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A dor de cabeça e o enjôo no estômago começaram no dia 30 de junho, quando pisei pela primeira vez na University of the Arts London, onde eu faria um curso de férias chamado “Creative Writing”.
Como boa ariana que sou, tenho a péssima mania de comprar brigas, sempre. Achando meeesmo que vou ganhar (há, há, há). Sempre prefiro optar pelo “bora tentar pra ver o que vai dar”. No final das contas, eu me arrebento até não aguentar mais e estresso todos ao meu redor. As vezes eu ganho, muitas outras, perco.
Quero deixar claro que pra mim isso nem de longe é uma qualidade, absolutamente. Não acho bonito querer ser sempre a primeira da classe. Acho um porre. Acho coxinha demais, old-fashioned demais.
Engraçado que eu só fui perceber este meu defeito de fábrica aqui em Londres, mas já na escola eu apresentava este irritante e estranho comportamento chamado “competitividade”. Mas agora estou com 27, e, do auge do meu amadurecimento (cof, cof), resolvi comprar mais uma briguinha: fazer o tal summer course.
As primeiras impressões foram tensas. A escola é tradionalíssima, do tipo antigassa. Escadas e corrimões de madeira, janelas imensas, corredores silenciosos. O cheiro que sai do fucking aquecedor fixado em praticamente todas as instalações londrinas (em grande parte, centenárias) me fez lembrar dos meus primeiros dias por aqui. Trata-se de um cheiro inexplicável, que eu nunca havia sentido antes (talvez porque eu more em um país tropical, rs).
Eram exatamente 18h01 e a classe já estava completa. É, eles são mesmo pontuais. A minha professora era uma escritora renomada, dona de um currículo bem interessante. Ela usava um óculos de aro oval, umas batinhas floridas de tecido fininho, calça jeans e um chinelo de dedos de cor laranja, every single day. O cabelo desgrenhado era preso em um rabo no alto da cabeça. Uma coisa meio bicho-grilo. Ela também era meio estrábica, e quando falava rápido, tinha a mania de olhar pra cima e ficar ligeiramente vesga. A little bit funny.
Como o meu alarme do bom senso apitou a tempo de eu não pedir uma foto abraçadinha ao diploma e à professora, eu a desenhei (** em aula **) e resolvi postar, pois, modéstia parte, ficou igualzinha.
Na primeira parte da aula, ela falou bastante sobre o curso, recomendou bibliografia, contou um pouco da própria experiência. Até aí eu tava feliz da vida: “Opa, tá no papo” (desculpem a falta de gírias novas, no momento estão em falta, rs).
Na maldita segunda metade da aula, as coisas começaram a mudar de figura. Hora das apresentações. Odeio essa parte, que você tem que ficar falando sobre si mesmo pra um bando de desconhecido (talvez por isso eu tenha evitado por tanto tempo um blog, rs). Mas ok, me apresentei dentro do meu inglês tupiniquim e tava tudo certo. Todo mundo ali tinha um inglês fluentíssimo, com todas as entonações, preposições e tempos verbais, mas, até aí, eu pensava…”Ninguém me conhece nessa merda! Vou falar do meu jeito e, se eles entenderem, já estou no lucro”.
Mas o bolo desandou na hora que eu descobri que existia uma brasileira entre nós. Pronto. Agora fodeu. Paguei de ridícula. Nossa, ela deve estar rindo horrores do meu inglês. Deve estar me achando uma tosca. Que merda. E a partir deste cagaço inicial se desencadeou um bloqueio inexplicável, que nem fazendo muita força consigo lembrar a última vez que senti.
A primeira aula até que correu bem, já na segunda, percebi o ritmo que o curso tomaria. A professora nos dava um tema por dia e, a partir disso, fazíamos um exercício em sala. Na seqüência, tínhamos que compartilhar as calhordices escritas, lendo, EM-VOZ-ALTA, para o restante da classe.
O silêncio nessa hora da leitura era de matar. Eu ouvia as pessoas lendo e ficava dura, de tanta tensão, pra não deixar nenhuma palavra escapar e perder o contexto. A entonação e a cadência com que eles liam eram tão perfeitas, que me fizeram repensar minha forma de encarar o inglês. Sempre achei aula de entonação um saco, do tipo, “por que preciso aprender a tabela periódica se não vou ser Química???”.
Mas nuoooossa, como aquelas aulinhas cheias de símbolos estranhos na lousa pra treinar pronunciação se faziam necessárias naquele momento! A minha vez de ler estava chegando, minhas mãos começaram a suar. O meu estômago revirava e nem fome eu sentia, apesar de não ter ingerido mais do que uma barra de cereal – e olha que eu, sem fome, é quase que caso de internação.
Até que ouço a frase final do texto vizinho, seguido do comentário da professora, que olha pra mim e dá aquela erguidinha de cabeça, como quem diz: “Fala aí, minha garota, o que você tem a nos dizer?”.
O ar faltava. Me desculpei pelo meu inglês e segui em frente, gaguejando a cada duas palavras. “A brazuca tá me avaliando. Com certeza ela tem um inglês melhor que o meu”. E assim foi. Sofriiiiiiido, mas consegui terminar. Os minutos seguintes foram um misto de anestesiamento com raiva. Quase como um instinto de defesa, passei a achar que a aula nem era tão boa assim.
Mas vejam só, nem tudo estava perdido! Eu tenho uma maniazinha, e dessa sim, eu me orgulho, de não saber prolongar problemas. Odeio reclamar e não fazer nada pra mudar, odeio empurrar com a barriga, odeio fazer algo meia-sola só pela incapacidade de reverter a situação ou por simples preguiça.
Então decidi que eu tinha que fazer aquelas aulas valerem. Falei com a professora e expliquei que eu não me sentia segura pra expor meus textos. Não pela escrita, e sim pela falta de entonação, possíveis erros gramaticais e blá, blá, blá. A primeira coisa que ela me disse foi: “Nobody cares about your English! You can do it!”. Do tipo, filhinha, estamos na Inglaterra, aqui ninguém se importa meeeesmo. Mas eu a convenci que pra mim seria melhor assim.
Os dias foram se passando e eu trabalhando dentro do meu limite, escrevendo pra mim mesma, de acordo com as técnicas que ela fornecia em aula. Do meu jeito, aprendi muitas coisas interessantes, embora não tenha participado tão ativamente em classe.
O final seria feliz se ainda não existisse uma pulga bem atrás da minha orelha. Não me conformava de ter passado TANTO nervoso, pelo simples fato de supostamente a brazuca me achar uma tosca e rir de mim em casa. Mas oi? Eu nem conheço ela! Ela nem me conhece! E o pior, o speech dela era tão FISK quanto o meu! Ou seja, o único mérito dela é que ela deu a cara pra bater, e eu, a duras penas, arreguei.
No último dia de aula, recebi o certificado e uma ligação do meu namorado, dizendo que tinha um vinho branco na geladeira me esperando pra comemorar minha vitória. A turma foi pra um pub celebrar. Eu agradeci a professora e vazei, afinal, tive tanto medo de falar com esse povo durante o mês inteiro…não era agora que eu ia desatar a conversar. Caminhei rumo ao metrô com uma sensação estranha. Quantas conversas produtivas eu evitei por medo de me expor? Quantas situações bacanas eu poderia ter experimentado, inclusive errar em público, ser corrigida, rir, aprender?
O tempo todo, durante esta experiência, tive a sensação de ser a criança mais novinha da rua que quer de qualquer jeito brincar na turma dos grandes. Eles até deixam, mas você fica ali, meio apagadinha, meio sem-graça.
Quando finalmente cheguei em casa, e meu namorado me parabenizou pelo fim do curso, eu disse: “Acho que não sou merecedora deste certificado”. Então perguntei pra ele se ele me amava mesmo sendo café com leite. Ele me respondeu da forma mais linda e simples: “Café com leite é quem nem tenta, Dan.” E é isso, missão cumprida. Vivendo, aprendendo e arregando, sempre que o oponente da sua briga tiver o dobro do seu tamanho.


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