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Dizem que ser jornalista é a maneira mais divertida de ser pobre. Olha que tem hora que eu até concordo com essa afirmação, embora nunca tenha trabalhado em lugares muito glamourosos. No entanto, tenho a vantagem de ter uma alma deveras abobalhada, e isso me permite ter diversão frequente, intensa e, o que é melhor – de graça.
Comecei a pensar nisso após passar uma quarta-feira fria e chuvosa fazendo uma matéria sobre o Metrô de São Paulo, transitando entre inúmeras estações durante um dia inteiro. Foi uma experiência cansativa e, ao mesmo tempo, muito inusitada. Primeiro porque voltei a ser criança ao andar na cabine do metrô – e dos novos! – junto com a ‘maquinista’ e com a videorepórter que me acompanhava. Coloco ‘maquinista’ entre aspas pois pelo visto ela está muito mais pra piloto do que pra qualquer outra coisa, comandando vários botões coloridos diante de quatro piscantes e modernosas touch screens.
Ouvi muitas histórias, conversei com funcionários, observei a rotina diária de algumas estações de metrô de uma forma que, na pele de usuária apressada, nunca antes havia percebido. Mas uma coisa é certa: sempre fui fã assumida do metrô de São Paulo. Sinto-me orgulhosa por saber que, em meio a tanto caos, desordem e reclamação, alguma coisa na capital paulista possa funcionar tão bem quanto nos países europeus.
Antes que eu seja xingada publicamente, devo avisar que não estou fechando os olhos para o problema da superlotação. O fato é que, apesar deste gigantesco problema – as 3,3 milhões de pessoas que diariamente provam seu amor ao metrô de SP –, o trem funciona. Com uma exceção aqui outra acolá, as estações e vagões estão sempre limpos, com a manutenção em ordem e funcionários sempre muito bem informados e dispostos a ajudar. Apesar de sempre estar atenta a estes detalhes, a oportunidade de visitar os bastidores me fez crer ainda mais na eficácia do serviço.
Depois de muito ouvir e observar, visitei a área que mais me chamou atenção: a seção de “Achados e Perdidos”. Por ter gostado tanto de pisar naquele lugar, descreverei a cena com detalhes. Trata-se de uma sala pequena, divida por biombos, localizada na estação Sé. Ao entrar, me deparei com pilhas e pilhas de malotes, daqueles verde-escuro, que cercavam a única funcionária presente no local naquele horário. Era uma verdadeira trincheira de malotes, interrompidas apenas pelos armários acinzentados no melhor estilo repartição pública.
Apesar da aparência bagunçada, o clima no local era muito amistoso e, ao cruzar uma pequena porta que dividia a sala principal do depósito de coisas perdidas, vi que de desorganizado aquilo ali não tinha nada. Trata-se de um corretor estreito, com armários cuidadosamente categorizados por “coisas”.
Sendo assim, existem gavetas específicas para objetos como celulares, documentos, carteiras, dinheiro (?!?) e chaves, por exemplo. Dou um sorriso instantâneo quando vejo um exército de bichinhos de pelúcia amontoados, ao lado de cor-de-rosas mochilinhas infantis. Logo à frente, está uma CPU bem amarelada, além muitas blusas de frio e malas inteiras esquecidas.
A quantidade de coisas não me surpreendeu, afinal, todos os objetos achados nos vagões ou estações do metrô vêm diretamente para esta central. Mas depois de alguns minutos imersa naquela atmosfera de objetos cuidadosamente aglomerados, fiquei bem curiosa pra conhecer algumas histórias sobre aquele lugar. Afinal, imagine o bocado de situações que um funcionário tem pra contar? De pessoas que perderam objetos importantes, de valor emocional, e depois os reencontraram? Ou se sentiram aliviados por encontrar sua carteira cheia de documentos, ou com o último salário recebido…e intacto? Fiquei imaginando mil coisas e não demorou muito para que eu partisse para cima da funcionária.
Recebi um cartão vermelho do assessor de imprensa que me acompanhava, pois, como em toda grande empresa, utilizar um depoimento ou imagem de um funcionário desencadeia uma avalanche de autorizações. Eu compreendo a burocracia, e, com sorte, o assessor era um cara muito gente boa. Se prontificou ele mesmo a me contar umas histórias, como dos objetos mais estranhos já encontrados na opinião dele: um fogão e um vestido de noiva.
Contou também a história da velhinha que veio visitar a filha em São Paulo e ao ir embora, levava os exatos R$ 470 para pagar a passagem. A carteira recheada foi encontrada em uma estação, ela estava em outra, um funcionário resolveu anunciar pra geral. A velhinha recuperou a carteira, o funcionário virou herói, o causo virou notícia no Diário de São Paulo e, de quebra, o assessor de imprensa também ficou satisfeito com o “furo” com o qual presenteou a imprensa naquele dia.
Mesmo sem poder falar comigo, a funcionária que observa eu anotando, nervosamente, tudo o que via, fez questão de me mostrar a forma como tudo era limpo e organizado. Os objetos pequenos são armazenados em saquinhos. Os que trazem o endereço, são postados para os seus donos. E os guarda-chuvas, que naquele dia chuvoso marcaram presença, ocuparam todos os espacinhos do chão. “Eu coloco aqui para que eles sequem antes de ensacar”, contou-me, orgulhosa.
Fiquei feliz por conhecer pessoas que fazem seu trabalho com amor, apenas por acreditar no que fazem. A funcionária do “Achados e Perdidos” foi o exemplo mais ilustrativo que encontrei, mas ao longo do dia me deparei com vários deles. O assessor de imprensa, a maquinista, o jovem cidadão que cuidadosamente conduzia uma deficiente visual pelo piso tátil.
Foi um presente que recebi após um período tão escasso de exemplos como estes. Ando cansada de gente que se arrasta através de suas infelizes escolhas, que se contenta com rotinas medíocres e fazem disso um inferno coletivo, cuspindo cansaço e desgosto na cara de quem não tem nada a ver com tanta amargura.
Conversar com gente feliz e satisfeita me fez lembrar que é possível ser uma pessoa otimista acima de qualquer coisa. E acreditar que, embora perder seja inevitável, achar ainda é a opção mais bonita.

Estação Sumaré, a minha preferida. =)

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