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Ele ouvia Beatles, R.E.M, Ramones. Ela ouvia Marisa. Ele ouvia Beck, White Stripes, The Smiths; e por que não Bjork? Ela ouvia Zeca Baleiro; e o Pagodinho também. Salsa. Samba. E por que não uma música sertaneja de raiz?
Eles se encontraram, nem de longe pela sintonia dos seus gostos musicais, e aprenderam a ouvir aos sons um do outro. Juntos, se revezavam entre Caetano, Orishas, Beastie Boys, Chico Buarque, Amy Winehouse, Elvis, Gotan Project, Lauryn Hill, Philip Glass, Jorge Ben, Los Hermanos, Queens of the Stonage, Cold War Kids…E tantos outros…E assim foram compondo uma trilha sonora de momentos.
Obviamente, foi um grande aprendizado. Ele deixou de ”odiar os ecléticos” e passou a não mais somar ou subtrair pontos de alguém a partir de preferências musicais. Ela, por sua vez, passou a abrir a mente para bandas que ainda não faziam parte do seu repertório e, como ele, aprendeu a ouvir mais de uma vez o mesmo som, cuidadadosamente, para poder classificá-lo como bom ou ruim.
Até que um dia ele disse pra ela: Ouve essa banda aqui! E ela gostou. Algum tempo depois, esta mesma banda tocaria em um grande parque, em Londres, onde eles viviam. Os ingressos já haviam se esgotado há tempos, uma pena, mas mesmo assim, resolveram dar uma volta por lá para tentar capturar algo, mesmo que de longe.
Logo na entrada, ouvia-se o alvoroço dos londrinos, todos com seu pint na mão, embora soubessem que teriam que dispensá-lo durante a rígida revista feita na fila de entrada. As pessoas estavam felizes, o show era especialmente aguardado por aquele público. Até mesmo o vocalista da banda, dias antes, confessou em entrevista estar excepcionalmente ansioso para este momento.
Como não podia deixar de ser, dada a localidade do evento, o show começou, pontualmente, às oito horas e quinze minutos daquela noite fria de quarta-feira. Em um típico dia de verão inglês, o sol ainda estava alto, mas a temperatura caía e o vento batia forte e gelado.
Grudados à grade que separava a fila de entrada do palco, há muitos metros de distância, e em meio a inúmeros outros na mesma situação, eles puderam ouvir a gritaria (contida, inglesa) do público quando a banda começou o primeiro som, a faixa do CD novo que estava entre as preferidas dos dois. Vibraram.
Ele divagou, em um comentário quase que infantil: Bem que alguém podia desistir de entrar no show e nos dar os ingressos”. Ela sorriu, com o coração apertado, porque sabia que esta era uma das suas bandas preferidas. Ela tinha noção do quanto entrar naquele show seria significativo para ele; mais do que para ela.
Para inaugurar o seqüência de dramas à la novela mexicana que estaria por vir, cinco minutos após o singelo comentário, um ser humano desprovido de visão de negócio iniciou o seguinte diálogo com um garoto que se encontrava exatamente ao lado dos dois:
- Do you want a ticket?
- No, man, thanks…I don’t have any money.
- But it’s for free, man.
Cinco minutos de silêncio então se fizeram, como que em respeito àquele cena tão surreal. Ele não acreditava; ela, tampouco. O sortudo, menos ainda. Mas finalmente o garoto que há um instante atrás tinha o olho perdido em busca de alguma visão do palco, entendeu que sim: ele havia sido o protagonista de um milagre – porque dentro daquele contexto aquilo só poderia ser um milagre.
Os dois então passaram a acompanhar cada ação que se seguiu: ele avançou na fila, foi revistado, mostrou o convite para o segurança, que ficou alguns instantes avaliando a procedência. Suspense. Será que era real? Sim, ele conseguiu entrar, e, em poucos, minutos passou a correr em direção ao palco, com um sorriso bobo no rosto.
Mais uma vez ela sentiu seu coração apertado: “Talvez se eu não estivesse aqui, ele poderia ter sido o escolhido do tal bom-samaritano”.
Duas músicas se seguiram e eis que uma nova tentativa de final feliz aparece em forma de uma mestiça com dois ingressos nas mãos, com voz leve e envergonhada.
- Vocês comprariam dois ingressos por 30 pounds?
Ele não tinha nada na carteira. Ela, somente 20 pounds. Considerando que dois ingressos no preço normal custariam 80 pounds, eles estariam perdendo um grande negócio se não agissem rápido.
Na agonia do momento, os minutos se passavam, e a mestiça oferecia pra um, e pra outro, e pra mais outro…ninguém que estava lá fora tinha dinheiro. Caso contrário, estariam lá dentro. A música que vinha do palco parecia tocar mais alto naquele momento, as luzes pareciam mais fortes, e até o vento tinha parado de soprar.
Então a mestiça desistiu de vender os convites e seguiu pra fila, afinal, a banda já estava na quarta música. Ela agiu rápido: “Corra e ofereça os 20 pounds pra ela…ela vai jogar no lixo dois convites”.
Ele correu, em uma última tentativa de negociação, tentou explicar para os seguranças que precisava falar com a menina que já estava com um pé dentro da arena. E eis que em uma fração de segundo ele estava com os dois ingressos na mão, brilhando, sorrindo para ele. Finalmente, ele e ela entrariam e assistiriam o show. Juntos.
“Nem acredito”, disse ele, abrindo a bolsa para ser revistada, enquanto ela, de tão eufórica, já estava alguns passos a frente. Porém, desta vez, o que impediu a entrada não foi a falta de ingressos, nem a de dinheiro. Foi a máquina fotográfica que ele trazia dentro da bolsa.
O segurança, rígido, não trocou mais do que poucas palavras com ele: “It’s not alowed here”. “Mas esta câmera não é profissional”, ele argumentava, ao que o segurança já nem mais pra ele olhava. A esta altura já estava cuidando de outro caso. Mais uma vez eles se deram conta de onde estavam: em um país onde as leis e regras são seguidas acima de tudo. Não tem jeitinho, não tem suborno, não tem molhar a mão. Não existe dó, essa é a verdade.
Ele insistiu, falou com outro segurança, explicou a situação para outro, e pra mais outro. E desistiu. Ela só ficou parada na fila, com os olhos cheios d’água. “Não acredito que ele vai perder esse show”, ela pensava. E emendou: “Entra no meu lugar. Eu fico aqui fora segurando sua bolsa”.
“Nem pensar”, ele disse, “Só vou se for com você”. E então começou mais um capítulo do dramático dia, que até às oito e quinze da noite não demostrava nada de diferente em relação aos demais.
Ele dizia que não, que não era possível viver uma experiência dessa sem ela, que não teria graça, que seria injusto. Ela respondia que não fazia sentido, que ele gostava muito mais daquela banda do que ela, que seria egoísmo se não fizesse isso por ele.
As pessoas ao redor acompanhavam o diálogo com atenção. Um rapaz que assistia toda a cena, abordou os dois e ofereceu “tudo o que tinha”, com ar de misericórida, para comprar um dos ingressos. Com um Português de Portugal arrastado, negociava aquela chance agarrado a uma penca de moedas que caçou no bolso e uma nota amassada de 5 pounds.
Ele pegou a nota, dispensou a moedas e disse, com certa inveja: “Bom show, amigo”.
Mas ainda restava um ingresso. E ela não acreditava que ele iria parar no lixo ou em um bolo de papéis em casa como “recordação”. Recordação de quê? E continuava a chorar em silêncio, enquanto ele se recusava a entrar. Ela persistia. Ele estava decidido. Ela continuou a argumentar, até apelar para a máxima que não só ela, mas todas elas, usam em uma discussão: “Faça isso por mim”, ela pediu, ainda com os olhos molhados.
Então ela tirou a bolsa do pescoço dele, delicadamente. Ele não falava nada. “Eu te espero exatamente aqui, neste ponto”. Ele continuava calado. Virou sem olhar pra trás e caminhou até o primeiro segurança.
Ela acompanhou todo o processo novamente. Ele foi revistado, deu alguns passos em direção à arena, tentou achar o rosto dela em meio as pessoas lá de fora. Com dificuldade, conseguiu a ver por um pequeno vão entre várias cabeças. Jogou um beijo apertado e saiu correndo feito criança em dia de Natal.
Ela pôde ver ele sendo engulido pela platéia. E continuou parada bem ali, conforme o combinado, no ponto em que ele a deixou. O vento voltou a soprar. Ele curtindo o show lá de dentro, pensando nela, lá fora. Ela curtindo o show lá de fora, pensando nele, lá dentro.
Uma hora se passou. E os primeiros acordes de uma das músicas preferidas dos dois começaram: “House of cards”. Ela abaixou a cabeça, fechou os olhos, e começou a cantar baixinho, tremendo de frio.
Mal pôde acreditar quando ouviu os passos dele, correndo em direção a ela e dizendo ao seu ouvido: “Eu não conseguiria ouvir essa sem você”.
E continuaram a “assistir” o show dali, passando frio juntos, dançando agarrados ao som que vinha de longe. Afinal, o que é o amor senão um eterno teste de cumplicidade?
Jun/2008
(*) Esta história é real e aconteceu ontem, no show do Radiohead.
A menina observava o grande e brilhoso quintal, em um dia quente de fevereiro. Agarrada a uma boneca suja e descabelada, ela passava horas brincando naquele ambiente, que reconhecia como palco da sua ainda pequena e simples vidinha. Enquanto isso, ao som chiado de uma rádio AM, sua mãe esfregava o chão do banheiro. Era apenas o começo do dia de faxina da mansão de uma das suas três patroas.
Joyce tinha sete anos e estava radiante, pois aquele seria o seu primeiro dia de aula. Com uma roupinha surrada e os cabelos cuidadosamente amarrados por duas marias-chiquinhas, ela contava os minutos para finalmente ir à escola. Não sabia ver as horas, mas distinguia os períodos do dia pelo cheiro que a casa exalava ao passar dos segundos. Cheiro de café era bem cedinho. Cheiro de cândida, os primeiros passos da limpeza. Cheiro de feijão cozido: hora de ir embora, para o segundo turno do dia em outro casarão que ficava a duas ruas acima daquele bairro nobre.
Diariamente às dez da manhã, Dona Monique descia para o desjejum. Essa hora tinha cheiro de suco de laranja fresco e bronzeador importado: ela não abria mão do solzinho da manhã. Alheia a toda a movimentação da casa, Joyce continuava conversando com a sua bonequinha, mas não descuidava um segundo sequer dos sinais olfativos que a sua mãe silenciosamente enviava. Joana, a essa altura, já estava atrás de uma grande pilha de roupas para passar.
Era quarta-feira, e, como de costume, este era um dia bem estressante para Bárbara, a caçula da família. Este era o dia que tomava aulas particulares de piano, a contragosto, obrigada pelo pai. Descia sempre para a sala principal aos berros, ainda de pijama e meias, como se estivesse sendo castigada pela vida. Em vão, tentava convencer a mãe: eu odeio isso! Eu odeio essa professora! Eu odeio você! Insensível às ofensas da filha, Monique buscava com irritação o telefone da manicure no seu celular, por detrás dos imensos óculos escuros Prada.
Mas o barulho que a menina fazia era tanto, que acabou despertando a atenção de Joyce. Em tempo: um delicioso cheiro de feijão cozido saía da cozinha. Tomada por uma enorme euforia, ela largou a boneca no chão e saiu ao encontro da mãe. Depois de um longo e inesperado abraço, disparou: “Mãezinha, chegou a hora!”. Com um largo sorriso, Joana abandonou delicadamente o avental sobre a mesa da cozinha e acariciou os cabelos da filha.
- Dona Monique, até amanhã. O almoço já está na mesa.
- Obrigada Jô. Tô sem fome. Essa menina me tira do sério.
Pela grande janela de vidro que separava a copa do jardim central, a patroa observava mãe e filha indo embora, unidas, dando risadas. Juntas, contavam as moedas para a próxima condução e davam instruções para a boneca descabelada, pedindo que se comportasse. Afinal de contas, era dia de estudar.
Out/2007
Atravesso a avenida lutando contra consistentes gotas de chuva e subo a grande escadaria coberta por um tapete vermelho luxuoso, porém gasto. Ao lado de uma pequena mesa que funciona como bilheteria, um amigo me aguarda e observa duas senhoras loiras, de meia idade, aparentemente preocupadas com a chapinha recém-molhada.
O salão de bailes fica em um clube poliesportivo e inspira contradição, por manter um requinte insustentável, financeiramente falando. Pago seis reais para entrar e mais um real para deixar a bolsa na chapelaria, após subir dois lances de uma escadaria esculpida em mármore. O grande saguão tem um reluzente chão branco e antecede a pista de dança, que a essa altura estava tomada por um bom e velho bolero.
Lá dentro, vejo uma pista de dança imensa, com chão impecável, abaixo de dois enormes lustres do século passado. Por alguns instantes, me sinto dentro do legítimo Titanic, mas volto à realidade quando retomo os sentidos e ouço o som vindo do palco, onde estão quatro músicos e uma cantora, uniformizados com camisa de cetim vermelha e calça preta. O fundo é revestido por um tecido preto e letras douradas que anunciam o show da noite: “Banda Premium”.
Espalhadas ao redor do salão, existem mais ou menos cem mesas de plástico branco-amareladas, ocupadas esparsamente. A iluminação é opaca, conferindo uma atmosfera aconchegante ao local. Sinto-me acolhida em meio a tantas pessoas mais velhas que eu – a faixa etária supera os 50. A maioria feminina prevalece, o que é muito comum no meio da dança. Mas os homens também estão por lá e se sentem como reis frente a tanta oferta, ávidos por usufruir a noite ao lado de uma boa parceira de dança, ou várias, obedecendo à proporção desigual.
Os figurinos vão do simples ao bizarro. Vestidos esvoaçantes, sapatos bicolores, cintos de lantejoula, colares, laquês e brilho, muito brilho. Para uma noite chuvosa de terça-feira, a pista estava surpreendentemente cheia. Noto que na ponta do palco uma senhora de longos cabelos pretos dança sozinha, com uma roupa um tanto quanto “modernosa”, saia curta jeans, meia-fina e botas pretas. Não contenho uma risada discreta, depois de conferir o modo estranho que a senhora dança, no melhor estilo “não estou nem aí mesmo”. Em seguida, um outro personagem chama minha atenção: um senhor com cabelos à la Roberto Carlos entra na dança, com um sorriso de orelha a orelha, camisa preta com grandes bolas coloridas, corrente de ouro grossa ao redor do pescoço.
Finalmente decido parar de analisar o cenário e cair na pista, animada com a seleção de “tcha-tcha-tcha” que acaba de começar. Surpreendo-me ao perceber que as tradições antigas ainda são seguidas à risca em um salão de baile: os casais dançam movendo-se em sentido horário, o que faz com que dêem constantes voltas em toda a pista, observando e sendo observados. Lembro-me, no minuto seguinte, que hábitos tradicionais seriam comuns nas próximas horas, afinal, me encontro entre pessoas na fase da terceira idade.
Vez por outra vejo dois ou três com idade próxima à minha, que não estão lá por acaso ou para se divertir. São profissionais, chamados de personal dancers, e têm como função acompanhar senhoras de idade ao baile, além de conduzi-las por quantas músicas o fôlego permitir. Essa é uma profissão nova e crescente no mundo da dança, que rende uma boa grana e garante a alegria das senhorinhas mais abastadas, que antigamente reclamavam a falta de homens nas pistas.
Entre uma seleção musical e outra, danço, tomo uma cerveja, danço mais um pouco, vigio tudo à minha volta. Entre muitas personalidades desconhecidas, ainda que muito peculiares, noto um traço comum – a auto-estima que toma conta de cada um ali presente. Todos estão felizes, em festa. Se beijam na pista. Sim, os idosos se beijam – para mim essa visão foi inédita! Nunca imaginei meus avós em um acalorado beijo de língua, por exemplo. Não se importam se estão sendo vistos. Nem tampouco se estão dançando certo, se erraram um passo, se estão sendo fiéis às técnicas da dança de salão.
Fico triste por me obrigar ir embora à meia-noite, já que no dia seguinte tenho que trabalhar. Enquanto isso, os “pés-de-valsa” presentes no local nem se lembram do relógio. Presumo que a maioria deve estar aposentada, ou realizar trabalhos leves, ou apenas ficar em casa, batendo um bolo, cuidando dos netos, assistindo programas vespertinos…
Penso que isto pode ter soado como um julgamento equivocado, visto que tantas pessoas idosas ainda sentem-se capazes e com energia suficiente para trabalhar. Mas na real foi justamente o contrário, me vi diante de pessoas felizes e cientes de que ainda conseguem extrair o melhor da vida, independente do peso da idade.
Saio do baile feliz e saltitante, sentindo a chuva levar embora o meu suor ainda quente. E com a certeza de que é dessa forma que quero envelhecer: com um sorriso no rosto e a dança no coração.
Mar/2007
Depois de um dia exaustivo, à fila do ônibus, com cara de acabada e um livro na mão, ouço uma voz interrompendo minha leitura (que às dez e meia da noite já não era muito confiável).
- Aqui passa o São Caetano, não?
- Ahã.
- Ele demora?
- Não.
Segui a leitura. Ou melhor, tentei seguir, porque, a figura feminina que acabava de falar comigo me remeteu pelo menos há uns dez anos atrás.
Tinha o cabelo curto e naturalmente loiro, preso em um pequeno rabo de cavalo. Vestida com uma bermuda social, uma regata simples, e, nos pés, um chinelo de dedos, demonstrava uma evidente despreocupação com o modo de se vestir. A bolsinha minúscula, de modelo indiano, em contraste com uma sacola florida que segurava à mão, confirmavam a total despretensão com o figurino.
A pele era levemente bronzeada e o corpo não chamava atenção – magra, do tipo que mostra os ossos das costas. Mas os olhos rasgados – e verdes – dificilmente passariam despercebidos. Os dentes brancos e perfeitos, igualmente chamativos, lhe conferiam um ar sofisticado. Uma beleza realmente rara, do tipo que é preciso olhar com atenção para desvendar seus atributos.
Após a criteriosa análise feita por detrás do livro que eu segurava a altura da testa, concluí: sim, ela foi namorada do menino que ocupou o cargo de meu amor platônico na oitava série. Durante um ano, a coitada foi meu principal alvo de antipatia, e eu a classificava, na época, como “sem graça” ou “branquela aguada”. Afinal, era eu quem deveria estar no lugar dela! Minha antipatia, por sinal, também era platônica, porque nunca troquei nem meia palavra com a garota.
Feita a avaliação física, parti para as suposições. E de repente, me vi mergulhada em um mar de perguntas comuns entre as mulheres que se sentem (ou já se sentiram) ameaçadas de alguma forma – o que na verdade é ridículo, porém, inevitável.
O que será que ela faz da vida? Será que está casada? Será bem-sucedida? Para me confortar um pouco e me salvar daquela enxurrada de dúvidas, percebi, no mesmo instante, que a curiosidade era recíproca. Observando minha concentração na leitura, rapidamente puxou da sacolinha florida um livro antigo do qual em vão tentei ler o título.
Interpretei a atitude como um: “Ei! Mais do que belos olhos verdes, também tenho intelecto.” Em seguida, começou a fazer movimentos estranhos, apertando com o polegar alguns pontos do corpo. Percebi imediatamente que ela reproduzia – sem receio por estar no meio da rua – os movimentos demonstrados nas figuras do livro, que notei, alguns minutos depois, ser sobre massagem.
Quando o ônibus chegou e eu me acomodei a uma cadeira, percebi que ela escolheu, propositalmente, sentar-se a minha frente. Que audácia! – pensei comigo – O que será que ela quer? Que eu a fique observando o caminho todo? Olhando para a sua nuca e imaginado o que ela faz da vida, além de ser linda e a pessoa que eu queria ser a alguns anos?
Ok, ela conseguiu minha atenção. Em menos de cinco minutos enumerei várias possibilidades de profissão para ela: massagista (parecia óbvio), bailarina, fisioterapeuta, hippie (por causa da bolsinha indiana), entre outras. E enquanto minha imaginação fluía, ela seguia com os movimentos sem pudor, visivelmente ciente de que eu acompanhava passo a passo seu mais novo aprendizado. Será que ela estava gostando disso? Será que se lembrou de mim – babando pro namorado dela – e está me testando?
Até que, uma conhecida que eu não via há algum tempo, sobe no ônibus e começa a conversar comigo, sobre frivolidades. Me contou que formou-se em Pedagogia e, atualmente, cursa a faculdade de Letras. Nesse momento, a audácia do meu momentâneo foco de observação atingiu o inesperado. A menina vira-se e, sem mais nem menos, entra na nossa conversa:
- Desculpe pela intromissão, mas você disse Pedagogia e…Letras? É porque são justamente os dois cursos que eu tenho interesse!
Em seguida, não disfarçando a atuação, disse, fazendo um biquinho de dúvida:
- Eu não te conheço de algum lugar?
E eu, um pouco mais sínica:
- Seu rosto realmente não me é estranho.
Era nítida a sua necessidade de descobrir mais coisas sobre a vida que levo atualmente. Na primeira oportunidade, lançou-me, com a curiosidade inflada:
- E você, faz o quê?
- Sou jornalista – disse com a boca cheia, certa de que a minha formação, naquele momento, seria uma vantagem em relação a “minha concorrente”.
Levantei-me puxando a cordinha do ônibus e me despedi das duas, ao que ela, avidamente, fincou os olhos na lombada do livro que eu segurava, em busca do título. Fui mais esperta e rapidamente guardei-o na bolsa, como que me defendendo do seu olhar ligeiro. Ela me deu uma piscadela, que eu devolvi. Certamente, nossas mentes diziam: “É óbvio que ela se lembra de mim”.
Nos reconhecemos, veladamente. Seja pela cara, seja pela competição desatada que nos ligou naquela época. Desci do ônibus e as interrogações ainda pipocavam: “Será que virou bissexual? Acho que a última olhada foi meio estranha”.
Quando caí na real, comecei a rir sozinha, de mim mesma. Como posso ter feito tantos pré-julgamentos em um espaço tão curto de tempo? Me senti tola por ter desperdiçado esses minutos tentando desvendar seu comportamento, ou imaginando o que ela pensava sobre mim.
Mas ao mesmo tempo, me dei conta que a curiosidade feminina sobre o as demais vai além de características como beleza ou auto-suficiência. E no fundo, acho uma verdadeira diversão imaginar o universo individual das pessoas. Com isso, você acaba desenvolvendo sua criatividade e descobrindo que as particularidades de cada um são o motivo pelo qual temos valor próprio.
Independente dos adjetivos que uma pessoa possa carregar, não existe e nunca existirá comparação entre ser humano algum. Somos únicos, exclusivos e especiais, e isso, por si só, já é uma dádiva.
Jan/2006
Era véspera de feriado, e, em uma rodoviária apinhada de gente, eu aguardava sentada em um banco à chegada do ônibus que me levaria às festas de fim de ano no sul do País.
Em meio a pessoas de todas as idades, sacos de biscoito de polvilho, malas – muitas malas – e uma poluição auditiva ocasionada pelos avisos de horários de partida, uma cena em particular chamou minha atenção.
Uma mãe com três filhos, aparentemente de classe média baixa, resolveu presentear as crianças com um pote de sorvete, que custava R$ 1 e trazia aproximadamente 500 ml do produto.
Com o dinheirinho contado, ordenou que a filha mais velha comprasse dois potes: um seria dividido entre a própria mãe e o filho menor, e o outro entre as duas meninas, que tinham entre 9 e 11 anos de idade.
A mais velha foi e voltou em uma fração tão curta de tempo que não chegou há um minuto. A mais nova recebeu o pote e aguardou que a mais velha fosse até o carrinho de sorvete pegar o troco.
Abriu o pote, lambeu a tampa e, ao contrário do que eu esperava, não deu a primeira colherada. Com os olhos brilhando e as pernas balançando de ansiedade, aguardou pacientemente até que a irmã chegasse, sentasse confortavelmente na cadeira ao lado e inaugurasse o tão aguardado sorvete.
Fiquei observando as duas pelos próximos dez minutos, e me emocionei ao ver que, sem grandes problemas, as duas dividiram o presente sem o menor sinal de egoísmo, em movimentos quase que compassados de uma dança que levava o pote de uma mão a outra, com colheradas que não desrespeitavam nunca a vez de cada uma.
Na verdade, essa reflexão toda se deu dois dias após uma grande amiga minha perder o irmão em uma cirurgia. Uma fatalidade que me abalou muito, especialmente por estarmos na semana de Natal.
Mas o que mais mexeu comigo, na verdade, foi o fato de eu me imaginar no lugar dela. Percebi que seria impossível, apertei os olhos como se isso fosse afastar os pensamentos e, com certa dose de egoísmo, agradeci a Deus por nunca ter acontecido nada parecido com a minha irmã.
Irmãos são mais do que amigos. São cúmplices. Por maior que seja a incompatibilidade de gênios, por menor que seja a afinidade. A realidade é que, mesmo que você não se pareça nada com a pessoa que foi criada e educada nos moldes da mesma família, você aprende desde cedo que seu irmão tem um papel fundamental dentro da sua vida, que é o de dividir acontecimentos que somente quem tem o mesmo sangue suportaria.
São tantas as situações que compartilhamos com um irmão… O bolo de cenoura fresco que acaba de sair do forno – feito com carinho pela mãe – as férias na casa da avó, a bagunça antes de dormir. Mas o que mais reforça esse elo são os problemas enfrentados juntos: momentos de desemprego, brigas de casal (tão temidas pelas crianças enquanto não sabem que o casamento não é eterno), doença, falta de dinheiro.
Eu poderia fazer uma lista interminável de motivos para agradecer mais, a cada dia, por ter uma irmã como a minha. Somos tão próximas e conhecemos tanto uma à outra, que às vezes me pergunto se existe outro par de irmãs no mundo que se dê tão bem. Daí o meu choque quando minha amiga me deu a notícia sobre o agravamento do quadro de saúde do seu irmão.
Depois de pegar o ônibus e enfrentar oito horas de viagem, cheguei à casa de minha avó, onde minha irmã aguardava ansiosamente minha chegada. Me chamou no quarto e disse: “Tenho um presente pra você. Você vai amar e odiar ao mesmo tempo.” Tirou de dentro da mochila um CD que eu estava namorando há meses, e percebi que o produto era pirata. Na mesma hora, entendi o que ela quis dizer com “amar e odiar”. Amar porque o CD era algo que eu realmente queria ganhar; odiar, porque ela sabe que sou completamente contra a pirataria.
Demos risada, e, na mesma hora, inseri o CD no aparelho de som. Coloquei uma faixa que é adorada por nós duas e sem dizer uma palavra, nos abraçamos e choramos. Disse ao seu ouvido: “Por favor, não morra nunca”, e a recíproca foi instantânea. Entendemos, sem precisar de explicações, que a emoção se deu pelo fato de ambas estarem abaladas com a notícia da morte.
Mais do que grata, me sinto, modéstia a parte, privilegiada por conseguir manter acesa essa amizade tão bonita entre nós duas, que só cresce e encanta quem nos conhece.
Sinto pena das pessoas que não experimentaram esse tipo de emoção, que é tão forte e gratificante que faz com que eu me sinta um ser humano melhor.
Enquanto houver vida, sempre será tempo de resgatar o que ficou pra traz. Qualquer mágoa ou desavença é pequena perto do intenso laço que pode existir entre dois irmãos.
Dez/2006.
Texto dedicado à Lílian, minha amiga querida, e à Thais, minha irmã e eterna companheira.

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