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Beyoncé rebolava ao lado das suas duas fiéis bailarinas, sacudindo cada músculo do corpo e jogando os cabelos pra cima e pra baixo, nervosamente. Notei que aquele clipe era muitíssimo parecido com os outros que eu já tinha visto da mesma cantora, quase idêntico, mas a constatação não foi motivo suficiente para que eu não ficasse hipnotizada com a dança, o vozeirão e a beleza estonteante da moça.

Obviamente aquele clipe não me despertou nenhum senso crítico porque, musicalmente falando, eu sou bem mais rasa do que o Daniel por exemplo. Ele, por sua vez, via a mesma imagem que eu, só que sofrendo muito e resmungando mais ainda. Eu imagino que esse tipo de música chega a doer nos ouvidinhos dele, que tiveram como primeira referência musical os Beatles, aos cinco anos de idade, e desde então passaram a filtrar quase tudo com este humilde parâmetro.

Diante disso, eu me pergunto: qual a fórmula que faz algo se tornar pop?
Eu por exemplo acho “Dancing Queen”, do ABBA, a música mais foda do planeta, compartilhando da opinião de outras milhões de pessoas. Ou seja, ela é pop. E o que isso quer dizer?

Que ela é pop por ser mais acessível ao grande público? Então ela é pobre musicalmente? Ou ela não tem tanta qualidade musical quanto uma música do Philip Glass por exemplo, que eu também gosto de ouvir, por “n” motivos, mas que é tido para a maioria das pessoas como “música pra gente chata”? Uma coisa é certa: ele não é pop.

Me recuso a acreditar que ser pop é sinônimo de falta de qualidade, e os grandes nomes da música mundial estão para aí para nos confirmar: Michael Jackson, Beatles, Elvis, Madonna…não estou colocando tudo no mesmo balaio, mas é claro que se eles conseguiram afetar um imenso número de pessoas e até mesmo influenciar gerações, é porque fizeram um bom trabalho. Eles são pop, ainda que alguns estejam léguas abaixo da terra.

Obviamente não cheguei à conclusão nenhuma sobre esta questão, mesmo porque, quem sou eu pra querer explicar o fenômeno pop, né, minha gente? Mas quando comecei a fazer essa viagem maluca não era em música que eu estava pensando efetivamente, e sim, em pessoas.

Especialmente porque, impossibilitada de saracutear por aí por causa do pé quebrado, só me resta refletir nesta vida, rs. E se tem uma coisa que eu estou aprendendo com esse período de molho, é rever a ideia que eu tinha das pessoas que me cercam.

Bendito seja o cabeção que disse que, quando se está na merda, é que os verdadeiros amigos se manifestam e se fazem presentes. Comecei então por rever a quantidade de amigos que eu tinha aos 14, 15 anos, e a quantidade que tenho agora, beirando os 30.

Cheguei à conclusão de que eu já fui pop. Mas não pop do tipo princesinha do baile, amiga querida que todas as meninas invejavam, que era convidada pra sair pelo cara mais gato da escola. Eu simplesmente era conhecida, conhecia muita gente, tinha vários núcleos de amigos e, por mais estranho que pareça, um não tinha nada a ver com o outro. Como eu conseguia transitar entre tantos ambientes diferentes é que eu não sei.

Quando eu entrei pra dança de salão, isso ficou ainda mais nítido. Eu costuma chamar meu mais novo grupo de “amigos da dança”, e circulava por diferentes lugares em busca da mais perfeita pista para se dançar zouk, bolero, salsa, gafieira, etc. Eu também era pop nesse meio – conhecia muita gente, dançava com todo mundo (todo mundo MESMO) e, na maioria das vezes, ia sozinha pros lugares, com a plena certeza de que encontraria conhecidos por lá. E era o que acontecia.

O resultado dessa maratona insana eram muitas, mas muitas dores no corpo e nenhuma amizade que eu pudesse efetivamente chamar de verdadeira. As dores eram decorrentes da minha falta de critério ao aceitar dançar com qualquer um. Ao contrário do que muita gente pensa, dançar – mesmo que só por diversão – exige técnica e dedicação (homens: fikdik, rs). Além disso, quando você vai a um lugar pra dançar, não é necessariamente um bom papo que você está procurando. Então, com o tempo e com a chegada de outras prioridades na minha vida, acabei indo cada vez menos pras baladas desse tipo.

E isso não quer dizer que eu deixei de lado meu amor à dança: muito pelo contrário. Ainda que eu vá uma vez a cada semestre, quando vou é pra dançar com qualidade. Meu parceiro fiel nestas ocasiões é o meu eterno professor de dança, Celso Gazu, que além de ser um amigo verdadeiro é um mestre e não me deixa nenhuma sequelazinha de dor no dia seguinte.

E estou falando da mesmíssima coisa quando me refiro aos amigos de verdade. Quando olho pra trás, não considero que eu era rodeada de gente falsa, mas a questão é que nem todas as pessoas que conviviam comigo efetivamente me acrescentavam alguma coisa. E eu não me importava com isso.

Também pudera: atire a primeira pedra quem se preocupava com qualidade (em qualquer quesito) do alto dos seus 15 anos de idade. Nesta época, o que importava era lotar os carros e ir com um número maior de pessoas pras baladas, viagens, barzinhos, festas.

Com a idade (cof, cof), essa euforia passou – tanto a de dançar como se não houvesse amanhã, quanto a de ter uma turma imensa de amiguxos lindos estampando um gigante mural de fotos. Ao menos pra mim, passou. Passei a valorizar a dança com o parceiro certo. Compartilhar alegrias, angústias e dúvidas com as pessoas que realmente estão interessadas em ouvir.

Isso porque, com muito custo, aprendi dizer não praquilo que não me acrescenta algo de bom, relevante, ou novo. Ou para aquilo que simplesmente me afeta negativamente de alguma forma. Sim, porque pior do que as pessoas que “não cheiram e nem fedem” são aquelas que, mesmo sem querer, tiram boas doses da sua energia diária.

Custo a entender as pessoas da minha idade que ainda acham quantidade algo relevante – o número de seguidores do Twitter, de pessoas ou ligações na festa de aniversário. Quem ainda acha que legal é ser pop, e não ter um grupo seleto de pessoas que efetivamente fazem a diferença na sua vida.

Talvez eu esteja ficando uma velha chata mesmo, mas a questão é que me faz bem saber diferenciar quem é amigo de cerveja e quem é amigo de pé quebrado. Isso ficou ainda mais claro pra mim agora, no período de repouso. Amigos que nem convivem comigo e estavam bem longe fisicamente demonstraram sua preocupação, seja por um e-mail, por uma ligação, pelo Twitter.

Outros se dispuseram a ajudar, a fazer uma visita ou até mesmo a vir almoçar comigo. Achei tão sensível essas pessoas perceberem que, em 45 dias sem poder sair pra trabalhar, talvez eu quisesse uma visita que agitasse um pouquinho minha nova rotina.

O fato é que em meu primeiro carnaval fritando dentro de casa, tive tempo suficiente pra refletir sobre tudo isso e, inclusive rever conceitos sobre quem eu realmente quero levar pra minha vida, em todos os momentos.

Estou aprendendo a esperar menos de quem não tem muito a me dar. E a ouvir apenas quem realmente tem o que dizer, não quem dispara opiniões sem ter a menor sensibilidade ou preocupação em saber se está falando merda. Ignorar os lemas de quem só abre a boca pra ser aceito, pra causar impacto, pra ser pop.

Felizmente, não terei que me juntar a 50 milhões de leitores pra descobrir “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, segundo o escritor americano Dale Carnegie. Prefiro influenciar poucos, mas significativos. Escolher amigos é uma arte refinada, difícil e rara, em uma era em que o “influenciar” perde para o “cultivar”.

Pra mim, mais legal do que ser pop é poder contar com aqueles que gostam de mim do jeito que eu sou, sem julgamentos, independente se gosto de ABBA ou do Philip Glass; se danço zouk; se me emocionei assistindo a última pérola pop do cinema americano, Avatar; ou se ainda acho graça da série mais pop de todos os tempos, Friends. Isso sim é fazer amigos influenciar pessoas. E, definitivamente, não é lendo um livro que a gente aprende a fazer isso.

Beyoncé says: “Oh, men, that’s a terrific book! That’s my favourite!

De todas as mil e uma qualidades que eu admiro na minha mãe, uma das que mais me toca é o “ser humana”. O que quero dizer com isso é que, talvez ela nem saiba, mas é uma das pessoas mais sensíveis que eu já conheci, embora seja forte como uma rocha.

 

Se é que vocês me entendem, ser sensível não tem nada a ver com ser fraco. Eu por exemplo me considero bem forte pra (quase) todos os assuntos da minha vida. E também não sou uma chorona de plantão em filmes, novelas ou PPTs com paisagens e fundos musicais, não gosto da Hello Kit, nem de cor-de-rosa.

 

Mas em compensação, tremo o beicinho fácil, fácil quando vejo uma velhinha no mercado com dificuldade para enxergar o preço da alface, um cachorrinho com cara de fome, uma música tocada com emoção ou um funcionário sendo humilhado publicamente. Com dança então, nem se fala. =)

 

Não, eu não sou fofa. Só tenho sensibilidade à flor da pele! Existem situações cotidianas que me comovem tanto…que são capazes de me desmontar. E isso eu herdei da minha mãe, certeza.

 

Depois de ver muitas coisas que me tocaram em Londres (e outras nem tanto), cheguei à conclusão que sensibilidade aflorada realmente não é algo que todo mundo tem. Uns são mais sensíveis, outros menos, e alguns preferem apenas ficar alheios às situações que não interferem diretamente em suas vidinhas. Não me sinto privilegiada ou acabo de descobrir um “dom” nato, mas é bom saber que isso faz parte de mim por culpa da minha mãe.

 

No meio da semana passada, recebi uma ligação dela dizendo: “Filha, estou tão feliz! Fui homenageada hoje”. Na hora, a pressa não me deixou perguntar mais detalhes, mas prometi ouvir a história com calma à noite, em casa.Então ela me explicou tudo.

 

Desde que eu me conheço por gente, minha mãe vende Natura. Mas ela não é uma vendedorazinha, não, meu amigo. Quem conhece “a fera” <Faustão> sabe que ela vende até saco plástico furado se quiser. E ela tem cada idéia que deixaria qualquer dono de empresa de queixo caído. Enche uma cesta com produtos e faz uma rifa, organiza um “chá da tarde” com todas as madames do bairro e faz uma tarde de bingo, inventa kits de Natal e datas especiais…pura criatividade essa minha gordinha, viu.

 

Enfim, depois de tantos anos dando muito, mas muiiito dinheiro pra Natura (e acumulando muitos produtos legais pra nossa casa também!), eles fizeram uma convenção que homenageou todas as vendedoras. Achei muito bacana a atitude da empresa, em primeiro lugar.

 

Partindo do princípio de que muitas mulheres se lançam nesta tarefa quase que “sem querer”, muitas vezes pra completar o orçamento ou pra aliviar a ausência involuntária de um marido desempregado, é mais do que justo que sejam lembradas. Muitas delas vão de porta em porta vender. E fazem disso um compromisso: ganham auto-estima com os resultados e também a vendem em frascos e caixas para tantas outras mulheres.

 

Então ela me contou que eles alugaram o salão de um hotel bonito, fizeram uma mesa cheia de coisas gostosas, contrataram uma pessoa pra cantar ao vivo pra elas e chamaram uma a uma no palco para receberem uma lembrança de um dos gerentes da empresa.

 

Depois de “manchetar” as informações gerais sobre a festa com cores e sons, ela partiu pro detalhe. Minha mãe consegue narrar uma situação de forma que você se sinta preso, por mais que esteja com pressa; se sinta interessado, por mais que você não conheça nem o protagonista da história; se sinta emocionado, mesmo que não tenha vivido. Ela tem o dom dos grandes escritores….mas não sabe disso.

 

Tenho frescas em minha memória muitas das histórias que ela já me contou nessa vida, que vão desde a bem aproveitada infância de moleca, passando pela casa das clientes mais abastadas, casamentos, coincidências do dia-a-dia e, sobretudo, muitos, muitos momentos em que ela se viu diante de ajudar alguém. Aliás, justamente por ser sensível e humana, estas situações caem no colo dela quase que diariamente:  

 

“Filha, hoje passou um velhinho aqui em casa, vendendo uns paninhos de prato tãaaao caprichadinhos, acredita que ele cobrava só R$ 2 cada um? Comprei cinco.”

 

“Filha, hoje tinha uma menina tão novinha na pracinha na frente de casa, com um nenezinho no colo, acredita que eu não tinha R$ 1 pra dar? Então fiz um pratão de comida, descasquei uma laranja, e levei lá.”

 

E foi bem desse jeitinho que ela me contou o desenrolar deste dia de homenagens. Ela me disse que viu o orgulho no rosto das mulheres que estavam por lá. Disse que a maioria delas era composta por mulheres bem simples. Algumas mostravam resquícios de um penteado feito em casa mesmo, outras, estavam acompanhadas de uma irmã ou cunhada, por vergonha ou simplesmente pra compartilhar uma festa tão legal com alguém próximo.

 

Ela também reparou uma senhora que usava um conjuntinho de terno, embora fizesse muito calor naquele dia. “Tem gente que usa a melhor roupa que tem, filha, sem se preocupar com o tempo lá fora”, disse ela, com o narizinho vermelho e os olhinhos brilhando. Caiu a primeira lágrima. Sim, ela chora por pessoas que não conhece. E eu, a essa altura, já tinha amolecido há muito tempo. 

 

Ela notou tudo isso porque hoje é uma vencedora, mas sua essência é simples. Já vendeu muito de porta em porta. Já cobriu muito desemprego, apoiando meu pai nas horas difíceis. E apesar de tudo, nunca deixou de ver o que ninguém vê, de observar o outro com uma compaixão rara, colecionando histórias e as compartilhando com suas crias. Quase que sem querer, ela norteou completamente a forma como eu enxergo a vida e o próximo.

 

Obrigada, mãezinha, pelo dom de olhar o outro com os olhos do coração.

  

 

 

 

 

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