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Foi isso que o filhinho de sete anos de um amigo que mora em Barcelona disse a ele, depois de visitar o Parque Güell em uma excursão pela escola. Essa frase ficou martelando na minha cabeça por alguns minutos.”Que merda”, pensei. “Quem nasce aqui na Europa está a dez anos luz na nossa frente mesmo”.

Eu ainda não sou mãe, por isso nem consigo imaginar quem as crianças brasileiras querem ser quando crescerem (tenho até medinho da resposta). Também não entendo lhufas de arquitetura, mas Gaudí obviamente estava à frente dos demais.

Do auge da minha ignorância, a única definição que encontrei ao conhecer o trabalho do cara de perto é: ele conseguiu concretizar (literalmente, ha-ha-ha) todas as pirações que milhares de outros arquitetos já tiveram. Alías, acredito eu que ele zuou meeesmo com a cara dos que não botavam uma fé neste tipo de loucura. Do tipo: “Não falei que dava pra construir qualquer coisa sem uma linha reta sequer? Não falei, não faleeei?

Entrada para o Parque Güell, onde o Gaudí pirava o cabeção

Talvez pros demais faltou força de vontade, dinheiro, determinação, mas, acima de tudo, audácia. Somente uma pessoa audaciosa teria coragem de iniciar a construção de uma igreja em 1882, projetada para ser a maior da Europa (lembrando que ô terra pra ter catedral, viu, rs), com plena consciência de que não veria o fim da obra. Sim, porque ela está em construção até hoje (!!!) com previsão de término para 2084! =0 Dizem até que, em determinado momento, a grana já não era suficiente e lá foi ele trabalhar de graça, renunciando ao próprio salário.

Bem, eu poderia ficar escrevendo horas para tentar explicar em palavras o que são as obras fantásticas do Gaudí, mas… 1. Eu nem de arquitetura entendendo e provavelmente vou falar e já estou falando merda 2. A intenção do texto nem é falar sobre arte, e sim, sobre educação. Sendo assim, melhor eu me ater à reflexão inicial.

Eu fico um pouco abalada quando lembro que esses putos aqui da Europa já nascem com tudo na mão, sabe. Os grandes pensadores europeus, imagino, tinham mesmo a obrigação de criar coisas geniais. Afinal, quem não quer sentar a bunda na beira o Sena ou do Thames para ficar refletindo e inventando moda?

Mas, ao mesmo tempo, acredito que a expressão da cultura e da arte é só o resultado da educação que uma pessoa teve. E não no sentido “cartilha do saber”, mas no sentido de boas referências, tanto em casa como na escola. Bons exemplos pra copiar. Bons ídolos pra pra admirar.

Tanto que, assumindo aqui humildemente meu desinteresse pela política brasileira, nas últimas eleições votei no primeiro sem-vergonha que falou em educação como proposta principal. Como é o mesmo o nome dele…. rs… (brincaderinha). Votei no Cristovam Buarque de olhos fechados, sem analisar ficha criminal, histórico político ou renda declarada.

Porque pra mim é nítido que se tem miséria, violência e desigualdade, é porque o sistema educacional no Brasil ainda é falho. Temos inúmeros outros problemas de ordem pública: transporte, segurança, saúde. Mas absolutamente TUDO isso está ligado à educação, não tem como ser diferente.

Por isso, para mim, ouvir uma criança de sete anos falando em Gaudí (oi, eu não sabia do que se tratava até pisar na Espanha) é um soco no estômago, mas… convenhamos. São anos e anos de história. E não dá nem pra atribuir estes problemas ao governo ou a qualquer outro aspecto…tem culpaquem nesta confusão?

O Cristovam Buarque, que não foi capaz de ser eleito? Ou o Colombo, que descobriu a América e chamou a putaiada toda pra festa da exploração? Sinceramente, não dá pra botar a culpa no passado. Tudo tem um contexto e tudo tem solução.

Acho um porre este povo que fica lamentando a história, sabe. Se fomos explorados, e até hoje não sabemos lidar com isso, o problema é bem mais sério do que simples fator histórico. É caso de psicanálise pra reaver a auto-estima! Londres passou por uma peste que vitimou grande parte da população, por um incêndio que tostou outros 45% da cidade, viu duas guerras mundiais e… sobreviveu.

Não quero voltar pro Brasil com pensamentinho de quem morou fora e das duas uma: vira um nacionalista meia-tigela que tapa os olhos pra realidade; ou vira um crítico político vazio com argumentos baseados no que concluiu FORA do país (mas que também não mexe a bunda por nada pra tentar mudar algo).

Apenas quero voltar com um raciocínio que pode parecer piegas, mas pra mim faz todo o sentido. O Brasil só vai mudar quando todo mundo começar a pensar coletivamente. Não dá pra esperar uma revolução no governo. Tá mais do que na hora de arregaçar as mangas e entrar pra briga.

Quero sair do discursinho de reciclar papel e tomar café em xícara de vidro, e não em copo de plástico. Isso é muito bonitinho mas é pouco. Quero que meus filhos queiram ser Gaudí. Mas enquanto não tenho filhos, porque não tentar fazer algo pelos dos outros?

Cartão postal de Barcelona: banco-varanda do Parque Güell, decorado com azulejos quebrados

Quem pega o metrô de Londres tem acesso gratuito a três jornaizinhos diários: o Metro (que é publicado em vários países), o London Paper e o Lite. O primeiro é um Notícias Populares, se expremer sai sangue. Os dois últimos concorrem pra ver qual consegue colocar as fotos mais bizarras das celebridades em seus bafões na noite londrina, com direito a bebedeira, tombos, aparições de calcinhas (ou a ausência delas), novos affairs, entre outros. Eu sidivirto a lot.

Mas a artista que eu mais vi estampada na capa dos jornais daqui, sem dúvida alguma, foi a Amy. E a overdose (sem trocadalhos) da aparição da moça se estende à imprensa brasileira com algumas horas de atraso, quando o que era notícia no jornalzinho daqui no fim da tarde vira manchete do Ego, Quem, Uol e outras publicações com suas editorias das celeb’s.

Fazendo um balanço do que eu li, concluo que definitivamente não é legal acompanhar TÃO de perto a vida de um artista. Atire a primeira pedra quem não curte uma fofoquinha (ADOURO), mas pra mim já passou da conta. Nos últimos meses, os jornais noticiaram que ela usou todas as drogas que existem no planeta, bateu em fã, paparazzi e até no próprio segurança, conversou com filhotes de rato (cena bizonha), fugiu de casa, foi internada com enfisema pulmonar e saiu do hospital fumando umas dez vezes…enfim, taaanta exposição…pra quê?

Teve uma que também me chamou bastante atenção. Foi quando ela divulgou um vídeo zoando negros, paquistaneses, orientais e japoneses, fazendo paródia com uma música infantil. Fez isso pra atacar os milhares de imigrantes que vivem em Londres (oi? engordo as estatísticas?). Tudo bem, ela pediu desculpas depois, e, até eu, que não sou daqui me irrito com essa invasão…mas peraí, né?

Mas o cúmulo pra mim é quando eles publicam aquela foto com close na napa da coitada contendo “substância-branca-duvidosa”. Ah, façameofavor, né! Não foi uma vez que eu vi isso, foram inúmeras. Quer coisa mais deprê do que acompanhar, diariamente, as novidades quentíssimas de um depende químico?

Só ressaltando: eu adoro a Amy. Mas pra mim ela já virou um caso de segurança pública. Porque assim, ok achar uma artista sensacional. Mas acompanhar ela batendo em pessoas, incitando o preconceito racial ou conversando com filhotes de ratos, definitavamente não é da minha conta. Eu tenho medo do que este tipo de fenômeno pode causar.

Fora o desrespeito com o ser humano, por trás da artista, em recuperação. É nítido que a mídia esqueceu o que é bom senso faz tempo. E isso é tanto no Brasil, com os casos Isabela da vida, como na Inglaterra, com os rehabs.

Acima de tudo, acredito na recuperação da Amy! Talvez seja muito polianismo (polianismo: termo cunhado por mim mesma para descrever o altíssimo nível de otimismo que eu tenho com, irritantemente, quase tudo) da minha parte, mas acho que se ela saísse dessa poderia tentar ser uma resposta a tantos ídolos que só se tornaram mitos depois da overdose fatal.

Essa semana ela deu uma sumidinha da mídia e eu até senti falta, rs. Prefiro acreditar que ela está do lado do super-papy se recuperando. E já que eu trombei com ela estes dias, resolvi mandar umas verdades:

Amy, sua fanfarrona, não morre não, pôooorra! Esquece o Blake que agora é hora do…cafunéeee!

Uma coisa que eu acho muito bacana aqui em Londres é a singela capacidade de homenegar aqueles que morreram de maneira brutal e sem possibilidade de defesa. E nem é preciso ser super observador para encontrar este tipo monumento e entender o peso de cada um. Com poucas palavras, eles dizem muito. Um dos primeiros que me chamaram a atenção foi este aqui:

Trata-se de uma homenagem aos animais que morreram em guerra. A frase “They had no choice”, esculpida no muro, é uma cassetada e, na minha opinião, representa a imbecilidade do homem ao longo das guerras e suas consequências. Pobres animaisinhos. =(

Já no Museu de Londres, logo na entrada, as pessoas dão de cara com fotos do atentado de 7 de julho de 2005, no qual morreram pais de família, imigrantes, crianças, jovens…Um livro grosso exibe fotos e com a história de vida de cada um, além de gostos e objetivos pessoais, depoimentos da família e a trajetória no fatídico dia. Uma forma de manter viva a memória destas pessoas inocentes.

Estes são apenas dois exemplos, mas, andando pela cidade, é possível fazer algumas boas descobertas neste sentido. Caminhando pela City, bairro onde tudo começou por aqui (onde você encontra arquitetura do século 19 ao lado de gigantes prédios modernos e espelhados), me deparei com um pequeno portãozinho de grades pretas, que dava acesso a um jardim colorido ao redor de uma fonte.

Fui entrando e notei algumas pessoas tirando fotos de uma parede repleta de azulejos. Pintados à mão, traziam histórias de pessoas comuns que morreram heróicamente. E o que mais surpreende: as mortes datam do ano de 1800! São crianças que morreram inocentemente tentando salvar os próprios amigos, um senhor que livrou uma mulher doente mental do suicídio na linha do trem, um irmão que salvou a irmã do incêndio na própria casa…muito emocionante.

Saí de lá me perguntando quando no Brasil iremos nos comover pela morte dos que morrem inocentemente. Vítimas da violência, da ganância, do sistema precário de saúde. Reflexão do dia: como se livrar da anestesia que nos submetemos para nos defendermos? Perguntinha difícil, se alguém aí tiver a resposta, me conte, porque eu também ainda estou tentando achar um jeito de ler as notícias e parar de fingir que tudo está indo bem.