Pergunto eu, neste momento, o que um ser humano com idade acima dos cinco anos, pensa ao escrever um texto com um título desse. A resposta é simples: tirei férias! =D Pois é, depois de quase dois anos sem sair de cima, consegui dez dias que, por serem tão breves, prefiro chamar de “raríssimos momentos para reflexão”, rs. E agora cá estou, na madrugada do meu penúltimo dia de descanso, fazendo o balanço do que se passou.
Na verdade dessa vez eu fiz questão de não programar nada muito radical, exótico, turístico, histórico ou adrenalínico (inventei essa palavra). Isso porque, quando voltei de Londres, em agosto do ano passado, não tive tempo nem pra respirar antes de voltar à vida real. Dois dias depois de desembarcar, já estava trabalhando – e na mesmíssima cadeira de onde saí quase sete meses antes. Olha, tava até quentinha viu…posso dizer que esse choque pós-retorno serviu pra confundir e pra organizar ao mesmo tempo, mas hoje até que meu fuso já voltou ao normal. Ainda mais depois da minha viagem ao túnel do tempo que vivi nesses dez dias.
Como eu ia dizendo, optei por não sair de SP. Queria aproveitar meus dias para fazer coisas simples: ficar na casa da minha mãe, passear com a minha cachorra, almoçar sem pressa (degustando uma deliciosa comidinha caseira), andar a pé pelo meu bairro, etc. Também aproveitei pra fazer aquelas coisas que, por mais que se programe, nunca saem. Do tipo visitar a Pinacoteca de São Paulo sem pressa e com tempo até pro cafezinho. A essa altura do meu cansaço, acreditem, até uma consulta médica virou passeio. Marquei três especialidades num dia só (rs) e ainda aproveitei pra almoçar no Mac e bisbilhotar as promoções lá da minha terrinha, São Caetano do Sul, a terra do nunca, rs.
Só que nesse meio tempo minha ilustríssima mãe resolveu organizar tudo pra irmos pra Maringá-PR, onde ela nasceu, foi criada e deixou pra trás aos 17 anos quando resolveu que queria algo mais – lórrico que ela veio buscar em SP. Essa história é longa e rende não só um post, mas um livro, então vamos direto à conclusão – passei toda a minha infância no lá-e-cá. Ela sempre deu um jeitinho de encaixar nossas rotinas de modo que vivenciássemos feriados, digamos, mega-familísticos, junto com nossos primos, tios e avós. Como nunca tivemos dinheiro de sobra, o jeito era pegar o busão na Barra Funda e bora encarar as oito horas rumo a mais uma sequência de dias de sol quente e muita folia. Sim, porque minha família é grande e festeira!
Essas circustâncias fizeram com que eu passasse a gostar, do fundo do meu coração, da idéia de viajar de ônibus. Afinal, desde muito pequenininha estou na estrada (no bom sentido, gente! rs). Tanto que, pra mim e pra minha irmã, essa rotina era sinônimo de festa. Tínhamos um ritual que ia mudando com o tempo, de acordo com o nosso tamanho e idade mental (esse último não evoluiu muito). Lembro que eu mal pisava no busão e já queria arrancar fora meu par de tênis. Minha mãe sempre escolhia os dois bancos da frente, justamente por apresentarem uma pequena vantagem de espaço em relação aos demais, e fazia uma “caminha” pra eu deitar.
Mas o mais legal era a sacolinha de guloseimas que ela preparava. Tinha um pacote de Fandangos pra cada uma, uma lata de refrigerante e, às vezes, uma caixa de Bis. Era incrível comer toda aquela baboseira em plena madrugada – uma verdadeira balada para nós, crianças.
Então cresci mais um pouquinho e acrescentei um item à minha mochila: o meu tão sonhado walkman. Ele era lindo e sempre tinha a mesma fita k7 dentro. Que os alternas / roqueiros / punks / emos que lêem esse blog me perdoem, mas nessa época o que me conduzia pelas oito horas de viagem era a mais pura e genuína música sertaneja. Não que eu tenha que me desculpar por algo, mas sei o quanto já fui tachada de tosca por isso. Mas raíz é raíz e quando eu chegava lá ouvia mais música sertaneja, com direito à roda de viola, bailão, churrasco e cerveja. E eu adorava. Esses dias eram mesmo inesquecíveis, especialmente as férias.
Pra quem não conhece, essa é Maringá! A cidade mais arborizada que eu já vi de perto.
Embora em muitos aspectos tenha sido modernizada, Maringá tem coisas que parecem ter parado no tempo. Dá pra se notar isso especialmente nos bairros mais antigos, onde ainda existem muitas casas feitas de madeira. Os muros são baixos, os portões servem não mais do que para separar a casa da rua, não há preocupação com segurança. A maioria dos quintais têm árvores frutíferas, principalmente mangueiras, e no verão seus frutos colorem o chão ao despencar e espalhar um cheiro cítrico adocicado pelo ar. As varandas têm umas cadeiras de plástico trançado, que eu só vi até hoje por lá, e sempre são nas cores azul, vermelha ou verde. A terra é cor de fogo e esta também é a cor dos pés das crianças.
Lá, eu tinha a oportunidade de vivenciar coisas que eu não via por aqui, na “cidade grande”. Minha vó tinha horta. Moía café na hora pra gente tomar. Fazia muitos, mas muitos pães caseiros cilindrados manualmente, e os desformava quentinhos na mesa comprida com uma penca de netos em volta, fazendo a maior bagunça na hora de comer. E ela nem brigava. Com o seu jeitinho sereno, passava horas sentada à maquina de costura. Muitas vezes eu inventava modelitos e pedia pra ela fazer pra mim, era muito divertido… nós éramos uma dupla e tanto!
Eu e a penca de primos aprontávamos até. A gente tomava banho de mangueira no quintal, subia nas árvores enormes que compõem lindamente a paisagem de Maringá, pulava corda no meio da rua que não tinha problema nenhum. Quando a gente terminava de almoçar, minha mãe descascava laranja praquele bando de criança, e, quando tinha melancia, era guerra de caroço na certa. A mania de fartura beirava o exagero e, quando minha mãe ouvia o carrinho do sorvete, pedia pro moço descarregar logo uns trinta picolés de frutas, daqueles bem baratinhos, que faziam a nossa alegria. Foram férias lindas que nós vivemos juntos, muito simples e felizes.
Quando eu voltava pra SP, sentia um misto de coisas. Eu SEMPRE chorava ao deixar minha vozinha, pois ela é minha segunda mãe. Minutos depois eu já estava um pouco melhor, ao entrar no ônibus, pois sabia que ele ia “pingar” nos municípios vizinhos e eu adorava ficar observando as casinhas, as pessoas, o comércio local. Eu filmava tudo e ficava imaginando como era a vida daquelas pessoas em cada uma das cidadezinhas.
O céu era tão forrado de estrelas que não dava nem vontade de dormir! Com muito custo eu adormecia e, horas depois, acordava na Marginal Tietê, MUITO puta da vida, descabelada e com bafo, rs. Era a volta à vida real. As férias tinham acabado e eu tinha saído de uma cidade linda, com violência ZERO, sem trânsito nem poluição, pra desembarcar em um lugar totalmente oposto, fedido, entupido de gente. Argh. Mas aí eu chegava no meu prédio e ficava feliz de novo, reencontrava meus amigos, ouvia as novas gírias nascidas durante o mês de férias, retomava minha rotina.
Esse ciclo sem fim de indas e vindas durou até eu começar a trabalhar. Como peguei na lida cedo, as férias enormes também passaram a se resumir a escassos feriados, divididos entre amigos, namorados, trabalho, emprego novo, trabalho, início de estágio, faculdade, trabalho, trabalho, trabalho. Também passei a ouvir outros tipos de músicas, não só as sertanejas, e a viajar pra outros lugares, não só pra Maringá. E não adianta se lamentar, isso faz parte da vida. As férias escolares entram pra história mas o que importa mesmo é guardar a essência e resgatar esses momentos sempre que possível.
Felizmente, consegui fazer isso depois de muito tempo. Felizmente, ainda posso ver minha vózinha – uma mulher forte de voz mansa – à beira da máquina de costura. Vê-la fazer minha comida preferida, ouvindo música sertaneja e dançando no meio da cozinha. Felizmente, percebi nessas férias que independente do mundo ao meu redor ter mudado bastante, minha essência não mudou. Essa simplicidade ainda me faz tão bem, que é mais rica do que qualquer viagem pelo mundo afora, financiada em euros.
Eu ainda como Fandangos durante a viagem, não espero nem o motor ligar pra tirar o tênis e amo, simplesmente amo observar as cidadezinhas pela janela. Eu ainda choro de amor pela minha vozinha, faço as mesmas solicitações gastronômicas a ela e à minha mãe e fico feliz ao ouvir a musiquinha do Jornal Hoje, pois ela me remete diretamente às minhas férias em Maringá, já que na vida real eu nem passo perto da TV durante o dia. E, com uma diferença aqui e outra ali com um primo ou um tio, ainda prezo muito, muito pela família.
Por mais que eu tenha aprendido por aí, a minha base mais primária foi costruída nesses momentos, junto com a turma da mesma “laia” que eu. É engraçado eu escrever tudo isso dois dias depois de ir ao show do Radiohead, que é uma referência oposta à toda essa atmosfera sertaneja que eu descrevi acima. E é por isso que reafirmo que esses poucos dias de férias me fizeram tão bem. Pra me mostrar que independente do lugar ou da trilha sonora, o que importa é estar perto de quem a gente ama. A trilha que embalou meu domingo foi Creep. Mas a trilha que embalou minhas férias foi uma canção bem menos complexa, apresentada a mim pela minha mãe, que mostra muito bem o quanto a felicidade tem tudo a ver com simplicidade.
Deus e eu no sertão
Victor e Léo / Composição: Victor Chaves
Nunca vi ninguém
Viver tão feliz
Como eu no sertão
Perto de uma mata
E de um ribeirão
Deus e eu no sertão
Casa simplesinha
Rede pra dormir
De noite um show no céu
Deito pra assistir
Deus e eu no sertão
Das horas não sei
Mas vejo o clarão
Lá vou eu cuidar do chão
Trabalho cantando
A terra é a inspiração
Deus e eu no sertão
Não há solidão
Tem festa lá na vila
Depois da missa vou
Ver minha menina
De volta pra casa
Queima a lenha no fogão
E junto ao som da mata
Vou eu e um violão
Deus e eu no sertão

4 comments
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Março 25, 2009 às 8:29 pm
Lara
O céu estrelado, a poluição zero, as arvores dominantes… Parte desse seu texto descreve bem RV, que como sua mãe, eu deixei pra trás há 11 anos. Só não deixei sair do coração. O foda é com o tempo e a falta dele, fica cada vez mais difícil ter esse tipo de férias. Eu nem me lembro qto tempo faz.
Lindas recordações…
Vc tem razão qdo diz que vivenciou coisas impossíveis na cidade grande. E isso me faz ter orgulho das minhas raízes. Sou feliz pela infãncia brejeira e livre que tive. E grata pela oportunidade e o espaço que conquistei na “hell city”. O importante é isso, viver plenamente cada fase.
Pq td passa….
Junda! Tá cada vez melhor isso aqui!
Março 25, 2009 às 9:08 pm
Greice
Um dos posts mais lindos da minha coleção de leituras! IDENTIFICAÇÃO TOTAL. Embora tenha nascido em Porto Alegre e vivido grande parte da minha vida em São Paulo, tive muito contato com o interior do RS, inclusive em tempos de férias. Terra vermelha, casinhas de madeira, cadeiras na varanda, muros baixos, jardins bem cuidados, chimarrão, churrasco, bailão… tudo isso me soa totalmente familiar. Tanto quanto subir em pé de ameixa, colher amoras ou pitangas; sentar pra se lambuzar comendo melancia e pedir pro pai descascar uma laranja com “tampinha”. Quem não viveu pelo menos um pouco disso, não viveu! Os contrastes são sempre lindos e tão importantes… fico super feliz de encontrar alguém que saiba valorizar essas diferenças como você. Alguém veio me dizer que ser eclético não tá com nada, mas acho que essas pessoas nem sabe o que significa. Viva a diversidade! Linda essa letra da música sertaneja.
Abril 3, 2009 às 6:25 pm
Tati Rodrigues
Lindo de chorar! IDENTIFICAÇÃO TOTAL 2! Lembro da minha vózinha (que se foi em janeiro último) e da minha infância lá-e-cá pra Minas Gerais (lááá no Norte de Minas, no Jequitinhonha). Lembro do biscoito de polvilho e dos netos empinhados no fogão a lenha pra esquentar as pernas. Lembro dos banhos de rio e de bacia. Lembro da boca queimada de manga verde e das subidas nas goiabeiras. De chupar cana-de-açúcar e catar maxixe no chão. Do balanço de pneu e dos bois e cachorros ao lado. De passar no meio de arame farpado, das porteiras, das estradinhas de terra. Lembro do meu tio Pedro tocando viola, cantando moda, em volta da fogueira, assando lambari, e das lendas da roça. Das casinhas de pau-a-pique, do filtro de barro, do banco comprido das mesas, dos lampiões de toda noite e dos mosqueteiros armados pras netas de São Paulo. Minha outra vózinha doi mais cedo, mas lembro bem da Lagoa dos Gerais, onde ela morava. Lá tinha um chiqueiro grande! Tinha milho e algodão também. Tinha uma cristaleira que não existe mais, mas que ficava linda em dias de novena, brilhando com as velas. Tinha uma foto dela e do meu avô em preto e branco e fundo verde. Tinha o lenço delas na cabeça. E que queria saber carregar lata d’água e bacia de roupa na cebeça também, mas não conseguia! Tô emocionada. Mesmo. Lá nos Gerais e no Córrego São Domingos eu tive a melhor infância que poderia ter, e te agradeço por me lembrar disso. Obrigada por ser “da turma da mesma laia”.
Outubro 18, 2009 às 2:28 am
Robson Leandro da Silva
Em vários momentos percebi que você tem uma alma da flanêur. ETer essa capacidade de observar os detalhes e, sobretudo, desejo de simplesmente sair e andar por aí para olhar realmente as coisas. Não estranhei quando você disse que prefere viajar de ônibus. Leva mais tempo, mas do ponto de vista de alguém que gosta de observar os lugares, a sensação é incomparável.
Muito melhor do que as cidades vistas do alto.
Me emocionei quando voce fala da sua mãe (não a conheço, mas imaginei ela chegando aqui) e da sua avó que, deu pra perceber, é uma pessoa muito querida.
Gostei muito.