Diversidade é uma palavra bonitinha e super in, mas até que ponto estamos abertos à experiências que fogem da nossa rotina, do nosso círculo de amizades ou da forma como enxergamos o mundo? Essa é uma pergunta que eu me faço constantemente, porque me considero uma pessoa desapegada de opiniões irredutíveis, porém, apegada a outras coisas: minha cidade, minha família, meu grupo de amigos.
Pensei nisso voltando da cobertura de um evento em Campo Limpo. Opa, pera aí, você disse Campo Limpo? Ow, yeah, baby. Começa por aí. Não quero fazer a Rita Lee e ficar criticando quem mora em Itaquera, mas sim, Campo Limpo é muito longe pra uma caipira como eu, que mora na zona oeste de SP e continua indo ao mercado, farmácia e perfumaria de São Caetano do Sul, minha bonitinha e florida cidade natal. <3
Mas não é do apego à São Caetano que eu quero falar, até porque não quero me desapegar de lá, rs. Me deixa! Este post na verdade é sobre a alegria de fazer coisas diferentes da rotina e descobrir riquezas que estão aí, na nossa cara, pelo mundão. Quero falar que é muito bom sairmos da comodidade dos nossos escritoriozinhos, do egocentrismo dos nossos próprios projetos, e olharmos pra fora, porque são essas saidinhas que nos fazem, de fato, ter acesso à diversidade de pontos de vista sobre um mesmo assunto.
Às vezes não percebemos o quanto passamos 99% do tempo completamente focados na nossa rotina, acreditando que dela depende a paz mundial. Sei que, para muitas pessoas, falta motivação externa para fazer este tipo de coisa (chefes apegados à cartão de ponto, metas, prazos) e sobra motivação interna para mostrar que este tipo de “perda de tempo” não necessariamente é uma perda.
Uma das poucas vantagens de ser jornalista é ter este acesso a realidades diversas, e, na verdade, é uma das coisas que mais me atraem na profissão. E é por isso que eu quero contar a experiência de um dia produtivo, vivido na semana passada.
Participei da coletiva de imprensa que apresentou uma pesquisa feita com 400 adolescentes de todo o Brasil, que buscava identificar como as TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) influenciam na vida de meninas e meninos brasileiros. Dessa forma, buscava-se também descobrir e apontar os riscos que emergiram após a avalanche tecnológica que só tende a crescer – afinal, hoje, se você não sabe lidar com um iPad, desista – you are old!
A pesquisa é parte da publicação internacional “Fronteiras Digitais e Urbanas: Meninas em um ambiente em transformação” (“Digital and Urban Frontiers: Girls in a Changing Landscape”) e o evento foi realizado na Ong Obra do Berço, uma das parceiras neste projeto.
Era um dia normal por lá: dentistas tratando de dentes de crianças, merendeiras preparando o cachorro quente que seria servido depois do evento, faxineiros dando um trato no local. Fazia um sol bonito, que ressaltava ainda mais o colorido das paredes, o verde da grama, os desenhos e quadros espalhados, as cortinas esvoaçantes. A coletiva foi numa sala de aula minúscula, onde concentravam-se jornalistas, profissionais, crianças e adolescentes envolvidos com o estudo.
Alguns pontos me chamaram a atenção nesta experiência. Primeiro, alguns highlights interessantes, pra gente refletir: 79% das meninas disseram que não se sentiam seguras online, e, no entanto, quase 50% disseram que gostariam de encontrar pessoalmente alguém que tenham conhecido via web.
Obviamente é preciso olhar de forma critica pra estes números, afinal, pesquisas podem ser lidas com diferentes viéses. Mas é inegável que isso reflete muito sobre os problemas sociais que o Brasil enfrenta na questão da educação: como os pais e professores digerem essa merenda? Inclusive, uma das constatações do estudo é que os próprios adolescentes demonstram QUERER limites, ou seja, anseiam por liberdade de expressão mas, ao mesmo tempo, querem a proteção dos pais.
Achei legal também saber que, tanto as meninas quanto os meninos acreditam que o sexo feminino está mais vulnerável à violência. Isso pode ser explicado também no mundo offline: as mulheres estão mais expostas à violência, de um modo geral e historicamente falando. Em um bate-papo com a psicóloga que acompanhou a pesquisa, chegamos até a um consenso sobre o quanto a auto-estima feminina está impregnada nesta questão. Sabe aquela coisinha de querer ser aceita? Que pode ser interpretada como querer ser popular…ter mais amigos no Orkut…e aceitar “amigos” desconhecidos na rede, ampliando assim seu número de contatos – e riscos.
Outra riqueza do estudo – que, por outro lado, pode dificultar a leitura de alguns dados – é que foram ouvidas diversas classes sociais. Isso mostra o quanto o mesmo problema, em um mesmo país, pode ter diferentes nuances.
Nas entrevistas que eu fiz deu pra sentir um pouco disso. Uma das possíveis leituras dessa problemática é que a forma como a Internet é interpretada pode variar de acordo com a classe social. O jovem que vive em uma comunidade mais carente, por exemplo, pode encarar a Internet apenas como uma alternativa de diversão e, dependendo da comunidade, estar dentro de uma lan house é mil vezes mais seguro do que circular pela rua.
Já nas classes mais favorecidas existem um milhão de outras opções de lazer, sendo que a web é só mais uma. Além disso, existe uma demanda maior por parte das próprias escolas particulares em solicitar o uso da Internet como recurso para pesquisas escolares, a partir da ideia pré-concebida que este aluno tem um computador em casa. Compricado, não?
Ainda não tive tempo para ler o estudo inteiro e quero deixar claro que este é APENAS um recorte, vindo de uma das pessoas que eu entrevistei, ou seja, não existe preconceito, julgamento ou generalização. São apenas pontos de vista vindos de diferentes tipos de profissionais. Diversidade, minha gente, diversidade.
Tecnologia? Deixa com a gente!
O final do evento foi bem interessante. Por meio de uma videoconferência, o auditório da Ong (que estava repleto pela molecada *eufórica* atendida no local) foi conectado com o estado do Maranhão, com adolescentes que participaram da pesquisa nas cidades de Codó e São Luís.
Quem já participou de videoconferências bem sabe que, com poucos recursos, não tem como evitar o delay, a imagem que cai a todo momento, as falas sobrepostas. Confuso. Mas na verdade fazer o microfone funcionar ou ajustar a posição da câmera não era prioridade naquele momento. O mais importante, na verdade, era o encontro entre adolescentes de realidades tão diversas, e, ao mesmo tempo, tão completamente parecidos em sua essência. A faixa etária que ali se encontrava ia de 11 aos 19 anos, de todas as classes sociais.
A tensão do começo, devido à limitação tecnológica, desapareceu como um passe de mágica, no mesmo instante que o condutor da atividade largou o microfone nas mãos dos próprios adolescentes. Aí o negócio andou. É incrível como essa geração encara a Internet como algo natural. (#véia!)
A ideia é que eles fizessem perguntas uns aos outros, relacionadas ao tema da pesquisa. O que surgiu ali foram questões muito pertinentes, do tipo: “A Internet faz parte da sua vida ou é só uma diversão?”; “Vocês acessam pessoas desconhecidas no Orkut e MSN?”; “Já chegaram a se encontrar pessoalmente?”; “Você acha que o GTA, um jogo violento, influencia a sua vida?”. Quanto faro jornalístico, minha gente!!!
Neste momento, um dos parceiros internacionais, Michael Montgomery, de uma Ong canadense focada nos direitos humanos de adolescentes, me viu fazendo perguntas para algumas pessoas – eu tinha aproveitado o “fervo” para colher depoimentos. Então ele se aproximou dizendo que gostaria de saber o ponto de vista inverso: o que um jornalista brasileiro tinha achado sobre o trabalho realizado.
Achei interessante e comecei a gastar meu ingrêis sufriiido, com a ajuda fofíssima da assessora que o acompanhava (tenquiú girl!). Nesta conversa, ele contou um pouco do que viu em lugares como Tailândia, África e Timor Leste e disse que, de um modo geral, foi comprovado um comportamento omisso dos pais diante da violência virtual. É aquela coisa do “não querer enxergar”, sabe? Até porque, nos casos em que a violência é latente no mundo real, a tolerância à violência virtual também é maior.
Fechar-se para a realidade é uma forma de defesa, assim como fechar-se para o que é difícil ou diferente. Esse foi o meu aprendizado do dia amiguinhos, e só porque eu fui aberta a ouvir o que essas pessoas tinham a me dizer é que eu voltei com a sensação de que valeu a pena.
Nós, jornalistas, somos adestrados para desconfiar de tudo e de todos. Eu luto diariamente para não perder esse olhar desarmado. Não quero virar uma chata. Dia desses eu li, no prefácio de um livro, uma frase do Gilberto Dimenstein que grudou na minha mente: “Um dos critérios para medir a mediocridade de um indivíduo, qualquer indivíduo, é saber até que ponto ele vê o diferente, o inusitado, como uma ameaça ou fonte de riqueza.”
Vou lembrar dessa frase em todos os momentos em que eu me sentir ameaçada com o diferente ou acomodada com a tranquilidade da rotina. Mais do que a palavra da moda, levar “diversidade” ao pé da letra pra mim é isso – estar aberto a mudar o trajeto do trabalho, a agenda, as pessoas. Estar aberto a mudar de opinião, a ouvir opiniões. Estar pronto para reconhecer que olhar pra fora, às vezes, pode ser uma boa causa a ser abraçada.
Não vou (e nem quero, me deixa!) me desapegar das coisas que julgo importante, mas também não quero me cegar pro que está acontecendo ao meu redor – e a rotina nos escraviza neste sentido. Sei pra onde voltar, e pra quem voltar. E se eu puder viajar pra São Caetano, Tailândia ou Campo Limpo pra aprender algo novo e ver uma realidade diferente da minha, já valeu a pena ter passado por este mundão.
Do Campo Limpo para o mundo: próxima parada, Tailândia (espero que o universo ouça essa mensagem!)


3 comentários
Feed de comentários deste artigo
setembro 27, 2010 às 7:20 pm
Cris Toya
Dani, sou sua fã!
E adorei: “Um dos critérios para medir a mediocridade de um indivíduo, qualquer indivíduo, é saber até que ponto ele vê o diferente, o inusitado, como uma ameaça ou fonte de riqueza.” – Gilberto Dimenstein
setembro 29, 2010 às 5:57 pm
Greice Munhoz
Dan, que post mais lindo. Agora pasme… São Caetano foi o primeiro lugar que morei quando viemos de Porto Alegre pela primeira vez, eu tinha 5 aninhos e moramos lá por 01 ano. CAMPO LIMPO foi o terceiro lugar onde moramos, risos… é, somos nômades. Morei lá em 2 períodos distintos da minah vida, primeiro dos 08 aos 10, depois dos 12 aos 16. No mais achei sua reflexão fantástica e vou indicar pra uma amiga que é referência em Diversidade no Brasil e fez aquela pós comigo na FGV. Ah, e claro, me leve pra Tailândia cocê!
outubro 6, 2010 às 6:28 pm
Anderson
Oi Dan – an an an an an (sua personalidade faz eco nesse texto)
Adoro São Caetano. Não conheço a Tailândia, nem Campo Limpo. São próximas uma da outra? rs. E hoje, vendo o Jornal Hoje, parte da temática levantada no seu texto foi explorada em uma das matérias. Achei muito interessante. Gostaria só de deixar um abraço e reiterar minha admiração pelos seus escritos! Adorei esse também. e se vc gosta tanto de novidades, venha conhecer miha cidade. A hospedagem é “all in” e “open bar”….bora?
Grande abraço amiga querida!
Anderson