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De todas as mil e uma qualidades que eu admiro na minha mãe, uma das que mais me toca é o “ser humana”. O que quero dizer com isso é que, talvez ela nem saiba, mas é uma das pessoas mais sensíveis que eu já conheci, embora seja forte como uma rocha.
Se é que vocês me entendem, ser sensível não tem nada a ver com ser fraco. Eu por exemplo me considero bem forte pra (quase) todos os assuntos da minha vida. E também não sou uma chorona de plantão em filmes, novelas ou PPTs com paisagens e fundos musicais, não gosto da Hello Kit, nem de cor-de-rosa.
Mas em compensação, tremo o beicinho fácil, fácil quando vejo uma velhinha no mercado com dificuldade para enxergar o preço da alface, um cachorrinho com cara de fome, uma música tocada com emoção ou um funcionário sendo humilhado publicamente. Com dança então, nem se fala. =)
Não, eu não sou fofa. Só tenho sensibilidade à flor da pele! Existem situações cotidianas que me comovem tanto…que são capazes de me desmontar. E isso eu herdei da minha mãe, certeza.
Depois de ver muitas coisas que me tocaram em Londres (e outras nem tanto), cheguei à conclusão que sensibilidade aflorada realmente não é algo que todo mundo tem. Uns são mais sensíveis, outros menos, e alguns preferem apenas ficar alheios às situações que não interferem diretamente em suas vidinhas. Não me sinto privilegiada ou acabo de descobrir um “dom” nato, mas é bom saber que isso faz parte de mim por culpa da minha mãe.
No meio da semana passada, recebi uma ligação dela dizendo: “Filha, estou tão feliz! Fui homenageada hoje”. Na hora, a pressa não me deixou perguntar mais detalhes, mas prometi ouvir a história com calma à noite, em casa.Então ela me explicou tudo.
Desde que eu me conheço por gente, minha mãe vende Natura. Mas ela não é uma vendedorazinha, não, meu amigo. Quem conhece “a fera” <Faustão> sabe que ela vende até saco plástico furado se quiser. E ela tem cada idéia que deixaria qualquer dono de empresa de queixo caído. Enche uma cesta com produtos e faz uma rifa, organiza um “chá da tarde” com todas as madames do bairro e faz uma tarde de bingo, inventa kits de Natal e datas especiais…pura criatividade essa minha gordinha, viu.
Enfim, depois de tantos anos dando muito, mas muiiito dinheiro pra Natura (e acumulando muitos produtos legais pra nossa casa também!), eles fizeram uma convenção que homenageou todas as vendedoras. Achei muito bacana a atitude da empresa, em primeiro lugar.
Partindo do princípio de que muitas mulheres se lançam nesta tarefa quase que “sem querer”, muitas vezes pra completar o orçamento ou pra aliviar a ausência involuntária de um marido desempregado, é mais do que justo que sejam lembradas. Muitas delas vão de porta em porta vender. E fazem disso um compromisso: ganham auto-estima com os resultados e também a vendem em frascos e caixas para tantas outras mulheres.
Então ela me contou que eles alugaram o salão de um hotel bonito, fizeram uma mesa cheia de coisas gostosas, contrataram uma pessoa pra cantar ao vivo pra elas e chamaram uma a uma no palco para receberem uma lembrança de um dos gerentes da empresa.
Depois de “manchetar” as informações gerais sobre a festa com cores e sons, ela partiu pro detalhe. Minha mãe consegue narrar uma situação de forma que você se sinta preso, por mais que esteja com pressa; se sinta interessado, por mais que você não conheça nem o protagonista da história; se sinta emocionado, mesmo que não tenha vivido. Ela tem o dom dos grandes escritores….mas não sabe disso.
Tenho frescas em minha memória muitas das histórias que ela já me contou nessa vida, que vão desde a bem aproveitada infância de moleca, passando pela casa das clientes mais abastadas, casamentos, coincidências do dia-a-dia e, sobretudo, muitos, muitos momentos em que ela se viu diante de ajudar alguém. Aliás, justamente por ser sensível e humana, estas situações caem no colo dela quase que diariamente:
“Filha, hoje passou um velhinho aqui em casa, vendendo uns paninhos de prato tãaaao caprichadinhos, acredita que ele cobrava só R$ 2 cada um? Comprei cinco.”
“Filha, hoje tinha uma menina tão novinha na pracinha na frente de casa, com um nenezinho no colo, acredita que eu não tinha R$ 1 pra dar? Então fiz um pratão de comida, descasquei uma laranja, e levei lá.”
E foi bem desse jeitinho que ela me contou o desenrolar deste dia de homenagens. Ela me disse que viu o orgulho no rosto das mulheres que estavam por lá. Disse que a maioria delas era composta por mulheres bem simples. Algumas mostravam resquícios de um penteado feito em casa mesmo, outras, estavam acompanhadas de uma irmã ou cunhada, por vergonha ou simplesmente pra compartilhar uma festa tão legal com alguém próximo.
Ela também reparou uma senhora que usava um conjuntinho de terno, embora fizesse muito calor naquele dia. “Tem gente que usa a melhor roupa que tem, filha, sem se preocupar com o tempo lá fora”, disse ela, com o narizinho vermelho e os olhinhos brilhando. Caiu a primeira lágrima. Sim, ela chora por pessoas que não conhece. E eu, a essa altura, já tinha amolecido há muito tempo.
Ela notou tudo isso porque hoje é uma vencedora, mas sua essência é simples. Já vendeu muito de porta em porta. Já cobriu muito desemprego, apoiando meu pai nas horas difíceis. E apesar de tudo, nunca deixou de ver o que ninguém vê, de observar o outro com uma compaixão rara, colecionando histórias e as compartilhando com suas crias. Quase que sem querer, ela norteou completamente a forma como eu enxergo a vida e o próximo.
Obrigada, mãezinha, pelo dom de olhar o outro com os olhos do coração.


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