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Esses dias fiquei viajando com a minha irmã, em um típico momento de preguiça pós-almoço, sobre a “insubstituição” das pessoas. Sim, porque todo mundo acha muito bonito falar que “ninguém é insubstituível”, mas vai eu querer faltar no meu trabalho e mandar minha vizinha no meu lugar. Demissão por justa causa, no mínimo.

Após discorrermos pouco mais que 10 minutos sobre o assunto, chegamos à conclusão de que o mundo seria MUITO melhor se tivéssemos este nível de livre arbítrio. Como toda estréia, o começo desse novo modo de vida ia ser uma bela duma putaria.

- Mãe, você pode comparecer numa reunião hoje às 15h na Avenida Paulista?
- Claro filha, tô di boas. Onde você vai estar?
- Ah, vou fazer depilação, porque se pans no sábado eu vou pra praia.
- Ok. Sendo assim, você pode ir na minha reunião de condomínio hoje à noite? Não vou conseguir chegar a tempo.
- Tá bom. Eu te passo o briefing e você me passa o nome do féladaputa do síndico. Xingar vale?

É… it´s not sounds good. Porém, acredito que, com um ajuste aqui outro acolá, rolaria. Pensa bem, já absorvemos idéias muito mais bizarras nesse mundão de meu Deus. Nos acostumamos a palavras novas como “delete”, “formatar” e “desfragmentar”, quando ainda éramos todos off-line no mundo digital.

Também passamos a achar normal nêgo pulando em cima do vidro do carro pra lavá-lo sem ninguém pedir, a pagar imposto sem nem mesmo conseguir destrinchar as siglas a que se referem, a assistir moças-de-família com traseiros/air-baggs avantajados se transformando em meros codinomes frutíferos…Nos acostumamos até a ver avião cair – coisa que até pouco tempo atrás era raridade – e passamos a acompanhar fielmente a cobertura esdrúxula e atrapalhada da imprensa.

Acredito que essa idéia também se aplicaria muito bem no caso das mulheres que sofrem com a TPM ou às pessoas de humor duvidoso, os famosos “de lua”. Manja? Nêgo que canta um dia inteiro na sua orelha feito um passarinho e no dia seguinte te fuzila com apenas um olhar, culpando você por um “bom dia” um pouco mais sorridente?

Tenho MUITO medo de gente assim. Tenho algumas pessoas desse tipo no meu caminho e não acho nada fácil conviver com tanto destempero. Prefiro os totalmente blasés ou os totalmente alegrões, sério. Ou, melhor ainda, os simplesmente normais, com variações compreensíveis de humor. Isso é até saudável.

Achei a idéia tão boa que acabei resgatando lá no meu depositório de pensamentos inúteis um outro insight maravilhoso que tive uma vez: o rodízio humano. Se uma vez por semana o carro tem que ficar na garagem, pelo bem do planeta e do trânsito, porque nós não paramos também, pelo fim do velho problema da falta de tempo?

Fim de semana não conta, eu falo é de dia útil mesmo. Não seria maravilhoso ter tempo para resolver tudo quanto é pendenga chata e usar o sábado e o domingo SÓ para descansar? No fundo acho quo plano do Barbudo era esse mesmo, proporcionar dois dias de alegria pra galera depois de cinco na lida. Porém, trabalhando 60 horas por semana ninguém consegue sequer ligar pra marcar um dentista.

Seria o máximo poder passar por consultas médicas em qualquer horário do dia, sem obrigar-se a abrir o consultório e ver a recepcionista, mau-humorada, sintonizar a Alpha FM e ligar a cafeteira. Também evitaríamos a fila do banco que bomba na hora do almoço, momento em que todos o pobres assalariados conferem seus saldos e pagam suas contas. E o que dizer sobre poder xingar, no aconchego do seu lar, aquela atendente da Claro/Vivo/Tim que te liga pra oferecer serviços inúteis bem na hora que seu chefe está do seu lado?

Os shoppings seriam menos lotados; as promoções relâmpagos de super-mercados muito melhor aproveitadas; as recepcionistas, em geral, seriam menos estressadas e eu faria mão e pé no salão toda semana – aproveitando o desconto oferecido em dias de menor movimento.

Mas o maior ganho com tudo isso, sem sombra de dúvidas, seria a melhora do humor da galera. Aquela pessoa “de lua” que convive com você poderia escolher o dia de rodízio para afogar o ganso, ir almoçar com as amigas ou ficar de bobeira assistindo o “Vale a pena ver de novo”. Ela recarregaria as energias e voltaria no dia seguinte para o trabalho feliz e contente.

Até agora só vi vantagens nessa minha idéia. Só não sei como poderia ser operacionalizada, se pelo ano de nascimento, pelo final do número de identidade ou pela cor do cabelo. Só sei que se a opção fosse livre, eu optaria pela quarta.

Começaria meu dia na feira, onde compraria frutas e comeria um delicioso e enorme pastel. Passaria o dia resolvendo coisas e voltaria à labuta no dia seguinte, com um baita sorrisão. Ao me deparar com gente estressada, eu encheria a boca para dizer “Nem vem que não tem”, no sentido amplo da frase. O mau humor alheio me influenciaria menos, afinal, eu dedicaria mais tempo a mim mesma do que agüentando cara feia.

Enquanto minha idéia não vira, o jeito é aprender se ausentar, mesmo que mentalmente, do convívio de gente feia, boba e chata. Agora, quando a galera aderir de vez ao rodízio humano, aí poderemos pensar em campanhas muito mais ousadas, como “não ao cartão de ponto”, “fim do crachá”, “abaixo à ditadura dos horários”, “queimem os terninhos oriundos da José Paulino”, etc.  Mas isso é muito Google, muito 2050.

Até lá, vou tocando minha louca rotina diária, tentado extrair deste modelinho retrô e sem graça momentos de alegria com aqueles que, para mim, definitivamente são insubstituíveis.

spongebob_037

Bob Esponja, em seu dia de rodízio, resolveu caçar águas-vivas.