro chamar de “raríssimos momentos para reflexão”, rs. E agora cá estou, na madrugada do meu penúltimo dia de descanso, fazendo o balanço do que se passou.

Na verdade dessa vez eu fiz questão de não programar nada muito radical, exótico, turístico, histórico ou adrenalínico (inventei essa palavra). Isso porque, quando voltei de Londres, em agosto do ano passado, não tive tempo nem pra respirar antes de voltar à vida real. Dois dias depois de desembarcar, já estava trabalhando – e na mesmíssima cadeira de onde saí quase sete meses antes. Olha, tava até quentinha viu…posso dizer que esse choque pós-retorno serviu pra confundir e pra organizar ao mesmo tempo, mas hoje até que meu fuso já voltou ao normal. Ainda mais depois da minha viagem ao túnel do tempo que vivi nesses dez dias.

Como eu ia dizendo, optei por não sair de SP. Queria aproveitar meus dias para fazer coisas simples: ficar na casa da minha mãe, passear com a minha cachorra, almoçar sem pressa (degustando uma deliciosa comidinha caseira), andar a pé pelo meu bairro, etc. Também aproveitei pra fazer aquelas coisas que, por mais que se programe, nunca saem. Do tipo visitar a Pinacoteca de São Paulo sem pressa e com tempo até pro cafezinho. A essa altura do meu cansaço, acreditem, até uma consulta médica virou passeio. Marquei três especialidades num dia só (rs) e ainda aproveitei pra almoçar no Mac e bisbilhotar as promoções lá da minha terrinha, São Caetano do Sul, a terra do nunca, rs.

Só que nesse meio tempo minha ilustríssima mãe resolveu organizar tudo pra irmos pra Maringá-PR, onde ela nasceu, foi criada e deixou pra trás aos 17 anos quando resolveu que queria algo mais – lórrico que ela veio buscar em SP. Essa história é longa e rende não só um post, mas um livro, então vamos direto à conclusão – passei toda a minha infância no lá-e-cá. Ela sempre deu um jeitinho de encaixar nossas rotinas de modo que vivenciássemos feriados, digamos, mega-familísticos, junto com nossos primos, tios e avós. Como nunca tivemos dinheiro de sobra, o jeito era pegar o busão na Barra Funda e bora encarar as oito horas rumo a mais uma sequência de dias de sol quente e muita folia. Sim, porque minha família é grande e festeira!

Essas circustâncias fizeram com que eu passasse a gostar, do fundo do meu coração, da idéia de viajar de ônibus. Afinal, desde muito pequenininha estou na estrada (no bom sentido, gente! rs). Tanto que, pra mim e pra minha irmã, essa rotina era sinônimo de festa. Tínhamos um ritual que ia mudando com o tempo, de acordo com o nosso tamanho e idade mental (esse último não evoluiu muito). Lembro que eu mal pisava no busão e já queria arrancar fora meu par de tênis. Minha mãe sempre escolhia os dois bancos da frente, justamente por apresentarem uma pequena vantagem de espaço em relação aos demais, e fazia uma “caminha” pra eu deitar.

Mas o mais legal era a sacolinha de guloseimas que ela preparava. Tinha um pacote de Fandangos pra cada uma, uma lata de refrigerante e, às vezes, uma caixa de Bis. Era incrível comer toda aquela baboseira em plena madrugada – uma verdadeira balada para nós, crianças.

Então cresci mais um pouquinho e acrescentei um item à minha mochila: o meu tão sonhado walkman. Ele era lindo e sempre tinha a mesma fita k7 dentro. Que os alternas / roqueiros / punks / emos que lêem esse blog me perdoem, mas nessa época o que me conduzia pelas oito horas de viagem era a mais pura e genuína música sertaneja. Não que eu tenha que me desculpar por algo, mas sei o quanto já fui tachada de tosca por isso. Mas raíz é raíz e quando eu chegava lá ouvia mais música sertaneja, com direito à roda de viola, bailão, churrasco e cerveja. E eu adorava. Esses dias eram mesmo inesquecíveis, especialmente as férias.

maringaPra quem não conhece, essa é Maringá! A cidade mais arborizada que eu já vi de perto.

Embora em muitos aspectos tenha sido modernizada, Maringá tem coisas que parecem ter parado no tempo. Dá pra se notar isso especialmente nos bairros mais antigos, onde ainda existem muitas casas feitas de madeira. Os muros são baixos, os portões servem não mais do que para separar a casa da rua, não há preocupação com segurança. A maioria dos quintais têm árvores frutíferas, principalmente mangueiras, e no verão seus frutos colorem o chão ao despencar e espalhar um cheiro cítrico adocicado pelo ar. As varandas têm umas cadeiras de plástico trançado, que eu só vi até hoje por lá, e sempre são nas cores azul, vermelha ou verde. A terra é cor de fogo e esta também é a cor dos pés das crianças.

Lá, eu tinha a oportunidade de vivenciar coisas que eu não via por aqui, na “cidade grande”. Minha vó tinha horta. Moía café na hora pra gente tomar. Fazia muitos, mas muitos pães caseiros cilindrados manualmente, e os desformava quentinhos na mesa comprida com uma penca de netos em volta, fazendo a maior bagunça na hora de comer. E ela nem brigava. Com o seu jeitinho sereno, passava horas sentada à maquina de costura. Muitas vezes eu inventava modelitos e pedia pra ela fazer pra mim, era muito divertido… nós éramos uma dupla e tanto!

Eu e a penca de primos aprontávamos até. A gente tomava banho de mangueira no quintal, subia nas árvores enormes que compõem lindamente a paisagem de Maringá, pulava corda no meio da rua que não tinha problema nenhum. Quando a gente terminava de almoçar, minha mãe descascava laranja praquele bando de criança, e, quando tinha melancia, era guerra de caroço na certa. A mania de fartura beirava o exagero e, quando minha mãe ouvia o carrinho do sorvete, pedia pro moço descarregar logo uns trinta picolés de frutas, daqueles bem baratinhos, que faziam a nossa alegria. Foram férias lindas que nós vivemos juntos, muito simples e felizes.

Quando eu voltava pra SP, sentia um misto de coisas. Eu SEMPRE chorava ao deixar minha vozinha, pois ela é minha segunda mãe. Minutos depois eu já estava um pouco melhor, ao entrar no ônibus, pois sabia que ele ia “pingar” nos municípios vizinhos e eu adorava ficar observando as casinhas, as pessoas, o comércio local. Eu filmava tudo e ficava imaginando como era a vida daquelas pessoas em cada uma das cidadezinhas.

O céu era tão forrado de estrelas que não dava nem vontade de dormir! Com muito custo eu adormecia e, horas depois, acordava na Marginal Tietê, MUITO puta da vida, descabelada e com bafo, rs. Era a volta à vida real. As férias tinham acabado e eu tinha saído de uma cidade linda, com violência ZERO, sem trânsito nem poluição, pra desembarcar em um lugar totalmente oposto, fedido, entupido de gente. Argh. Mas aí eu chegava no meu prédio e ficava feliz de novo, reencontrava meus amigos, ouvia as novas gírias nascidas durante o mês de férias, retomava minha rotina.

Esse ciclo sem fim de indas e vindas durou até eu começar a trabalhar. Como peguei na lida cedo, as férias enormes também passaram a se resumir a escassos feriados, divididos entre amigos, namorados, trabalho, emprego novo, trabalho, início de estágio, faculdade, trabalho, trabalho, trabalho. Também passei a ouvir outros tipos de músicas, não só as sertanejas, e a viajar pra outros lugares, não só pra Maringá. E não adianta se lamentar, isso faz parte da vida. As férias escolares entram pra história mas o que importa mesmo é guardar a essência e resgatar esses momentos sempre que possível.

Felizmente, consegui fazer isso depois de muito tempo. Felizmente, ainda posso ver minha vózinha – uma mulher forte de voz mansa – à beira da máquina de costura. Vê-la fazer minha comida preferida, ouvindo música sertaneja e dançando no meio da cozinha. Felizmente, percebi nessas férias que independente do mundo ao meu redor ter mudado bastante, minha essência não mudou. Essa simplicidade ainda me faz tão bem, que é mais rica do que qualquer viagem pelo mundo afora, financiada em euros.

Eu ainda como Fandangos durante a viagem, não espero nem o motor ligar pra tirar o tênis e amo, simplesmente amo observar as cidadezinhas pela janela. Eu ainda choro de amor pela minha vozinha, faço as mesmas solicitações gastronômicas a ela e à minha mãe e fico feliz ao ouvir a musiquinha do Jornal Hoje, pois ela me remete diretamente às minhas férias em Maringá, já que na vida real eu nem passo perto da TV durante o dia. E, com uma diferença aqui e outra ali com um primo ou um tio, ainda prezo muito, muito pela família.

Por mais que eu tenha aprendido por aí, a minha base mais primária foi costruída nesses momentos, junto com a turma da mesma “laia” que eu. É engraçado eu escrever tudo isso dois dias depois de ir ao show do Radiohead, que é uma referência oposta à toda essa atmosfera sertaneja que eu descrevi acima. E é por isso que reafirmo que esses poucos dias de férias me fizeram tão bem. Pra me mostrar que independente do lugar ou da trilha sonora, o que importa é estar perto de quem a gente ama. A trilha que embalou meu domingo foi Creep. Mas a trilha que embalou minhas férias foi uma canção bem menos complexa, apresentada a mim pela minha mãe, que mostra muito bem o quanto a felicidade tem tudo a ver com simplicidade.

Deus e eu no sertão

Victor e Léo / Composição: Victor Chaves

Nunca vi ninguém
Viver tão feliz
Como eu no sertão

Perto de uma mata
E de um ribeirão
Deus e eu no sertão

Casa simplesinha
Rede pra dormir
De noite um show no céu
Deito pra assistir

Deus e eu no sertão

Das horas não sei
Mas vejo o clarão
Lá vou eu cuidar do chão

Trabalho cantando
A terra é a inspiração
Deus e eu no sertão

Não há solidão
Tem festa lá na vila
Depois da missa vou
Ver minha menina

De volta pra casa
Queima a lenha no fogão
E junto ao som da mata
Vou eu e um violão

Deus e eu no sertão

Para todos que se emocionaram e até derramaram lagriminhas lendo o post “Sucesso de público e crítica“, devo uma satisfação, certo? Pois bem: sim, eu fui no show do Radiohead! Foi incrível poder escutar ao vivo a trilha sonora que mais marcou minha estada em Londres.

Bem, pra quem não leu, acho bom ler! Pra quem está com preguiça, vou resumir em poucas palavras. Eu e meu namorado estávamos em Londres quando o Radiohead deu início à sua nova turnê, no ano passado. Milagrosamente, dois ingressos caíram na nossa mão (ficou curioso sobre como isso aconteceu? Leia! Rs) e a máquina fotográfica dele, com uma lente nada discreta, nos impediu de entrar. Depois de muito chororô e vou-não-vou, o convenci a aproveitar a oportunidade, já que ele é fã da banda a muito mais tempo do que euzinha aqui.

Em resposta ao meu gesto, assim que as abriram as vendas aqui no Brasil ele foi correndo comprar dois ingressos. Ele queria um desfecho pra esse enredo, porém, nós dois sabíamos que aquele dia já tinha entrado pra nossa história de uma maneira muito bonita.

E lá vamos nós, chegar muitas horas antes pra garantir um lugar no estacionamento da Chácara do Jockey e previnir qualquer possibilidade de erro! Felizmente, dessa vez não teve tragicomédia – tudo deu certo! Ao comecar pela organização do show, que me surpreendeu positivamente. Não vi nenhum tipo de confusão e todas as bandas entraram britanicamente na hora marcada.

O Los Hermanos levou a galera à loucura com a festejada apresentação depois de dois anos de distância. Especialmente quando o Amarante se despediu com um reticente “Até breve”. Já sobre o Kraftwerk não tenho muito o que falar, pois não fui apresentada a eles anteriormente, rs. Ou seja, pra mim eles tocaram uma única música! Mas visualmente achei bem legal o show, com vídeos que, combinados ao som, davam um certo “barato”.

Com relação ao Radiohead, nem tenho palavras…simplesmente voltei no tempo. Parece que faz uma década, mas lembro de cada detalhe. Diferentemente do show em Londres (que eu só ouvi, rs), achei o Thom Yorke bem interativo! Ensaiou palavras em português – as clássicas “boa noite” e “obrigado”- e, quando o público continuava a cantar uma música já terminada (do tipo “queremos mais”), ele emendava e a banda vinha junto.

Novamente ele deixou “House of cards” pro final e foi nessa hora que a bichisse prevaleceu e eu me pus a chorar. Só que, dessa vez, abraçada ao Dan DENTRO da arena. Pra fechar o show, eles escolheram “Creep”. Embora para muitos essa música soe como a “Anna Julia” deles, pra mim foi uma surpresa muito boa, um verdadeiro grande finale pro meu enredo. Capítulo concluído: mais um pra entrar  pras histórias que marcaram minha vida e que fazem tudo ter mais sentido.

Como não quero mais choradeira por aqui, escolhi uma mais “alegrinha”, ok? Pra mim essa é a melhor do disco.

Não esperava escrever tão cedo aqui sobre religião, afinal, meu objetivo com esse blog não é gerar polêmica, e sim, reflexão. Mas essa semana fiquei bem indignada com a última da igreja católica. O caso da menina que sofria abusos do padrasto desde os seis anos só chegou à mídia por conta da aberração: com nove anos de idade, ela estava grávida de gêmeos. O acusado é o seu padrasto, de 23.

O arcebispo da região, que não pôde manter a boca fechada, excomungou a menina, sua mãe e equipe médica envolvida no caso. Ele desconsiderou a lei brasileira que permite o aborto em casos de violência sexual, afirmando que a “lei de Deus está acima de tudo”. Ou seja: “não matar” tá na lista do barbudo, é só ir lá pra conferir.

Que não caia um raio na minha cabeça, mas qual a conta que esse tal arcebispo fez? Sobe um pro reino dos céus (no caso, a menina) e descem dois pro reino terrestre? Ou sobem três pro reino dos céus, porém ungidos pela lei divina? Não é preciso ter formação médica para entender que um ser humano de 1,37 metro de altura e 33 quilos não tem a menor condição de dar a luz.

Depois de meio minuto de revolta resolvi dar uma passada no Aurelião pra ver todos os significados da palavra “excomungar” e, pra minha surpresa, gostei de todos:

1. Separar da igreja católica (qualquer dos seus membros), expulsando-o; anatematizar.

2. Tornar maldito; esconjurar, exorcizar, exorcismar.

3. Condenar, reprovar. [Conjug.: v. largar.]

Ah, entendi! Quer dizer que o tal do arcebispo acha que “separar da igreja católica” a coitada da criança é MESMO um castigo pra ela, depois de tudo o que ela passou? Pra mim essa declaração é uma mistura tão grande de hipocrisia e petulância que começo a me perguntar em que século a igreja católica parou.

Antes de criticar preciso dizer que faço parte de família uma católica meeesmo (do tipo que se reúne pra ir à missa do Galo na noite de 24 de dezembro ANTES de traçar a ceia) e cresci indo à igreja, às vezes por vontade da minha mãe, às vezes por vontade própria. Mas acho que nunca vi a igreja católica como dogma, como uma lista de regras que eu tinha que seguir por ser batizada.

Todas as vezes que fui à igreja por vontade própria, foi pelo simples fato de eu achar que a “casa de Deus” é um bom lugar para eu conversar com meus santinhos, pedir perdão e acreditar que, ao sair daquele templo, minha alma estaria renovada para mais uma semana de labuta. Para este propósito, ir à igreja me faz bem sim. Pra mim funciona muito mais como um momento de reflexão, uma chance de se desligar do mundo externo e repensar as atitudes.

Na verdade nunca busquei um sermão salvador do padre – pois muitas vezes eles se prendem a passagens da bíblia e não fazem link nenhum com a realidade das pessoas. Às vezes fico pensando: por que a igreja não aproveita o espaço e poder que tem para unir as famílias, auxiliando os pais nos processos de educação sexual, drogas, alcoolismo, intolerância entre as pessoas? Ensinar a usar camisinha não é pecado. Pecado é omissão, é achar que todas nós, mulheres, seremos como a Virgem Maria, que teoricamente concebeu o menino Jesus sem ter que provar da fruta.

Acho que seria muito mais legal se a igreja fosse um lugar de discussão, e não um grande confessionário onde as pessoas cagam regras e você é obrigado a se sentir culpado por absolutamente tudo. Independente da religião das pessoas, uma coisa que pra mim faz muito sentido é que, muito melhor do que ficar pagando de cristão, é praticar ações bacanas no próprio dia-a-dia. De que adianta detonar os joelhos na igreja todos os domingos de manhã e sair da missa falando mal da vizinha?

Acho que Deus está nas pequenas coisas, está em olhar o próximo e sentir uma compaixão verdadeira. Está em ser grato sobre tudo o que Ele te deu: saúde, emprego, família. Isso é religião. Saber calar antes de reclamar. Saber doar antes de acumular.

De qualquer forma, não vou parar de ir pra igreja tão cedo, mesmo porque não tenho nenhuma outra religião em vista (por puro desleixo, assumo) e, como eu disse, estou inserida em um contexto católico desde que nasci. Porém, não posso deixar de me indignar ao ver as aberrações que o Vaticano não tem vergonha de explorar.

O caso da menina de Recife ganhou a mídia internacional e pra mim isso não reflete nada mais do que uma postura retrógrada da igreja no mundo inteiro, não só no nosso país. A “nossa” opinião dessa vez ficou alheia ao fato já que o Lula, em caráter excepcional, resolveu falar algo coerente. Do tipo: “Lavamos as mãos meeesmo, bando de gente doida!” Lula, bola dentro, beijomiliga.

Brincadeiras e críticas à parte, fiquei muito triste mesmo com esse fato. Fico imaginando quantas outras meninas são violentadas e não são notadas…muito menos noticiadas. Coincidentemente, como um lampejo divino, recebi um e-mail no momento em que estava escrevendo este post, falando sobre o projeto bem-me-quer, que luta pela diminuição do preconceito e da discriminação de crianças e adolescentes. Achei que valia a pena divulgar aqui o link, pois esse tipo de ação sim é que tem que ganhar a mídia, e não um arcebispo gerando polêmica com a desgraça dos outros.

Por fim, depois de digerir a notícia amarga, li outra que acalmou meus ânimos. O Obama reverteu mais uma cagadinha deixada pelo Bush e mandou uma grande banana para o papa: “Tá liberada a verba para as pesquisas com as células-tronco”, disse ele, desafiando o papa bicudo. O Vaticano retrucou, obviamente, mas ele fez que não viu.

E assim segue a humanidade, com disputas de poderes que não levam a lugar algum. Independente da crença, o ato de tentar minimizar os sofrimentos da vida é uma atitude muito mais próxima de Deus do que as regras e tabus impostos pela igreja. Glória, Obama.

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Obama nas alturas (*)

(*) Os créditos para a foto e a legenda vão para o São Google. Eu ainda não atingi tamanha santidade criativa.

Finalmente fui ver algo que para mim e para 99,9876% das mulheres do mundo parecia impossível – o Brad Pitt feio. É minha gente, todo mundo fica velho e o meu Oscar de maquiagem vai para “O curioso caso de Benjamim Button”, taí a estatueta que não me deixa mentir.

Mas tirando a parte técnica da coisa, fica a mensagem. O mega-clichê “Aproveite a vida” foi muito bem destrinchado pelo roteirista do filme, Eric Roth, o mesmo de Forrest Gump. O cara fez de uma frase típica de aspirante à BBB uma verdadeira obra-prima, digna de reflexões.

Ao começar pela atitude da mãe adotiva de Benjamim, que se mostrou um exemplo de amor e provação ao assumir uma criatura considerada um “mostro” pelo próprio pai. Quantas vezes fechamos os olhos para as aberrações que insistem em nos perseguir no dia a dia?

Crianças que imploram não apenas por um trocado – embora a gente prefira entender assim – , mas para que possamos despertar da acomodação profunda dos nossos lares quentinhos e mexer o traseiro rumo a um trabalho voluntário. Mas aí vem o “mostro” da falta de tempo e…ah, deixa pra lá.

Pessoas que nos consomem em ambientes onde somos obrigados a distribuir sorrisos gratuitos – leia-se, o trabalho – e, mesmo assim, freqüentamos almoços onde se conversa nada x nada, entramos em amigos secretos onde as pessoas se odeiam, tomamos cafezinhos e mais cafezinhos juntos. Esse é o mostro da “não-aceitação” social. O bicho é grande, vejo diariamente muitos marmanjos com medo dele.

Também tem o mostro do desemprego, e esse tem até cara. É o que nos faz agarrar com unhas e dentes nossos empreguinhos, mesmo que eles sejam medíocres e não nos acrescentem nada. Este monstro não só nos persegue, mas nos diminui quando comparados à imensidão da vida. Ele nos torna mais mesquinhos, mais apegados, mais competitivos. E nos distancia cada vez mais de uma vida mais feliz e, acima de tudo, mais simples.

Mas voltando ao “Curioso caso”! A maior lição que tirei desse filme foi a de um velhinho que morava na mesma casa de Benjamim. Por repetidas vezes ao logo da história, ele olhava para Benjamim e dizia: “Eu já te falei que fui atingido por um raio sete vezes?”. No começo do filme, o personagem interpretado por Brad Pitt escutava a tal frase com um olhar inocente, até com a boca aberta, como as crianças normalmente fazem. Afinal, ele era uma criança, apesar do corpo atrofiado e velho.

Com o passar do tempo, eu percebi que o fator surpresa obviamente foi se esvaindo. Ele já não dava mais tanta atenção e apenas ouvia a frase por educação. Então ele cresceu (nesse caso, rejuvenesceu) e foi pro mundão viver. Anos mais tarde, ao retornar à casa, topar com o velho-matusalém e ouvir a frase pela milésima vez, a feição de Benjamim dizia: “Inacreditável. E não é que eu vivi tudo isso por aí afora e esse velho ainda tá nessa?”.

Foi nessa hora que pra mim caiu uma fichinha, e nem sei se a intenção do autor era essa. Com essa mensagem entendi que, a partir do momento que você se abre para uma mudança, deve estar preparado também para aquilo que NÃO mudou à sua volta. Sim, porque não é porque você decidiu virar hippie que vai passar a criticar todos os seus amigos engravatados com os quais você almoçava por obrigação.

Pra mim isso fez muito sentido, pois muitas vezes sinto que viajei no tempo (pro ano de 2052) e voltei pro mesmo lugar onde estava. Muitas vezes me pego com a mesma cara incrédula de Benjamim, como se acreditasse menos no ser humano. O que aconteceu é que, para ele, o mundo se abriu. Pro tiozinho dos raios, não. Mas quem está errado nessa história? Quem é melhor ou pior?

Enxergar o mundo com os olhos dos outros é uma missão quase impossível, mas se todos conseguissem fazer isso ao menos uma vez ao dia o mundo seria um pouquinho melhor. Não haveria pré-julgamentos, preconceitos, fofocas, intrigas. Acho que até a turma da Faixa de Gaza ia se entender.

“Aproveite a vida”, uma das mais escancaradas mensagens do longa, pra mim já é fato, já que sou uma pessoa intensa, sensível e irritantemente passional. Mas a mensagem menos transparente foi a que mais me marcou.

Compreender a realidade de cada um e tentar se adequar da melhor maneira possível, foi isso que esse filme mostrou pra mim. Afinal, nascer todo enrugado em meio a tantos bebezinhos aveludados não deve ser fácil nem pro Brad Pitt.

 

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“É, confesso que não foi bolinho não, viu…”