Na semana passada assisti a três filmes que, de diferentes maneiras, tratam de uma temática em comum: e exclusão social. Comecei com “Um sonho possível”, que fez com que finalmente Sandra Bullock ganhasse uma estatueta pra chamar de sua; passei por “Preciosa”, com a estreante Gabourey Sidibe; e terminei na pré-estreia de “Sonhos roubados”, de Sandra Werneck, que chega aos cinemas na próxima sexta-feira (23).
Usei o “rótulo” da exclusão social simplesmente para criar um elo entre as histórias, uma vez que, nos três casos, os protagonistas foram por algum motivo colocados à margem da sociedade. E essa também é a razão pela qual os três roteiros também falem muito sobre esperança, sobre a busca por um final feliz.
Diante das duas produções festejadas no Oscar, e uma brasileira, a que mais me tocou foi justamente a delicada história contada pela jornalista Eliane Trindade, em “Sonhos roubados”. Foi ela quem começou a escrever sobre prostituição de adolescentes para uma reportagem especial, sem maiores pretensões. Frente à dimensão do problema e à riqueza das histórias, resolveu engrossar o caldo e publicar o livro “As meninas da esquina – Diários dos sonhos, dores e aventuras de seis adolescentes do Brasil”, que inspirou Sandra Werneck a levar a trama para o mundo cinematográfico.
Foto: Divulgação/Vantoem Pereira Jr.
O filme é incrível, verdadeiro, sensível. Ao final da sessão, houve um debate aberto organizado pela Folha de São Paulo, com a autora do livro e a diretora do filme, o que tornou aquela noite ainda mais interessante. Entre perguntas sobre a seleção do elenco e as dificuldades em torno da produção, um comentário em particular me chamou atenção. Um moço levantou a mão, se apresentou, elogiou o filme mas fez questão de impor uma ressalva: não tinha concordado com o desfecho que, segundo ele, não ficou muito claro.
Posso estar enganada mas entendi a observação como uma ânsia pelo final feliz, aquela coisinha meiga e reconfortante que a gente fica esperando inconscientemente. Aquele momento que põe um sorriso no nosso rosto e vibramos como se fôssemos amigas íntimas daquela linda mulher, a prostituta que passou por um up grade e migrou das ruas pro cangote cheiroso de um Richard Gere lindo, bom de cama, sem preconceitos e, ora pois pois, milonário.
Alguns minutos depois, eu mesma resolvi levantar a mão e fazer uma pergunta pra autora do livro. Queria saber qual era o objetivo dela quando começou a escrevê-lo, sem considerar que ele pudesse virar um filme e ter um repercussão muito maior. Que tipo de impacto social ela quis gerar? Então ela me surpreendeu com a resposta mais simples e honesta possível: eu só queria contar uma boa história.
E, ainda que sem perceber, acho que ela acabou respondendo a pergunta do colega a algumas fileiras à frente da minha. Porque se tem uma coisa que é certa, é que a histórias de Jéssica (Nanda Costa), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias) são excelentes. Elas são adolescentes inseparáveis, vivem em uma comunidade carioca e encontram na prostituição um meio de sobrevivência.
A despeito da dureza de ter que vender um corpo recém-descoberto, elas levam a vida com a leveza comum à adolescência. Vão ao baile funk, tomam cerveja, paqueram, pintam o cabelo e as unhas com cores berrantes, tomam sol na laje, vão à praia, dançam, sonham. E apesar da realidade difícil, penso que não tinha que ser diferente…acho que seria hipócrita se o roteiro as colocasse no papel de vítima.
Eu digo isso porque acho que o preconceito com quem é socialmente menos favorecido às vezes é tão sutil que quase se passa por boa vontade. Querer um final feliz para uma garota que se prostitui é partir do pressuposto que a vida dela é uma bosta e que se ela continuar assim não vai conseguir nada além de doenças, traumas e uma penca de filhos de pais diferentes/desconhecidos.
Então bora se colocar um pouquinho na pele dessa garota? E se ela resolveu acreditar que, dentro da realidade em que vive, se prostituir foi o melhor caminho? Pra mim, que tive casa, família e educação, fica muito fácil nunca ter considerado a hipótese de virar puta pra pôr comida em casa.
Essa visão se tornou ainda mais clara pra mim quando fiz meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, um livro-reportagem sobre meninas da antiga Febem, atual Fundação Casa (daí eu ter gostado taaanto de Sonhos Roubados…tive um dejavú por segundo assistindo o filme <3).
Dentro da Febem elas tinham de tudo: curso de cabeleireiro, crochê, informática, dança do ventre…agora pergunta o que elas queriam MESMO? Elas queriam a sua liberdade pra voltar pra suas vidas, suas comunidades, seus namorados, ainda que eles fossem bandidos ou traficantes (fato na maioria das histórias).
Não estou defendendo o tráfico, nem a prostituição, nem o mundo do crime. Só que não dá pra achar que essas pessoas têm a obrigação de querer outro tipo de vida. Afinal, o mundo é injusto e, infelizmente, as oportunidades não são as mesmas no momento da largada.
Este tipo de preconceito velado ao qual me refiro é o mesmo (e este me irrita ainda mais) que limita as pessoas de acordo com a sua condição social, credo, cor. Gente que vê o sucesso de um pobre/preto/mulher/deficiente físico _______ (insira aqui sua minoria preferida) com espanto, como estivesse diante de uma aberração. Ou, pior, olha com fofisse, como se estivesse vendo um animalzinho na gaiola.
Tenho vontade de perguntar: JURA que você acha que essa pessoa é anormal por ter se dado bem na vida? Gente, qualquer ser humano é capaz de qualquer coisa e só depende da própria força de vontade. Por isso, despir-se de preconceitos requer um olhar muito mais apurado das coisas. É o famoso “o buraco é mais embaixo”.
Em meio a toda essa reflexão que me acompanhou durante a semana, em torno dos três filmes, fui sugada pela realidade de duas situações cotidianas e muito incômodas. Minha irmã foi assaltada duas vezes em um período de 15 dias. Da primeira vez, três meninos que aparentavam não mais do que 12 anos de idade mostraram o revolver e levaram tudo o que ela tinha naquele momento, voltando do trabalho em um puta trânsito de véspera de feriado – carro, bolsa, celular, carteira, documentos.
Da segunda, outro molequinho, em um farol movimentado perto do metrô Vila Mariana, enconstou na janela do carro portando uma faca enferrujada: “Eu só quero o celular”, disse ele. Esse ela conseguiu enganar (já profissa no esquema, rs), dizendo que estava sem, e ele se contentou com o relógio no pulso esquerdo, adquirido na 25 de março e com a bateria capengando.
Invasão, pânico e rancor são alguns dos adjetivos que podem traduzir o que eu e minha família sentimos, e ela, mais ainda. Ou então também podemos traduzir essas duas cenas como “fruto da exclusão social”. É aquele velho ciclo sem fim, do menino que não tem pai, nunca pisou na escola, a mãe sabe Deus onde está, então ele cheira cola pra passar a fome e o frio…e assalta pra ter o que comer.
É um discurso muito poético e eu acho que só consigo realmente descrevê-lo porque, acima dos prejuízos materiais – que a gente conquista novamente – a integridade física da minha irmã foi preservada. Talvez eu não sustentasse essa ideia se a situação tivesse sido mais drástica.
Prefiro afastar estes pensamentos e me apegar ao final feliz. Do primeiro assalto, o carro foi recuperado, a vida voltou ao normal. No segundo, eu estava comemorando meu aniversário, rodeada de amigos queridos, que fizeram o possível para eu entender que essa foi só uma mensagem do universo pra ela, e não uma nuvem negra que se instalou e não vai passar. E a vida seguiu de novo.
Ela está um pouco traumatizada, mas acredita fortemente que, se passou por dois assaltos ilesa, definitivamente ela é uma menina de sorte. E é assim, em busca de finais felizes diários, que a gente toca nossa vida. Não dá pra achar que sem uma carreira de sucesso, uma família doriana e um carro blindado não vamos viver uma vida memorável.
Ontem eu estava assistindo a um programa e em um determinado momento a apresentadora falou uma coisa que fez muito sentido pra mim. Normalmente quando somos mais jovens nos damos ao luxo de nos deprimir, porque, inconscientemente, entendemos que temos tempo pra gastar e resolver nossas angústias. Com o passar dos anos, o espaço dedicado à tristeza e ao recolhimento tem hora certa pra começar e acabar, afinal, não há tempo a perder.
É essa mensagem que “Sonhos roubados” me deixou. As meninas na verdade são novas só na idade. Já viveram muito pra se permitirem sofrer. Então, enquanto dependem da prostituição pra sobreviver, preferem se divertir um pouco já que a vida não tá fácil. Uma lição e tanto, principalmente pra aqueles que são cercados de oportunidades e, mesmo assim, não vivem o hoje pensando no amanhã. Preferem se sujeitar a uma rotina marromeno em nome do dia em que finalmente comprarem um carro incrível, uma cobertura em uma região nobre, um sonho. Que roubada!
As meninas do filme, na minha opinião, não tiveram seus sonhos roubados, simplesmente porque elas não vivem de sonhos, e sim, de pura realidade. E se a realidade é agora, o sonho ideal é viver a vida como qualquer adolescente a encara, independente do filme que protagonizam – com alegria, leveza e bom humor.
Life is…precious.


6 comentários
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abril 20, 2010 às 1:41 pm
Anderson
Ráaaa, hoje eu sou o primeiro! hihihihih
Lembrei das palavras de Lennon em “Imagine”;
Lembrei das palavras de Augusto Cury: “Os sonhos regam a existência com sentido”; “A maior genialidade não é aquela que vem da carga genéti
ca nem a que é produzida pela cultura acadêmica, mas a que éconstruída nos vales dos medos, no deserto das dificuldades, nos invernos da existência, no mercado dos desafios.”
Lembrei da relatividade de Einstein;
Lembrei do Hedonismo e do Epicurismo;
Lembrei da Bíblia;
Lembrei da vida.
Seu texto remete meu imaginário a vários mundos. Mundos reais que outrora fizeram parte apenas das abstratividades da mente de alguém. Isso revela a qualidade do conteúdo! Parabéns pela arte!
Obrigado pelo café da mãnhã – uma deliciosa sopa de letrinhas!!!
bjks, bjks
abril 20, 2010 às 3:09 pm
Thais
Olha! Até fui citada no texto!
E qto a essa parte o estranho é eu não ficar indignada com o fato de um mlk me assaltar, justamente pq acompanhei todo o processo do seu tcc e entendi perfeitamente o fato de o buraco ser bem mais embaixo e hj msm depois de ter sofrido dois assaltos, não sinto raiva dos meninos que me assaltaram e sim da sociedade em que vivemos… onde ngm se importa em dar futuro pras essas crianças… isso é clichê, e nem eu faço algo pra mudar! mas até qdo, né?!
Adorei o texto, ainda mais por ter a msm opinião sobre tudo e sobre o filme. Que realmente trata o assunto de uma maneira especial!
E chega q eu já escrevi um texto, né?! rs
bjubju
te amo!
abril 20, 2010 às 7:24 pm
dicademulherzinha
Que difícil. Gostei muito do que vc disse, nos faz pesar e pensar sobre muitas coisas. Na verdade, no fim de tanto pesar e pensar, continuo confusa. Há duas semanas que casas são assaltadas diariamente na minha rua. Me preocupo muito com a segurança da minha família. Sinto medo toda vez que desço do ônibus, sigo em passos rápidos até o portão de casa já com a chave na mão e gelo a espinha toda vez que alguém estranho cruza meu caminho! Tenho tido pesadelos noite sim, noite não. Mas, estranhamente, eu consigo ver mais ou menos o lado, a circunstância de quem me mete medo. Não me compadeço, veja bem, mas reconheço algumas coisas. Nem por isso acho que não ter oportunidade justifica atentar terceiros, nos tomar aquilo que batalharam pra conseguir etc. Por mais que tentemos mudar e conseguir um final feliz, seguimos na silenciosa tensão… sei lá.
abril 22, 2010 às 5:41 pm
Gean
Passeando pelos links da vida cheguei até teu espaço. Fiquei muito feliz com o que eu li e compartilho de tua opinião.
Posso fazer um adendo? De certa forma somos meio acomodados e só resolvemos fazer alguma coisa quando algo nos afeta. Quando um ente querido é assassinado ou está com uma doença grave, aí decidimos criar uma ONG ou voluntariar ou ser mais ativo.
E assumo o mea culpa. Já vivo há 7 anos no Canadá e tenho visto as coisas por um outro ângulo, que só vi aqui. Começei a fazer trabalho voluntariado, sou uma pessoa muito mais consciente e dou valor a coisas simples. Ah, aprendi que o buraco é mais embaixo é realmente mais embaixo.
Também tive a sorte de assistir aos filmes da Sandra Bullock e da Gabourey Sidibe num vôo. Me fez crescer mais ainda….
Obrigado por compartilhar. Tudo de bom, sempre!
Gean
maio 8, 2010 às 12:38 pm
cris toya
é barg…
é isso aí mesmo. na grande maioria das vezes esquecemos de ver as situações por outro prisma… nos baseamos nas nossas próprias experiências e não levamos em conta a história do outro. isso dá margem para preconceitos.
simplesmente o buraco é mais em baixo.
junho 9, 2010 às 4:59 am
Lara
Meu, eu nunca tinha lido o seu about me. Morri! Mas é issae, sonhos ninguém te rouba.
E vc, só precisa correr atrás dos seus. Pq ó, tá aí!
Bjas, minha linda!