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Depois de um dia exaustivo, à fila do ônibus, com cara de acabada e um livro na mão, ouço uma voz interrompendo minha leitura (que às dez e meia da noite já não era muito confiável).

- Aqui passa o São Caetano, não?
- Ahã.
- Ele demora?
- Não.

Segui a leitura. Ou melhor, tentei seguir, porque, a figura feminina que acabava de falar comigo me remeteu pelo menos há uns dez anos atrás.

Tinha o cabelo curto e naturalmente loiro, preso em um pequeno rabo de cavalo. Vestida com uma bermuda social, uma regata simples, e, nos pés, um chinelo de dedos, demonstrava uma evidente despreocupação com o modo de se vestir. A bolsinha minúscula, de modelo indiano, em contraste com uma sacola florida que segurava à mão, confirmavam a total despretensão com o figurino.

A pele era levemente bronzeada e o corpo não chamava atenção – magra, do tipo que mostra os ossos das costas. Mas os olhos rasgados – e verdes – dificilmente passariam despercebidos. Os dentes brancos e perfeitos, igualmente chamativos, lhe conferiam um ar sofisticado. Uma beleza realmente rara, do tipo que é preciso olhar com atenção para desvendar seus atributos.

Após a criteriosa análise feita por detrás do livro que eu segurava a altura da testa, concluí: sim, ela foi namorada do menino que ocupou o cargo de meu amor platônico na oitava série. Durante um ano, a coitada foi meu principal alvo de antipatia, e eu a classificava, na época, como “sem graça” ou “branquela aguada”. Afinal, era eu quem deveria estar no lugar dela! Minha antipatia, por sinal, também era platônica, porque nunca troquei nem meia palavra com a garota.

Feita a avaliação física, parti para as suposições. E de repente, me vi mergulhada em um mar de perguntas comuns entre as mulheres que se sentem (ou já se sentiram) ameaçadas de alguma forma – o que na verdade é ridículo, porém, inevitável.

O que será que ela faz da vida? Será que está casada? Será bem-sucedida? Para me confortar um pouco e me salvar daquela enxurrada de dúvidas, percebi, no mesmo instante, que a curiosidade era recíproca. Observando minha concentração na leitura, rapidamente puxou da sacolinha florida um livro antigo do qual em vão tentei ler o título.

Interpretei a atitude como um: “Ei! Mais do que belos olhos verdes, também tenho intelecto.” Em seguida, começou a fazer movimentos estranhos, apertando com o polegar alguns pontos do corpo. Percebi imediatamente que ela reproduzia – sem receio por estar no meio da rua – os movimentos demonstrados nas figuras do livro, que notei, alguns minutos depois, ser sobre massagem.

Quando o ônibus chegou e eu me acomodei a uma cadeira, percebi que ela escolheu, propositalmente, sentar-se a minha frente. Que audácia! – pensei comigo – O que será que ela quer? Que eu a fique observando o caminho todo? Olhando para a sua nuca e imaginado o que ela faz da vida, além de ser linda e a pessoa que eu queria ser a alguns anos?

Ok, ela conseguiu minha atenção. Em menos de cinco minutos enumerei várias possibilidades de profissão para ela: massagista (parecia óbvio), bailarina, fisioterapeuta, hippie (por causa da bolsinha indiana), entre outras. E enquanto minha imaginação fluía, ela seguia com os movimentos sem pudor, visivelmente ciente de que eu acompanhava passo a passo seu mais novo aprendizado. Será que ela estava gostando disso? Será que se lembrou de mim – babando pro namorado dela – e está me testando?

Até que, uma conhecida que eu não via há algum tempo, sobe no ônibus e começa a conversar comigo, sobre frivolidades. Me contou que formou-se em Pedagogia e, atualmente, cursa a faculdade de Letras. Nesse momento, a audácia do meu momentâneo foco de observação atingiu o inesperado. A menina vira-se e, sem mais nem menos, entra na nossa conversa:

- Desculpe pela intromissão, mas você disse Pedagogia e…Letras? É porque são justamente os dois cursos que eu tenho interesse!

Em seguida, não disfarçando a atuação, disse, fazendo um biquinho de dúvida:

- Eu não te conheço de algum lugar?

E eu, um pouco mais sínica:

- Seu rosto realmente não me é estranho.

Era nítida a sua necessidade de descobrir mais coisas sobre a vida que levo atualmente. Na primeira oportunidade, lançou-me, com a curiosidade inflada:

- E você, faz o quê?

- Sou jornalista – disse com a boca cheia, certa de que a minha formação, naquele momento, seria uma vantagem em relação a “minha concorrente”.

Levantei-me puxando a cordinha do ônibus e me despedi das duas, ao que ela, avidamente, fincou os olhos na lombada do livro que eu segurava, em busca do título. Fui mais esperta e rapidamente guardei-o na bolsa, como que me defendendo do seu olhar ligeiro. Ela me deu uma piscadela, que eu devolvi. Certamente, nossas mentes diziam: “É óbvio que ela se lembra de mim”.

Nos reconhecemos, veladamente. Seja pela cara, seja pela competição desatada que nos ligou naquela época. Desci do ônibus e as interrogações ainda pipocavam: “Será que virou bissexual? Acho que a última olhada foi meio estranha”.

Quando caí na real, comecei a rir sozinha, de mim mesma. Como posso ter feito tantos pré-julgamentos em um espaço tão curto de tempo? Me senti tola por ter desperdiçado esses minutos tentando desvendar seu comportamento, ou imaginando o que ela pensava sobre mim.

Mas ao mesmo tempo, me dei conta que a curiosidade feminina sobre o as demais vai além de características como beleza ou auto-suficiência. E no fundo, acho uma verdadeira diversão imaginar o universo individual das pessoas. Com isso, você acaba desenvolvendo sua criatividade e descobrindo que as particularidades de cada um são o motivo pelo qual temos valor próprio.

Independente dos adjetivos que uma pessoa possa carregar, não existe e nunca existirá comparação entre ser humano algum. Somos únicos, exclusivos e especiais, e isso, por si só, já é uma dádiva.

Jan/2006

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