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Hoje foi um dia atípico, eu diria. Abri meus e-mails, nada urgente pra fazer. Meu período de estudos por aqui está se esgotando e eu não poderia perder, dentro de casa, um dos seis dias de sol que ocorrem anualmente em Londres (rs). Coloquei algumas apostilas e livros dentro da mochila e saí rumo a algum parque, ainda sem saber qual.
Desci do metrô na Oxford St., uma das principais vias comerciais da cidade. Era cedo, mas as ruas, como sempre, estavam cheias. Turistas com suas máquinas fotográficas disputavam espaço com consumidores e sacolas.
Passei em um café e, enquanto esperava na fila, pude ver inúmeras grades que isolavam um grande trecho em construção. Justamente em frente ao parque escolhido. Fiquei um pouco puta ao saber que eu teria que dar uma enorme volta para acessar o portão de entrada. Respirei fundo, olhei para o céu, limpinho, e pensei que realmente não valeria a pena esbravejar.
Andei por alguns metros e parei no meio da larga e arborizada avenida, mas o farol seguinte parecia inabrível (inventei essa palavra). Foi aí que olhei para o lado e vi uma simpática senhorinha. Eu não sei explicar exatamente por que mas, muitas vezes, consigo sentir se a pessoa tem uma energia boa ou ruim à primeira vista. Quando é ruim, ignoro. Já quando é boa, eu sempre dou um sorrizinho, que, normalmente, é recíproco. Soa meio hare krishna isso, rs, mas pra mim é fato.
E foi exatamente o que aconteceu. Ela respondeu positivamente. Olhei pra frente. Homenzinho vermelho no farol. Olhei de novo pra ela e, para minha surpresa, em se tratando de Looondooon, ela puxou papo: “Você tem aproveitado bem o verão, não?”. Eu dei risada e disse: “Na verdade não, mas estive em Barcelona na semana passada e fazia 35 graus. Só de andar pela cidade peguei essa cor.”
Ela emendou: “Você fala espanhol?”. “Não, falo português, sou brasileira”. Então ela me perguntou desde quando estou aqui e por que, e eu disse que a estudo e desde janeiro, e foi aí que a veínha conquistou meu coração: “Really? Because your English is very good!”.
“Não é possível”, pensei. No dia anterior eu estava justamente em um conflito a respeito do quanto efetivamente evoluí no idioma durante este tempo todo, considerando desenvoltura, gramática, entonação…e, especialmente, no quesito cara-de-pau. “Estou indo pra aquele lado. Você vai pra lá?”. Respondi sem pensar: “Sim!”. “Você se importa de andar na sombra?”, ela sugeriu. Pronto. O convite estava feito. Eu acabava de ganhar uma amiguinha.
O mais engraçado é que em seis meses de Londres eu não fiz uma única amizade. Tenho preguiça de falar com os brasileiros que vivem aqui. De novo, odeio generalizar, mas, no geral (hahuhahauahuahuahahua) todos falam dos MESMOS fucking assuntos: tô ganhando tantos pounds por hora, não aguento mais compartilhar casa com 15 pessoas, ontem saí e só pude tomar 2 pints porque essa cidade é caríssima, zzzzzzzzzz.
Já com os simpáticos britânicos, nem preciso comentar, né? Primeiro porque nem vejo eles (seria mais fácil fazer amizade com um colombiano, indiano ou turco, porque a cidade TÁ-DO-MI-NA-DA por imigrantes), segundo porque né…eles nem de conversar gostam, rs. Mas o fato é que, ironicamente, a três semanas de voltar pra casa, fiz minha primeira amizade. Uma senhorinha de 64 anos.
Ela usava saia preta até o joelho, uma discreta camiseta branca e um elegante terninho. Tinha um rosário azul-turquesa amarrado ao pulso, terminando em um crucifixo prateado que refletia à luz do sol. O batom era laranja escuro e manchava dois dos seus dentes da frente. Tinha também um par de óculos daqueles que toooda tiazinha e tooodo tiozão A-DO-RAM, com lentes de grau que escurecem ao sol. Um luxo.
Fui seguindo a minha nova companheira sem saber ao certo pra onde estava indo e, aos poucos, ela foi me contando coisinhas sobre a sua vida. Nada muito pessoal, mas, para um primeiro encontro, achei até que ela me confiou histórias bem interessantes. Me contou que é irlandesa, que nunca teve filhos e que o seu ex-marido mora na França. Disse também que, recentemente, reencontrou seus amigos de escola depois de décadas de distância. E que agora eles se visitam com freqüência. Contou ainda que é viciada em TV e dirige até hoje. =0
Eu também falei algumas coisas sobre mim, e, a cada preposição comida ou verbo mal-conjugado, ela me corrigia elegantemente. Tinha um inglês perfeito, falava entre pausas e pontuava as frases com delicadeza, me chamando sempre de “darling”. Como se fôssemos velhas conhecidas.
Depois de uns 20 minutos andando, perguntei pra onde estávamos indo. Ela apontou pra um monumento que eu nunca tinha visto, afinal, estava bem escondido no meio de um imenso campo verde. Era um pequeno pedaço de mármore preto, cravado na grama, com algumas inscrições em dourado. Na frente da pedra, havia poucos vasos, porém com flores bem vivas e coloridas.
Perguntei: “O que é isso?”. Ela disse: “Leia. Você é capaz”. Ops!?! Fiquei encantada com a capacidade dela me incentivar a usar meu inglês sem me tratar como uma criança de 4 anos ou me fazer parecer ridícula – coisa que não acontecia na escola.
Ela colocou a bolsa no chão com cuidado e tirou duas garrafas pet com água limpa. Então começou a regar as plantinhas que lá estavam. Ao ler a inscrição, descobri que se tratava de uma homenagem a quatro cavaleiros do Buckingham Palace que morreram em um ataque terrorista em 1982.
Com certo medo da resposta, não pude segurar: “Você conhecia algum deles?”. E ela: “No, darling”. Em seguida, me explicou que os terroristas eram irlandeses (muito provavelmente, suponho eu, do IRA – Irish Republican Army), e como ela era irlandesa, regava as flores sempre que podia.
Eu já tinha ganhado meu dia ali, diante de tamanha sensibilidade em um gesto tão simples. Mas que nada! Ela se sentou comigo debaixo de uma árvore e ficamos por pelo menos mais uma hora conversando. Ela me deu dicas riquíssimas, sobre inglês e sobre a vida, que vou levar pra sempre comigo. Repetidas vezes me falou a respeito de alguns livros que eu TENHO que ter perto de mim, pra treinar o idioma. Me deu até a livraria onde eu poderia encontrá-los, colocando a mão na testa e fazendo força pra puxar na memória o nome da tal loja.
Seria piegas falar que eu aprendi muito ouvindo uma senhora de idade, mas pra mim essa experiência serviu pra confirmar que, definitivamente, as coisas não acontecem por acaso. Ganhei uma aula particular, de primeiríssima qualidade, exatamente um dia depois de me questionar a respeito da minha evolução neste período.
Pude perceber que, mesmo com um erro ali e outro aqui, entendi e consegui me fazer entender. Acima de tudo, vi que todo o esforço feito aqui em Londres durante estes seis meses foi mesmo válido. Estudei inglês e, de brinde, ganhei uma boa dose de maturidade também.
Ela pegou meu telefone e disse que me ligaria caso não fosse visitar o ex-marido em terras francesas. “Moderninha, hum?”, pensei. Ela se mostrou uma mulher livre, que soube e ainda sabe tirar o melhor do que cada fase da vida pode trazer. Não tem filhos e é divorciada, mas nem por isso se sente carente, amarga ou sozinha. Ama viver, ama a casinha dela, ama ver TV, ama as árvores do parque. Ama compartilhar.
Ao final da conversa, ela se levantou (ao contrário do esperado, sem nenhuma dificuldade) e, com ar de autoridade, me perguntou: “Qual é a primeira coisa que você vai fazer mesmo, ao sair daqui?”. “Comprar os livros que você me recomendou, é claro!”, respondi, obediente. Seu ar de satisfação foi coroado com um sonoro “Well done, darling”. Eu sorri.
Antes de ir embora, me perguntou: “Você gostou desse tempo que passamos juntas”?. “Não tenha dúvida que foi a melhor aula que eu tive em Londres”, eu disse. “Então eu espero que a gente possa se encontrar novamente”, ela se despediu, pegando o rumo de casa.
Sentei novamente debaixo da árvore e fiquei só observando…aquela senhorinha sumindo no meio dos enormes troncos do Hyde Park. Demorei alguns minutos para processar tantas informações que ganhei de presente em nosso primeiro e talvez único enconto. Tentei abrir uma das apostilas e estudar, mas não consegui. E afinal de contas, pra quê? A lição do dia já havia sido mais do que aprendida. Sem sombra de dúvida, valeu ter vindo pra Londres.
A dor de cabeça e o enjôo no estômago começaram no dia 30 de junho, quando pisei pela primeira vez na University of the Arts London, onde eu faria um curso de férias chamado “Creative Writing”.
Como boa ariana que sou, tenho a péssima mania de comprar brigas, sempre. Achando meeesmo que vou ganhar (há, há, há). Sempre prefiro optar pelo “bora tentar pra ver o que vai dar”. No final das contas, eu me arrebento até não aguentar mais e estresso todos ao meu redor. As vezes eu ganho, muitas outras, perco.
Quero deixar claro que pra mim isso nem de longe é uma qualidade, absolutamente. Não acho bonito querer ser sempre a primeira da classe. Acho um porre. Acho coxinha demais, old-fashioned demais.
Engraçado que eu só fui perceber este meu defeito de fábrica aqui em Londres, mas já na escola eu apresentava este irritante e estranho comportamento chamado “competitividade”. Mas agora estou com 27, e, do auge do meu amadurecimento (cof, cof), resolvi comprar mais uma briguinha: fazer o tal summer course.
As primeiras impressões foram tensas. A escola é tradionalíssima, do tipo antigassa. Escadas e corrimões de madeira, janelas imensas, corredores silenciosos. O cheiro que sai do fucking aquecedor fixado em praticamente todas as instalações londrinas (em grande parte, centenárias) me fez lembrar dos meus primeiros dias por aqui. Trata-se de um cheiro inexplicável, que eu nunca havia sentido antes (talvez porque eu more em um país tropical, rs).
Eram exatamente 18h01 e a classe já estava completa. É, eles são mesmo pontuais. A minha professora era uma escritora renomada, dona de um currículo bem interessante. Ela usava um óculos de aro oval, umas batinhas floridas de tecido fininho, calça jeans e um chinelo de dedos de cor laranja, every single day. O cabelo desgrenhado era preso em um rabo no alto da cabeça. Uma coisa meio bicho-grilo. Ela também era meio estrábica, e quando falava rápido, tinha a mania de olhar pra cima e ficar ligeiramente vesga. A little bit funny.
Como o meu alarme do bom senso apitou a tempo de eu não pedir uma foto abraçadinha ao diploma e à professora, eu a desenhei (** em aula **) e resolvi postar, pois, modéstia parte, ficou igualzinha.
Na primeira parte da aula, ela falou bastante sobre o curso, recomendou bibliografia, contou um pouco da própria experiência. Até aí eu tava feliz da vida: “Opa, tá no papo” (desculpem a falta de gírias novas, no momento estão em falta, rs).
Na maldita segunda metade da aula, as coisas começaram a mudar de figura. Hora das apresentações. Odeio essa parte, que você tem que ficar falando sobre si mesmo pra um bando de desconhecido (talvez por isso eu tenha evitado por tanto tempo um blog, rs). Mas ok, me apresentei dentro do meu inglês tupiniquim e tava tudo certo. Todo mundo ali tinha um inglês fluentíssimo, com todas as entonações, preposições e tempos verbais, mas, até aí, eu pensava…”Ninguém me conhece nessa merda! Vou falar do meu jeito e, se eles entenderem, já estou no lucro”.
Mas o bolo desandou na hora que eu descobri que existia uma brasileira entre nós. Pronto. Agora fodeu. Paguei de ridícula. Nossa, ela deve estar rindo horrores do meu inglês. Deve estar me achando uma tosca. Que merda. E a partir deste cagaço inicial se desencadeou um bloqueio inexplicável, que nem fazendo muita força consigo lembrar a última vez que senti.
A primeira aula até que correu bem, já na segunda, percebi o ritmo que o curso tomaria. A professora nos dava um tema por dia e, a partir disso, fazíamos um exercício em sala. Na seqüência, tínhamos que compartilhar as calhordices escritas, lendo, EM-VOZ-ALTA, para o restante da classe.
O silêncio nessa hora da leitura era de matar. Eu ouvia as pessoas lendo e ficava dura, de tanta tensão, pra não deixar nenhuma palavra escapar e perder o contexto. A entonação e a cadência com que eles liam eram tão perfeitas, que me fizeram repensar minha forma de encarar o inglês. Sempre achei aula de entonação um saco, do tipo, “por que preciso aprender a tabela periódica se não vou ser Química???”.
Mas nuoooossa, como aquelas aulinhas cheias de símbolos estranhos na lousa pra treinar pronunciação se faziam necessárias naquele momento! A minha vez de ler estava chegando, minhas mãos começaram a suar. O meu estômago revirava e nem fome eu sentia, apesar de não ter ingerido mais do que uma barra de cereal – e olha que eu, sem fome, é quase que caso de internação.
Até que ouço a frase final do texto vizinho, seguido do comentário da professora, que olha pra mim e dá aquela erguidinha de cabeça, como quem diz: “Fala aí, minha garota, o que você tem a nos dizer?”.
O ar faltava. Me desculpei pelo meu inglês e segui em frente, gaguejando a cada duas palavras. “A brazuca tá me avaliando. Com certeza ela tem um inglês melhor que o meu”. E assim foi. Sofriiiiiiido, mas consegui terminar. Os minutos seguintes foram um misto de anestesiamento com raiva. Quase como um instinto de defesa, passei a achar que a aula nem era tão boa assim.
Mas vejam só, nem tudo estava perdido! Eu tenho uma maniazinha, e dessa sim, eu me orgulho, de não saber prolongar problemas. Odeio reclamar e não fazer nada pra mudar, odeio empurrar com a barriga, odeio fazer algo meia-sola só pela incapacidade de reverter a situação ou por simples preguiça.
Então decidi que eu tinha que fazer aquelas aulas valerem. Falei com a professora e expliquei que eu não me sentia segura pra expor meus textos. Não pela escrita, e sim pela falta de entonação, possíveis erros gramaticais e blá, blá, blá. A primeira coisa que ela me disse foi: “Nobody cares about your English! You can do it!”. Do tipo, filhinha, estamos na Inglaterra, aqui ninguém se importa meeeesmo. Mas eu a convenci que pra mim seria melhor assim.
Os dias foram se passando e eu trabalhando dentro do meu limite, escrevendo pra mim mesma, de acordo com as técnicas que ela fornecia em aula. Do meu jeito, aprendi muitas coisas interessantes, embora não tenha participado tão ativamente em classe.
O final seria feliz se ainda não existisse uma pulga bem atrás da minha orelha. Não me conformava de ter passado TANTO nervoso, pelo simples fato de supostamente a brazuca me achar uma tosca e rir de mim em casa. Mas oi? Eu nem conheço ela! Ela nem me conhece! E o pior, o speech dela era tão FISK quanto o meu! Ou seja, o único mérito dela é que ela deu a cara pra bater, e eu, a duras penas, arreguei.
No último dia de aula, recebi o certificado e uma ligação do meu namorado, dizendo que tinha um vinho branco na geladeira me esperando pra comemorar minha vitória. A turma foi pra um pub celebrar. Eu agradeci a professora e vazei, afinal, tive tanto medo de falar com esse povo durante o mês inteiro…não era agora que eu ia desatar a conversar. Caminhei rumo ao metrô com uma sensação estranha. Quantas conversas produtivas eu evitei por medo de me expor? Quantas situações bacanas eu poderia ter experimentado, inclusive errar em público, ser corrigida, rir, aprender?
O tempo todo, durante esta experiência, tive a sensação de ser a criança mais novinha da rua que quer de qualquer jeito brincar na turma dos grandes. Eles até deixam, mas você fica ali, meio apagadinha, meio sem-graça.
Quando finalmente cheguei em casa, e meu namorado me parabenizou pelo fim do curso, eu disse: “Acho que não sou merecedora deste certificado”. Então perguntei pra ele se ele me amava mesmo sendo café com leite. Ele me respondeu da forma mais linda e simples: “Café com leite é quem nem tenta, Dan.” E é isso, missão cumprida. Vivendo, aprendendo e arregando, sempre que o oponente da sua briga tiver o dobro do seu tamanho.
No mês de junho, o Tate Modern, mega museu londrino de arte contemporânea, foi palco de um evento inusitado. Durante uma semana, as paredes externas do local (gigantes) foram entregues a artistas selecionados em diferentes países. E não estou falando de qualquer arte não, estou falando de arte de rua! =0
O Street Art Exhibition foi super festejado por aqui. Achei bem interessante porque, por mais que Londres seja a “capital do mundo” (clichezismos à parte), o lance da tradição é nitidamente muito forte. E liberar as paredes do Tate pra um tipo de arte que em certos países é discriminado, proibido, ou simplesmente ignorado, é muita modernisse pra terra da Rainha! =)
Senti um orgulho (involuntário) quando cruzei o Tâmisa e dei de cara com um grafite imenso feito pelos osgemeos:
É inevitável ver as marcas do nosso país aqui na Europa e não se orgulhar por sermos reconhecidos por outras riquezas que não estejam relacionadas a futebol/carnaval/praia/bunda.
Anyway, eu falei, falei, mas o que mais me chamou a atenção foi essa foto, do JR, fotógrafo francês que eu ainda não conhecia e acabei de descobrir que nuóooossa o cara é muito foda:
Pense rápido e seja beeem sincero: qual foi a primeira coisa que viu? Guerra? Assalto? Briga entre morros inimigos? Resposta êeeeee-rrada! Não é arma não, bobinho, é uma câmera de vídeo. Pois é, eu também não imaginava, logo eu…que me esforço tanto pra não ser enganada por esterótipos…Calou minha boca, viu, JR?
Pra quem gostou, tá aqui o site do cara (tem fotos tiradas no Complexo do Alemão e na favela do Capão Redondo), e o trailer do projeto “Women are heroes”, que ele lançou este ano. A-NI-MAL!
Ele ouvia Beatles, R.E.M, Ramones. Ela ouvia Marisa. Ele ouvia Beck, White Stripes, The Smiths; e por que não Bjork? Ela ouvia Zeca Baleiro; e o Pagodinho também. Salsa. Samba. E por que não uma música sertaneja de raiz?
Eles se encontraram, nem de longe pela sintonia dos seus gostos musicais, e aprenderam a ouvir aos sons um do outro. Juntos, se revezavam entre Caetano, Orishas, Beastie Boys, Chico Buarque, Amy Winehouse, Elvis, Gotan Project, Lauryn Hill, Philip Glass, Jorge Ben, Los Hermanos, Queens of the Stonage, Cold War Kids…E tantos outros…E assim foram compondo uma trilha sonora de momentos.
Obviamente, foi um grande aprendizado. Ele deixou de ”odiar os ecléticos” e passou a não mais somar ou subtrair pontos de alguém a partir de preferências musicais. Ela, por sua vez, passou a abrir a mente para bandas que ainda não faziam parte do seu repertório e, como ele, aprendeu a ouvir mais de uma vez o mesmo som, cuidadadosamente, para poder classificá-lo como bom ou ruim.
Até que um dia ele disse pra ela: Ouve essa banda aqui! E ela gostou. Algum tempo depois, esta mesma banda tocaria em um grande parque, em Londres, onde eles viviam. Os ingressos já haviam se esgotado há tempos, uma pena, mas mesmo assim, resolveram dar uma volta por lá para tentar capturar algo, mesmo que de longe.
Logo na entrada, ouvia-se o alvoroço dos londrinos, todos com seu pint na mão, embora soubessem que teriam que dispensá-lo durante a rígida revista feita na fila de entrada. As pessoas estavam felizes, o show era especialmente aguardado por aquele público. Até mesmo o vocalista da banda, dias antes, confessou em entrevista estar excepcionalmente ansioso para este momento.
Como não podia deixar de ser, dada a localidade do evento, o show começou, pontualmente, às oito horas e quinze minutos daquela noite fria de quarta-feira. Em um típico dia de verão inglês, o sol ainda estava alto, mas a temperatura caía e o vento batia forte e gelado.
Grudados à grade que separava a fila de entrada do palco, há muitos metros de distância, e em meio a inúmeros outros na mesma situação, eles puderam ouvir a gritaria (contida, inglesa) do público quando a banda começou o primeiro som, a faixa do CD novo que estava entre as preferidas dos dois. Vibraram.
Ele divagou, em um comentário quase que infantil: Bem que alguém podia desistir de entrar no show e nos dar os ingressos”. Ela sorriu, com o coração apertado, porque sabia que esta era uma das suas bandas preferidas. Ela tinha noção do quanto entrar naquele show seria significativo para ele; mais do que para ela.
Para inaugurar o seqüência de dramas à la novela mexicana que estaria por vir, cinco minutos após o singelo comentário, um ser humano desprovido de visão de negócio iniciou o seguinte diálogo com um garoto que se encontrava exatamente ao lado dos dois:
- Do you want a ticket?
- No, man, thanks…I don’t have any money.
- But it’s for free, man.
Cinco minutos de silêncio então se fizeram, como que em respeito àquele cena tão surreal. Ele não acreditava; ela, tampouco. O sortudo, menos ainda. Mas finalmente o garoto que há um instante atrás tinha o olho perdido em busca de alguma visão do palco, entendeu que sim: ele havia sido o protagonista de um milagre – porque dentro daquele contexto aquilo só poderia ser um milagre.
Os dois então passaram a acompanhar cada ação que se seguiu: ele avançou na fila, foi revistado, mostrou o convite para o segurança, que ficou alguns instantes avaliando a procedência. Suspense. Será que era real? Sim, ele conseguiu entrar, e, em poucos, minutos passou a correr em direção ao palco, com um sorriso bobo no rosto.
Mais uma vez ela sentiu seu coração apertado: “Talvez se eu não estivesse aqui, ele poderia ter sido o escolhido do tal bom-samaritano”.
Duas músicas se seguiram e eis que uma nova tentativa de final feliz aparece em forma de uma mestiça com dois ingressos nas mãos, com voz leve e envergonhada.
- Vocês comprariam dois ingressos por 30 pounds?
Ele não tinha nada na carteira. Ela, somente 20 pounds. Considerando que dois ingressos no preço normal custariam 80 pounds, eles estariam perdendo um grande negócio se não agissem rápido.
Na agonia do momento, os minutos se passavam, e a mestiça oferecia pra um, e pra outro, e pra mais outro…ninguém que estava lá fora tinha dinheiro. Caso contrário, estariam lá dentro. A música que vinha do palco parecia tocar mais alto naquele momento, as luzes pareciam mais fortes, e até o vento tinha parado de soprar.
Então a mestiça desistiu de vender os convites e seguiu pra fila, afinal, a banda já estava na quarta música. Ela agiu rápido: “Corra e ofereça os 20 pounds pra ela…ela vai jogar no lixo dois convites”.
Ele correu, em uma última tentativa de negociação, tentou explicar para os seguranças que precisava falar com a menina que já estava com um pé dentro da arena. E eis que em uma fração de segundo ele estava com os dois ingressos na mão, brilhando, sorrindo para ele. Finalmente, ele e ela entrariam e assistiriam o show. Juntos.
“Nem acredito”, disse ele, abrindo a bolsa para ser revistada, enquanto ela, de tão eufórica, já estava alguns passos a frente. Porém, desta vez, o que impediu a entrada não foi a falta de ingressos, nem a de dinheiro. Foi a máquina fotográfica que ele trazia dentro da bolsa.
O segurança, rígido, não trocou mais do que poucas palavras com ele: “It’s not alowed here”. “Mas esta câmera não é profissional”, ele argumentava, ao que o segurança já nem mais pra ele olhava. A esta altura já estava cuidando de outro caso. Mais uma vez eles se deram conta de onde estavam: em um país onde as leis e regras são seguidas acima de tudo. Não tem jeitinho, não tem suborno, não tem molhar a mão. Não existe dó, essa é a verdade.
Ele insistiu, falou com outro segurança, explicou a situação para outro, e pra mais outro. E desistiu. Ela só ficou parada na fila, com os olhos cheios d’água. “Não acredito que ele vai perder esse show”, ela pensava. E emendou: “Entra no meu lugar. Eu fico aqui fora segurando sua bolsa”.
“Nem pensar”, ele disse, “Só vou se for com você”. E então começou mais um capítulo do dramático dia, que até às oito e quinze da noite não demostrava nada de diferente em relação aos demais.
Ele dizia que não, que não era possível viver uma experiência dessa sem ela, que não teria graça, que seria injusto. Ela respondia que não fazia sentido, que ele gostava muito mais daquela banda do que ela, que seria egoísmo se não fizesse isso por ele.
As pessoas ao redor acompanhavam o diálogo com atenção. Um rapaz que assistia toda a cena, abordou os dois e ofereceu “tudo o que tinha”, com ar de misericórida, para comprar um dos ingressos. Com um Português de Portugal arrastado, negociava aquela chance agarrado a uma penca de moedas que caçou no bolso e uma nota amassada de 5 pounds.
Ele pegou a nota, dispensou a moedas e disse, com certa inveja: “Bom show, amigo”.
Mas ainda restava um ingresso. E ela não acreditava que ele iria parar no lixo ou em um bolo de papéis em casa como “recordação”. Recordação de quê? E continuava a chorar em silêncio, enquanto ele se recusava a entrar. Ela persistia. Ele estava decidido. Ela continuou a argumentar, até apelar para a máxima que não só ela, mas todas elas, usam em uma discussão: “Faça isso por mim”, ela pediu, ainda com os olhos molhados.
Então ela tirou a bolsa do pescoço dele, delicadamente. Ele não falava nada. “Eu te espero exatamente aqui, neste ponto”. Ele continuava calado. Virou sem olhar pra trás e caminhou até o primeiro segurança.
Ela acompanhou todo o processo novamente. Ele foi revistado, deu alguns passos em direção à arena, tentou achar o rosto dela em meio as pessoas lá de fora. Com dificuldade, conseguiu a ver por um pequeno vão entre várias cabeças. Jogou um beijo apertado e saiu correndo feito criança em dia de Natal.
Ela pôde ver ele sendo engulido pela platéia. E continuou parada bem ali, conforme o combinado, no ponto em que ele a deixou. O vento voltou a soprar. Ele curtindo o show lá de dentro, pensando nela, lá fora. Ela curtindo o show lá de fora, pensando nele, lá dentro.
Uma hora se passou. E os primeiros acordes de uma das músicas preferidas dos dois começaram: “House of cards”. Ela abaixou a cabeça, fechou os olhos, e começou a cantar baixinho, tremendo de frio.
Mal pôde acreditar quando ouviu os passos dele, correndo em direção a ela e dizendo ao seu ouvido: “Eu não conseguiria ouvir essa sem você”.
E continuaram a “assistir” o show dali, passando frio juntos, dançando agarrados ao som que vinha de longe. Afinal, o que é o amor senão um eterno teste de cumplicidade?
Jun/2008
(*) Esta história é real e aconteceu ontem, no show do Radiohead.
A menina observava o grande e brilhoso quintal, em um dia quente de fevereiro. Agarrada a uma boneca suja e descabelada, ela passava horas brincando naquele ambiente, que reconhecia como palco da sua ainda pequena e simples vidinha. Enquanto isso, ao som chiado de uma rádio AM, sua mãe esfregava o chão do banheiro. Era apenas o começo do dia de faxina da mansão de uma das suas três patroas.
Joyce tinha sete anos e estava radiante, pois aquele seria o seu primeiro dia de aula. Com uma roupinha surrada e os cabelos cuidadosamente amarrados por duas marias-chiquinhas, ela contava os minutos para finalmente ir à escola. Não sabia ver as horas, mas distinguia os períodos do dia pelo cheiro que a casa exalava ao passar dos segundos. Cheiro de café era bem cedinho. Cheiro de cândida, os primeiros passos da limpeza. Cheiro de feijão cozido: hora de ir embora, para o segundo turno do dia em outro casarão que ficava a duas ruas acima daquele bairro nobre.
Diariamente às dez da manhã, Dona Monique descia para o desjejum. Essa hora tinha cheiro de suco de laranja fresco e bronzeador importado: ela não abria mão do solzinho da manhã. Alheia a toda a movimentação da casa, Joyce continuava conversando com a sua bonequinha, mas não descuidava um segundo sequer dos sinais olfativos que a sua mãe silenciosamente enviava. Joana, a essa altura, já estava atrás de uma grande pilha de roupas para passar.
Era quarta-feira, e, como de costume, este era um dia bem estressante para Bárbara, a caçula da família. Este era o dia que tomava aulas particulares de piano, a contragosto, obrigada pelo pai. Descia sempre para a sala principal aos berros, ainda de pijama e meias, como se estivesse sendo castigada pela vida. Em vão, tentava convencer a mãe: eu odeio isso! Eu odeio essa professora! Eu odeio você! Insensível às ofensas da filha, Monique buscava com irritação o telefone da manicure no seu celular, por detrás dos imensos óculos escuros Prada.
Mas o barulho que a menina fazia era tanto, que acabou despertando a atenção de Joyce. Em tempo: um delicioso cheiro de feijão cozido saía da cozinha. Tomada por uma enorme euforia, ela largou a boneca no chão e saiu ao encontro da mãe. Depois de um longo e inesperado abraço, disparou: “Mãezinha, chegou a hora!”. Com um largo sorriso, Joana abandonou delicadamente o avental sobre a mesa da cozinha e acariciou os cabelos da filha.
- Dona Monique, até amanhã. O almoço já está na mesa.
- Obrigada Jô. Tô sem fome. Essa menina me tira do sério.
Pela grande janela de vidro que separava a copa do jardim central, a patroa observava mãe e filha indo embora, unidas, dando risadas. Juntas, contavam as moedas para a próxima condução e davam instruções para a boneca descabelada, pedindo que se comportasse. Afinal de contas, era dia de estudar.
Out/2007
Atravesso a avenida lutando contra consistentes gotas de chuva e subo a grande escadaria coberta por um tapete vermelho luxuoso, porém gasto. Ao lado de uma pequena mesa que funciona como bilheteria, um amigo me aguarda e observa duas senhoras loiras, de meia idade, aparentemente preocupadas com a chapinha recém-molhada.
O salão de bailes fica em um clube poliesportivo e inspira contradição, por manter um requinte insustentável, financeiramente falando. Pago seis reais para entrar e mais um real para deixar a bolsa na chapelaria, após subir dois lances de uma escadaria esculpida em mármore. O grande saguão tem um reluzente chão branco e antecede a pista de dança, que a essa altura estava tomada por um bom e velho bolero.
Lá dentro, vejo uma pista de dança imensa, com chão impecável, abaixo de dois enormes lustres do século passado. Por alguns instantes, me sinto dentro do legítimo Titanic, mas volto à realidade quando retomo os sentidos e ouço o som vindo do palco, onde estão quatro músicos e uma cantora, uniformizados com camisa de cetim vermelha e calça preta. O fundo é revestido por um tecido preto e letras douradas que anunciam o show da noite: “Banda Premium”.
Espalhadas ao redor do salão, existem mais ou menos cem mesas de plástico branco-amareladas, ocupadas esparsamente. A iluminação é opaca, conferindo uma atmosfera aconchegante ao local. Sinto-me acolhida em meio a tantas pessoas mais velhas que eu – a faixa etária supera os 50. A maioria feminina prevalece, o que é muito comum no meio da dança. Mas os homens também estão por lá e se sentem como reis frente a tanta oferta, ávidos por usufruir a noite ao lado de uma boa parceira de dança, ou várias, obedecendo à proporção desigual.
Os figurinos vão do simples ao bizarro. Vestidos esvoaçantes, sapatos bicolores, cintos de lantejoula, colares, laquês e brilho, muito brilho. Para uma noite chuvosa de terça-feira, a pista estava surpreendentemente cheia. Noto que na ponta do palco uma senhora de longos cabelos pretos dança sozinha, com uma roupa um tanto quanto “modernosa”, saia curta jeans, meia-fina e botas pretas. Não contenho uma risada discreta, depois de conferir o modo estranho que a senhora dança, no melhor estilo “não estou nem aí mesmo”. Em seguida, um outro personagem chama minha atenção: um senhor com cabelos à la Roberto Carlos entra na dança, com um sorriso de orelha a orelha, camisa preta com grandes bolas coloridas, corrente de ouro grossa ao redor do pescoço.
Finalmente decido parar de analisar o cenário e cair na pista, animada com a seleção de “tcha-tcha-tcha” que acaba de começar. Surpreendo-me ao perceber que as tradições antigas ainda são seguidas à risca em um salão de baile: os casais dançam movendo-se em sentido horário, o que faz com que dêem constantes voltas em toda a pista, observando e sendo observados. Lembro-me, no minuto seguinte, que hábitos tradicionais seriam comuns nas próximas horas, afinal, me encontro entre pessoas na fase da terceira idade.
Vez por outra vejo dois ou três com idade próxima à minha, que não estão lá por acaso ou para se divertir. São profissionais, chamados de personal dancers, e têm como função acompanhar senhoras de idade ao baile, além de conduzi-las por quantas músicas o fôlego permitir. Essa é uma profissão nova e crescente no mundo da dança, que rende uma boa grana e garante a alegria das senhorinhas mais abastadas, que antigamente reclamavam a falta de homens nas pistas.
Entre uma seleção musical e outra, danço, tomo uma cerveja, danço mais um pouco, vigio tudo à minha volta. Entre muitas personalidades desconhecidas, ainda que muito peculiares, noto um traço comum – a auto-estima que toma conta de cada um ali presente. Todos estão felizes, em festa. Se beijam na pista. Sim, os idosos se beijam – para mim essa visão foi inédita! Nunca imaginei meus avós em um acalorado beijo de língua, por exemplo. Não se importam se estão sendo vistos. Nem tampouco se estão dançando certo, se erraram um passo, se estão sendo fiéis às técnicas da dança de salão.
Fico triste por me obrigar ir embora à meia-noite, já que no dia seguinte tenho que trabalhar. Enquanto isso, os “pés-de-valsa” presentes no local nem se lembram do relógio. Presumo que a maioria deve estar aposentada, ou realizar trabalhos leves, ou apenas ficar em casa, batendo um bolo, cuidando dos netos, assistindo programas vespertinos…
Penso que isto pode ter soado como um julgamento equivocado, visto que tantas pessoas idosas ainda sentem-se capazes e com energia suficiente para trabalhar. Mas na real foi justamente o contrário, me vi diante de pessoas felizes e cientes de que ainda conseguem extrair o melhor da vida, independente do peso da idade.
Saio do baile feliz e saltitante, sentindo a chuva levar embora o meu suor ainda quente. E com a certeza de que é dessa forma que quero envelhecer: com um sorriso no rosto e a dança no coração.
Mar/2007
Depois de um dia exaustivo, à fila do ônibus, com cara de acabada e um livro na mão, ouço uma voz interrompendo minha leitura (que às dez e meia da noite já não era muito confiável).
- Aqui passa o São Caetano, não?
- Ahã.
- Ele demora?
- Não.
Segui a leitura. Ou melhor, tentei seguir, porque, a figura feminina que acabava de falar comigo me remeteu pelo menos há uns dez anos atrás.
Tinha o cabelo curto e naturalmente loiro, preso em um pequeno rabo de cavalo. Vestida com uma bermuda social, uma regata simples, e, nos pés, um chinelo de dedos, demonstrava uma evidente despreocupação com o modo de se vestir. A bolsinha minúscula, de modelo indiano, em contraste com uma sacola florida que segurava à mão, confirmavam a total despretensão com o figurino.
A pele era levemente bronzeada e o corpo não chamava atenção – magra, do tipo que mostra os ossos das costas. Mas os olhos rasgados – e verdes – dificilmente passariam despercebidos. Os dentes brancos e perfeitos, igualmente chamativos, lhe conferiam um ar sofisticado. Uma beleza realmente rara, do tipo que é preciso olhar com atenção para desvendar seus atributos.
Após a criteriosa análise feita por detrás do livro que eu segurava a altura da testa, concluí: sim, ela foi namorada do menino que ocupou o cargo de meu amor platônico na oitava série. Durante um ano, a coitada foi meu principal alvo de antipatia, e eu a classificava, na época, como “sem graça” ou “branquela aguada”. Afinal, era eu quem deveria estar no lugar dela! Minha antipatia, por sinal, também era platônica, porque nunca troquei nem meia palavra com a garota.
Feita a avaliação física, parti para as suposições. E de repente, me vi mergulhada em um mar de perguntas comuns entre as mulheres que se sentem (ou já se sentiram) ameaçadas de alguma forma – o que na verdade é ridículo, porém, inevitável.
O que será que ela faz da vida? Será que está casada? Será bem-sucedida? Para me confortar um pouco e me salvar daquela enxurrada de dúvidas, percebi, no mesmo instante, que a curiosidade era recíproca. Observando minha concentração na leitura, rapidamente puxou da sacolinha florida um livro antigo do qual em vão tentei ler o título.
Interpretei a atitude como um: “Ei! Mais do que belos olhos verdes, também tenho intelecto.” Em seguida, começou a fazer movimentos estranhos, apertando com o polegar alguns pontos do corpo. Percebi imediatamente que ela reproduzia – sem receio por estar no meio da rua – os movimentos demonstrados nas figuras do livro, que notei, alguns minutos depois, ser sobre massagem.
Quando o ônibus chegou e eu me acomodei a uma cadeira, percebi que ela escolheu, propositalmente, sentar-se a minha frente. Que audácia! – pensei comigo – O que será que ela quer? Que eu a fique observando o caminho todo? Olhando para a sua nuca e imaginado o que ela faz da vida, além de ser linda e a pessoa que eu queria ser a alguns anos?
Ok, ela conseguiu minha atenção. Em menos de cinco minutos enumerei várias possibilidades de profissão para ela: massagista (parecia óbvio), bailarina, fisioterapeuta, hippie (por causa da bolsinha indiana), entre outras. E enquanto minha imaginação fluía, ela seguia com os movimentos sem pudor, visivelmente ciente de que eu acompanhava passo a passo seu mais novo aprendizado. Será que ela estava gostando disso? Será que se lembrou de mim – babando pro namorado dela – e está me testando?
Até que, uma conhecida que eu não via há algum tempo, sobe no ônibus e começa a conversar comigo, sobre frivolidades. Me contou que formou-se em Pedagogia e, atualmente, cursa a faculdade de Letras. Nesse momento, a audácia do meu momentâneo foco de observação atingiu o inesperado. A menina vira-se e, sem mais nem menos, entra na nossa conversa:
- Desculpe pela intromissão, mas você disse Pedagogia e…Letras? É porque são justamente os dois cursos que eu tenho interesse!
Em seguida, não disfarçando a atuação, disse, fazendo um biquinho de dúvida:
- Eu não te conheço de algum lugar?
E eu, um pouco mais sínica:
- Seu rosto realmente não me é estranho.
Era nítida a sua necessidade de descobrir mais coisas sobre a vida que levo atualmente. Na primeira oportunidade, lançou-me, com a curiosidade inflada:
- E você, faz o quê?
- Sou jornalista – disse com a boca cheia, certa de que a minha formação, naquele momento, seria uma vantagem em relação a “minha concorrente”.
Levantei-me puxando a cordinha do ônibus e me despedi das duas, ao que ela, avidamente, fincou os olhos na lombada do livro que eu segurava, em busca do título. Fui mais esperta e rapidamente guardei-o na bolsa, como que me defendendo do seu olhar ligeiro. Ela me deu uma piscadela, que eu devolvi. Certamente, nossas mentes diziam: “É óbvio que ela se lembra de mim”.
Nos reconhecemos, veladamente. Seja pela cara, seja pela competição desatada que nos ligou naquela época. Desci do ônibus e as interrogações ainda pipocavam: “Será que virou bissexual? Acho que a última olhada foi meio estranha”.
Quando caí na real, comecei a rir sozinha, de mim mesma. Como posso ter feito tantos pré-julgamentos em um espaço tão curto de tempo? Me senti tola por ter desperdiçado esses minutos tentando desvendar seu comportamento, ou imaginando o que ela pensava sobre mim.
Mas ao mesmo tempo, me dei conta que a curiosidade feminina sobre o as demais vai além de características como beleza ou auto-suficiência. E no fundo, acho uma verdadeira diversão imaginar o universo individual das pessoas. Com isso, você acaba desenvolvendo sua criatividade e descobrindo que as particularidades de cada um são o motivo pelo qual temos valor próprio.
Independente dos adjetivos que uma pessoa possa carregar, não existe e nunca existirá comparação entre ser humano algum. Somos únicos, exclusivos e especiais, e isso, por si só, já é uma dádiva.
Jan/2006






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