Tem dias que eu tenho plena certeza de que fiz a escolha errada, há uma década atrás, quando optei pelo jornalismo, ao invés de investir na dança. Nestes momentos, tudo que eu gostaria de fazer era me esconder na minha toca e ficar assistindo, repetidamente, aos meus dois filmes preferidos ever – Flashdance e Dirty Dancing. Muito provavelmente, eu choraria nas mesmas cenas em que choro sempre, independente do fato de ter assistido a ambos mais de duzentas vezes.

Pra muita gente estes dois filmes podem parecer apenas mais duas porcarias clichezentas dos anos 80, mas pra mim eles dizem muita coisa. Nem vou ficar aqui explicando a minha história dramática de amor com a dança, pois isso renderia um livro. Acredito que, assim como a música, o gosto por filmes é algo muito pessoal. Uma história pode me tocar profundamente, mesmo sendo simples, enquanto, para outra pessoa, esse mesmo roteiro pode soar raso, banal ou simplesmente sem graça.

No caso, além do fato de reconhecer semelhanças entre algumas cenas e a minha própria trajetória na dança, eu também costumo fazer, inconscientemente, o paralelo de certas situações com a vida real.

Por exemplo, no Dirty Dancing, a cena que mais me emociona é aquela em que Baby e Johnny dançam ao som de “Hungry Eyes”. Para mim ela é muito emblemática porque é o momento em que Baby, de fato, se sente parte daquela coisa, se sente essencial no processo.

Recomendo que quem estiver lendo assista a cena, mas vou fazer um breve contexto pra quem não sabe do que eu estou falando (duvido que alguém não tenha assistido a esse filme, ele é um cláaassico da Sessão da Tarde). Baby é uma menina ingênua que vai passar as férias com a família em uma colônia. Ela é do tipo que chama mais a atenção pela inteligência do que pela beleza, porém, tem uma sensualidade escondida ali que nem ela reconhecia.

Em um dado momento, ela topa com nada mais nada menos do que Patrick Swayze (Johnny), no auge da sua virilidade, rs, lindo, sedutor, inacessível e, o melhor, exímio bailarino. Ele é o astro principal de um grupo que se apresenta diariamente no local. É claro que ela quer fazer parte daquela turma, que vara a noite dançando loucamente enquanto o resto da pousada descansa no silêncio careta dos seus chalézinhos.

Enfim, não quero fazer uma resenha do filme, até porque, né?!? Ele tem mais de VINTE anos e já foi visto por metade da população mundial, rs. A questão é que ela começa a se envolver com o grupo de dançarinos de brincadeira e, de repente, se torna uma peça importante nesse grupinho. A bailarina principal – Penny – engravida e Baby se vê como a única alternativa de substituição.

E eis que vamos para a cena que eu citei lá em cima (finalmente!!!). Johnny é um professor exigente, e não dá moleza pra coitadinha que por enquanto só está encantanda com a dança. Até esse momento do filme, Penny olhava para Baby com desprezo, como se fosse apenas mais uma hóspede apaixonadinha por Jonhny. Só que nesta cena, vira-se uma chave. O trio, que até então era composto por duas estrelas e uma espectadora abobalhada, vira um time. Let’s see it.

Em uma cena de apenas três minutos, são transmitidos conceitos que toda empresa gostaria de ver em suas equipes: parceria, liderança, respeito ao espaço do próximo, confiança no outro, persistência, seriedade, e por aí vai. Esse é um dos motivos que me faz chorar nessa cena. Será que, se eu tivesse optado pela dança, ao invés do jornalismo, eu teria mais acesso a cenas deste tipo?

Lógico que o filme prioriza o lado romântico da coisa, porém, a minha própria experiência na dança me diz que a arte requer este conjunto de habilidades para que um espetáculo dê certo. E eu vivi isso intensamente, ainda que nunca tenha atuado profissionalmente como bailarina.

Enquanto isso, no mundo da comunicação, muitos comportamentos recorrentes me tiram a energia aos poucos. Certamente, em TODO segmento existem os “ossos do ofício”, até na dança. Mas existe uma característica muito comum em pessoas da minha área que me cansa um pouco – a tal da opinião formada sobre tudo. Muitas vezes não sinto o “parar e pensar” antes de falar ou dar o próximo passo. A comunicação em excesso, o turbilhão de palavras e de informações de todos os tipos, sem filtro, é algo estressante.

Ao final do dia, sinto que na minha cabeça há um emaranhado de balõezinhos com frases feitas e “de impacto” que chegam a mim a todo momento, seja pessoalmente, no Twitter, nos programas de tevê.

Na dança, por outro lado, existe esse lance da concentração, respiração e equilíbrio individual e é só a partir disso que funcionam as duplas, trios, grupos. É disso que eu sinto falta. Dessa respirada das pessoas antes de tornarem públicos seus duros e inflexíveis posicionamentos. That’s sucks.

E olha, eu falo muito, até com as árvores e cachorros na rua. Mas preciso destes momentos de silêncio porque são eles que limpam minha cabeça do excesso de informação e aguçam meus sentidos para reparar nos detalhes do dia a dia. Só assim é possível tentar fazer de uma matéria trivial algo um pouquinho diferente, um pouco mais minimalista.

Acho que ter opiniões é muito rico mas mais rico ainda é saber a hora de compartilhá-las. É de uma sensibilidade muito bonita saber detectar quem está a fim de ouvir. No entanto, não gostaria que esse texto fosse entendido como uma crítica a esse comportamento, e sim, como um desabafo de alguém que está cansada, nada mais do que isso.

Até porque acredito que essa é uma questão de postura mesmo e, quanto a isso, cada um tem o direito de exercer a sua. Ou, talvez, eu esteja na área errada mesmo. O fato é que eu sempre fui muito comunicativa, desde muito pequenininha, mas ainda assim sou do tipo que prefere observar antes de me expor. No Twitter, sou mais de ler do que de falar. No Facebook, sou mais de ver fotos do que postar.

Em uma discussão acalorada, prefiro ouvir mais de um ponto de vista antes de disparar o que eu acho. Em uma entrevista, gosto de ter tempo pro contexto, pra entender a forma como a pessoa se expressa, o que a fez chegar onde está, e pra onde ela quer ir. É disso que eu gosto, de lidar com comportamento humano, identificar personagens interessantes, descobrir histórias de vida. Geralmente as mais simples são as que reservam as maiores riquezas.

Isso é o que me move e o que resolve minhas aflições quando acho que fiz a opção errada. Certamente, as nossas escolhas dizem muito sobre o que somos e é por isso que questiono constantemente as que fiz. Acho que isso faz parte da vida, não dá pra ser rosas e aplausos o tempo todo. Não teria graça nenhuma desencarnar em uma vidinha linear e quadrada.

A primeira entrevista que fiz na vida foi para um trabalho da faculdade, na qual eu poderia escolher uma personalidade qualquer e traçar um perfil. Como não sou boba nem nada, vi ali uma oportunidade de realizar um sonho antigo – me aproximar do Balé da Cidade de São Paulo, o primeiro grupo que assisti no teatro e um dos que eu mais gosto até hoje.

Escolhi a bailarina que eu mais admiro no grupo, Érica Ishimaru, uma japinha de pouco mais de um metro e meio mas que, no palco, é uma gigante. Aquele dia pra mim vai ficar guardado pra sempre, porque representa a primeira vitória que conquistei na minha área, com poucos meses de curso. Eu consegui a entrevista, ela foi muito receptiva e ainda me convidou para assistir a um ensaio! Fofa! <3

Eu não me cabia de tanta emoção, do auge dos meus 18 anos de idade. Portando meu gravadorzinho recém-comprado, desci a 23 de maio com o coração palpitando e fazendo uma imagem mental do que eu veria nos próximos minutos.

Aconteceu do jeitinho que eu esperava. Sentada no chão, eu não conseguia nem piscar. Mal podia acreditar que estava vendo de perto todas aquelas sapatilhas gastas. Eu estava tão perto dos bailarinos que podia ver cada contração dos músculos, ouvir o barulho do impacto que cada movimento causava ao pobre assoalho, a respiração, o toque, a expressão de desgosto com os erros, as comemorações vibrantes pelos pequenos acertos.

Para mim, este foi o primeiro exemplo de que observar e sentir o contexto de qualquer situação é algo muito enriquecedor. Hoje consigo perceber que, com relação à entrevista em si, não tive grandes inseguranças. Não fiquei com medo de cometer gafes – eu dominava o assunto – tampouco de gagejar na frente da entrevistada. Aconteceu de forma tão natural que tive a impressão de ter nascido praquilo. E na verdade eu fiz aquela entrevista pra mim, não pra faculdade, nem pra história do jornalismo, rs. Acho que é isso que procuro diariamente, na verdade.

Trabalhar na área de comunicação me trouxe e ainda traz muitas incertezas, estresse e dores no estômago, mas também muita experiência, sensibilidade, malícia e olhar apurado. A comunicação é uma eterna dança, na verdade. Escolhendo os parceiros certos, dá pra sair um bom baile.

Por outro lado, a dança também é comunicação: a do corpo. Dois corpos que se entendem sem precisar de palavras, apenas com a condução correta de movimentos. Não existe nada mais bonito do que isso, na minha opinião. Um diálogo que poupa palavras e se mostra por meio do toque, do olhar, da energia que pulsa e leva ao próximo passo.

Tem dias que, de fato, me sinto isolada e sozinha em um canto, enquanto o resto das pessoas está bebendo, falando e dando risada, como na clássica cena deste mesmo filme – “Nobody puts baby in a corner”. No entanto, prefiro acreditar que, no final das contas, vou ouvir essa frase e seguir dançando com um sorriso no rosto e a certeza de que a dança da comunicação ainda vale a pena.

Don’t be afraid to lose control