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Atravesso a avenida lutando contra consistentes gotas de chuva e subo a grande escadaria coberta por um tapete vermelho luxuoso, porém gasto. Ao lado de uma pequena mesa que funciona como bilheteria, um amigo me aguarda e observa duas senhoras loiras, de meia idade, aparentemente preocupadas com a chapinha recém-molhada.
O salão de bailes fica em um clube poliesportivo e inspira contradição, por manter um requinte insustentável, financeiramente falando. Pago seis reais para entrar e mais um real para deixar a bolsa na chapelaria, após subir dois lances de uma escadaria esculpida em mármore. O grande saguão tem um reluzente chão branco e antecede a pista de dança, que a essa altura estava tomada por um bom e velho bolero.
Lá dentro, vejo uma pista de dança imensa, com chão impecável, abaixo de dois enormes lustres do século passado. Por alguns instantes, me sinto dentro do legítimo Titanic, mas volto à realidade quando retomo os sentidos e ouço o som vindo do palco, onde estão quatro músicos e uma cantora, uniformizados com camisa de cetim vermelha e calça preta. O fundo é revestido por um tecido preto e letras douradas que anunciam o show da noite: “Banda Premium”.
Espalhadas ao redor do salão, existem mais ou menos cem mesas de plástico branco-amareladas, ocupadas esparsamente. A iluminação é opaca, conferindo uma atmosfera aconchegante ao local. Sinto-me acolhida em meio a tantas pessoas mais velhas que eu – a faixa etária supera os 50. A maioria feminina prevalece, o que é muito comum no meio da dança. Mas os homens também estão por lá e se sentem como reis frente a tanta oferta, ávidos por usufruir a noite ao lado de uma boa parceira de dança, ou várias, obedecendo à proporção desigual.
Os figurinos vão do simples ao bizarro. Vestidos esvoaçantes, sapatos bicolores, cintos de lantejoula, colares, laquês e brilho, muito brilho. Para uma noite chuvosa de terça-feira, a pista estava surpreendentemente cheia. Noto que na ponta do palco uma senhora de longos cabelos pretos dança sozinha, com uma roupa um tanto quanto “modernosa”, saia curta jeans, meia-fina e botas pretas. Não contenho uma risada discreta, depois de conferir o modo estranho que a senhora dança, no melhor estilo “não estou nem aí mesmo”. Em seguida, um outro personagem chama minha atenção: um senhor com cabelos à la Roberto Carlos entra na dança, com um sorriso de orelha a orelha, camisa preta com grandes bolas coloridas, corrente de ouro grossa ao redor do pescoço.
Finalmente decido parar de analisar o cenário e cair na pista, animada com a seleção de “tcha-tcha-tcha” que acaba de começar. Surpreendo-me ao perceber que as tradições antigas ainda são seguidas à risca em um salão de baile: os casais dançam movendo-se em sentido horário, o que faz com que dêem constantes voltas em toda a pista, observando e sendo observados. Lembro-me, no minuto seguinte, que hábitos tradicionais seriam comuns nas próximas horas, afinal, me encontro entre pessoas na fase da terceira idade.
Vez por outra vejo dois ou três com idade próxima à minha, que não estão lá por acaso ou para se divertir. São profissionais, chamados de personal dancers, e têm como função acompanhar senhoras de idade ao baile, além de conduzi-las por quantas músicas o fôlego permitir. Essa é uma profissão nova e crescente no mundo da dança, que rende uma boa grana e garante a alegria das senhorinhas mais abastadas, que antigamente reclamavam a falta de homens nas pistas.
Entre uma seleção musical e outra, danço, tomo uma cerveja, danço mais um pouco, vigio tudo à minha volta. Entre muitas personalidades desconhecidas, ainda que muito peculiares, noto um traço comum – a auto-estima que toma conta de cada um ali presente. Todos estão felizes, em festa. Se beijam na pista. Sim, os idosos se beijam – para mim essa visão foi inédita! Nunca imaginei meus avós em um acalorado beijo de língua, por exemplo. Não se importam se estão sendo vistos. Nem tampouco se estão dançando certo, se erraram um passo, se estão sendo fiéis às técnicas da dança de salão.
Fico triste por me obrigar ir embora à meia-noite, já que no dia seguinte tenho que trabalhar. Enquanto isso, os “pés-de-valsa” presentes no local nem se lembram do relógio. Presumo que a maioria deve estar aposentada, ou realizar trabalhos leves, ou apenas ficar em casa, batendo um bolo, cuidando dos netos, assistindo programas vespertinos…
Penso que isto pode ter soado como um julgamento equivocado, visto que tantas pessoas idosas ainda sentem-se capazes e com energia suficiente para trabalhar. Mas na real foi justamente o contrário, me vi diante de pessoas felizes e cientes de que ainda conseguem extrair o melhor da vida, independente do peso da idade.
Saio do baile feliz e saltitante, sentindo a chuva levar embora o meu suor ainda quente. E com a certeza de que é dessa forma que quero envelhecer: com um sorriso no rosto e a dança no coração.
Mar/2007

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