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Era véspera de feriado, e, em uma rodoviária apinhada de gente, eu aguardava sentada em um banco à chegada do ônibus que me levaria às festas de fim de ano no sul do País.

Em meio a pessoas de todas as idades, sacos de biscoito de polvilho, malas – muitas malas – e uma poluição auditiva ocasionada pelos avisos de horários de partida, uma cena em particular chamou minha atenção.

Uma mãe com três filhos, aparentemente de classe média baixa, resolveu presentear as crianças com um pote de sorvete, que custava R$ 1 e trazia aproximadamente 500 ml do produto.

Com o dinheirinho contado, ordenou que a filha mais velha comprasse dois potes: um seria dividido entre a própria mãe e o filho menor, e o outro entre as duas meninas, que tinham entre 9 e 11 anos de idade.

A mais velha foi e voltou em uma fração tão curta de tempo que não chegou há um minuto. A mais nova recebeu o pote e aguardou que a mais velha fosse até o carrinho de sorvete pegar o troco.

Abriu o pote, lambeu a tampa e, ao contrário do que eu esperava, não deu a primeira colherada. Com os olhos brilhando e as pernas balançando de ansiedade, aguardou pacientemente até que a irmã chegasse, sentasse confortavelmente na cadeira ao lado e inaugurasse o tão aguardado sorvete.

Fiquei observando as duas pelos próximos dez minutos, e me emocionei ao ver que, sem grandes problemas, as duas dividiram o presente sem o menor sinal de egoísmo, em movimentos quase que compassados de uma dança que levava o pote de uma mão a outra, com colheradas que não desrespeitavam nunca a vez de cada uma.

Na verdade, essa reflexão toda se deu dois dias após uma grande amiga minha perder o irmão em uma cirurgia. Uma fatalidade que me abalou muito, especialmente por estarmos na semana de Natal.

Mas o que mais mexeu comigo, na verdade, foi o fato de eu me imaginar no lugar dela. Percebi que seria impossível, apertei os olhos como se isso fosse afastar os pensamentos e, com certa dose de egoísmo, agradeci a Deus por nunca ter acontecido nada parecido com a minha irmã.

Irmãos são mais do que amigos. São cúmplices. Por maior que seja a incompatibilidade de gênios, por menor que seja a afinidade. A realidade é que, mesmo que você não se pareça nada com a pessoa que foi criada e educada nos moldes da mesma família, você aprende desde cedo que seu irmão tem um papel fundamental dentro da sua vida, que é o de dividir acontecimentos que somente quem tem o mesmo sangue suportaria.

São tantas as situações que compartilhamos com um irmão… O bolo de cenoura fresco que acaba de sair do forno – feito com carinho pela mãe – as férias na casa da avó, a bagunça antes de dormir. Mas o que mais reforça esse elo são os problemas enfrentados juntos: momentos de desemprego, brigas de casal (tão temidas pelas crianças enquanto não sabem que o casamento não é eterno), doença, falta de dinheiro.

Eu poderia fazer uma lista interminável de motivos para agradecer mais, a cada dia, por ter uma irmã como a minha. Somos tão próximas e conhecemos tanto uma à outra, que às vezes me pergunto se existe outro par de irmãs no mundo que se dê tão bem. Daí o meu choque quando minha amiga me deu a notícia sobre o agravamento do quadro de saúde do seu irmão.

Depois de pegar o ônibus e enfrentar oito horas de viagem, cheguei à casa de minha avó, onde minha irmã aguardava ansiosamente minha chegada. Me chamou no quarto e disse: “Tenho um presente pra você. Você vai amar e odiar ao mesmo tempo.” Tirou de dentro da mochila um CD que eu estava namorando há meses, e percebi que o produto era pirata. Na mesma hora, entendi o que ela quis dizer com “amar e odiar”. Amar porque o CD era algo que eu realmente queria ganhar; odiar, porque ela sabe que sou completamente contra a pirataria.

Demos risada, e, na mesma hora, inseri o CD no aparelho de som. Coloquei uma faixa que é adorada por nós duas e sem dizer uma palavra, nos abraçamos e choramos. Disse ao seu ouvido: “Por favor, não morra nunca”, e a recíproca foi instantânea. Entendemos, sem precisar de explicações, que a emoção se deu pelo fato de ambas estarem abaladas com a notícia da morte.

Mais do que grata, me sinto, modéstia a parte, privilegiada por conseguir manter acesa essa amizade tão bonita entre nós duas, que só cresce e encanta quem nos conhece.

Sinto pena das pessoas que não experimentaram esse tipo de emoção, que é tão forte e gratificante que faz com que eu me sinta um ser humano melhor.

Enquanto houver vida, sempre será tempo de resgatar o que ficou pra traz. Qualquer mágoa ou desavença é pequena perto do intenso laço que pode existir entre dois irmãos.

Dez/2006.

Texto dedicado à Lílian, minha amiga querida, e à Thais, minha irmã e eterna companheira.

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