You are currently browsing the tag archive for the ‘cumplicidade’ tag.

Ele ouvia Beatles, R.E.M, Ramones. Ela ouvia Marisa. Ele ouvia Beck, White Stripes, The Smiths; e por que não Bjork? Ela ouvia Zeca Baleiro; e o Pagodinho também. Salsa. Samba. E por que não uma música sertaneja de raiz?

Eles se encontraram, nem de longe pela sintonia dos seus gostos musicais, e aprenderam a ouvir aos sons um do outro. Juntos, se revezavam entre Caetano, Orishas, Beastie Boys, Chico Buarque, Amy Winehouse, Elvis, Gotan Project, Lauryn Hill, Philip Glass, Jorge Ben, Los Hermanos, Queens of the Stonage, Cold War Kids…E tantos outros…E assim foram compondo uma trilha sonora de momentos.

Obviamente, foi um grande aprendizado. Ele deixou de ”odiar os ecléticos” e passou a não mais somar ou subtrair pontos de alguém a partir de preferências musicais. Ela, por sua vez, passou a abrir a mente para bandas que ainda não faziam parte do seu repertório e, como ele, aprendeu a ouvir mais de uma vez o mesmo som, cuidadadosamente, para poder classificá-lo como bom ou ruim.

Até que um dia ele disse pra ela: Ouve essa banda aqui! E ela gostou. Algum tempo depois, esta mesma banda tocaria em um grande parque, em Londres, onde eles viviam. Os ingressos já haviam se esgotado há tempos, uma pena, mas mesmo assim, resolveram dar uma volta por lá para tentar capturar algo, mesmo que de longe.

Logo na entrada, ouvia-se o alvoroço dos londrinos, todos com seu pint na mão, embora soubessem que teriam que dispensá-lo durante a rígida revista feita na fila de entrada. As pessoas estavam felizes, o show era especialmente aguardado por aquele público. Até mesmo o vocalista da banda, dias antes, confessou em entrevista estar excepcionalmente ansioso para este momento.

Como não podia deixar de ser, dada a localidade do evento, o show começou, pontualmente, às oito horas e quinze minutos daquela noite fria de quarta-feira. Em um típico dia de verão inglês, o sol ainda estava alto, mas a temperatura caía e o vento batia forte e gelado.

Grudados à grade que separava a fila de entrada do palco, há muitos metros de distância, e em meio a inúmeros outros na mesma situação, eles puderam ouvir a gritaria (contida, inglesa) do público quando a banda começou o primeiro som, a faixa do CD novo que estava entre as preferidas dos dois. Vibraram.

Ele divagou, em um comentário quase que infantil: Bem que alguém podia desistir de entrar no show e nos dar os ingressos”. Ela sorriu, com o coração apertado, porque sabia que esta era uma das suas bandas preferidas. Ela tinha noção do quanto entrar naquele show seria significativo para ele; mais do que para ela.

Para inaugurar o seqüência de dramas à la novela mexicana que estaria por vir, cinco minutos após o singelo comentário, um ser humano desprovido de visão de negócio iniciou o seguinte diálogo com um garoto que se encontrava exatamente ao lado dos dois:

- Do you want a ticket?
- No, man, thanks…I don’t have any money.
- But it’s for free, man.

Cinco minutos de silêncio então se fizeram, como que em respeito àquele cena tão surreal. Ele não acreditava; ela, tampouco. O sortudo, menos ainda. Mas finalmente o garoto que há um instante atrás tinha o olho perdido em busca de alguma visão do palco, entendeu que sim: ele havia sido o protagonista de um milagre – porque dentro daquele contexto aquilo só poderia ser um milagre.

Os dois então passaram a acompanhar cada ação que se seguiu: ele avançou na fila, foi revistado, mostrou o convite para o segurança, que ficou alguns instantes avaliando a procedência. Suspense. Será que era real? Sim, ele conseguiu entrar, e, em poucos, minutos passou a correr em direção ao palco, com um sorriso bobo no rosto.

Mais uma vez ela sentiu seu coração apertado: “Talvez se eu não estivesse aqui, ele poderia ter sido o escolhido do tal bom-samaritano”.

Duas músicas se seguiram e eis que uma nova tentativa de final feliz aparece em forma de uma mestiça com dois ingressos nas mãos, com voz leve e envergonhada.

- Vocês comprariam dois ingressos por 30 pounds?

Ele não tinha nada na carteira. Ela, somente 20 pounds. Considerando que dois ingressos no preço normal custariam 80 pounds, eles estariam perdendo um grande negócio se não agissem rápido.

Na agonia do momento, os minutos se passavam, e a mestiça oferecia pra um, e pra outro, e pra mais outro…ninguém que estava lá fora tinha dinheiro. Caso contrário, estariam lá dentro. A música que vinha do palco parecia tocar mais alto naquele momento, as luzes pareciam mais fortes, e até o vento tinha parado de soprar.

Então a mestiça desistiu de vender os convites e seguiu pra fila, afinal, a banda já estava na quarta música. Ela agiu rápido: “Corra e ofereça os 20 pounds pra ela…ela vai jogar no lixo dois convites”.

Ele correu, em uma última tentativa de negociação, tentou explicar para os seguranças que precisava falar com a menina que já estava com um pé dentro da arena. E eis que em uma fração de segundo ele estava com os dois ingressos na mão, brilhando, sorrindo para ele. Finalmente, ele e ela entrariam e assistiriam o show. Juntos.

“Nem acredito”, disse ele, abrindo a bolsa para ser revistada, enquanto ela, de tão eufórica, já estava alguns passos a frente. Porém, desta vez, o que impediu a entrada não foi a falta de ingressos, nem a de dinheiro. Foi a máquina fotográfica que ele trazia dentro da bolsa.

O segurança, rígido, não trocou mais do que poucas palavras com ele: “It’s not alowed here”. “Mas esta câmera não é profissional”, ele argumentava, ao que o segurança já nem mais pra ele olhava. A esta altura já estava cuidando de outro caso. Mais uma vez eles se deram conta de onde estavam: em um país onde as leis e regras são seguidas acima de tudo. Não tem jeitinho, não tem suborno, não tem molhar a mão. Não existe dó, essa é a verdade.

Ele insistiu, falou com outro segurança, explicou a situação para outro, e pra mais outro. E desistiu. Ela só ficou parada na fila, com os olhos cheios d’água. “Não acredito que ele vai perder esse show”, ela pensava. E emendou: “Entra no meu lugar. Eu fico aqui fora segurando sua bolsa”.

“Nem pensar”, ele disse, “Só vou se for com você”. E então começou mais um capítulo do dramático dia, que até às oito e quinze da noite não demostrava nada de diferente em relação aos demais.

Ele dizia que não, que não era possível viver uma experiência dessa sem ela, que não teria graça, que seria injusto. Ela respondia que não fazia sentido, que ele gostava muito mais daquela banda do que ela, que seria egoísmo se não fizesse isso por ele.

As pessoas ao redor acompanhavam o diálogo com atenção. Um rapaz que assistia toda a cena, abordou os dois e ofereceu “tudo o que tinha”, com ar de misericórida, para comprar um dos ingressos. Com um Português de Portugal arrastado, negociava aquela chance agarrado a uma penca de moedas que caçou no bolso e uma nota amassada de 5 pounds.

Ele pegou a nota, dispensou a moedas e disse, com certa inveja: “Bom show, amigo”.

Mas ainda restava um ingresso. E ela não acreditava que ele iria parar no lixo ou em um bolo de papéis em casa como “recordação”. Recordação de quê? E continuava a chorar em silêncio, enquanto ele se recusava a entrar. Ela persistia. Ele estava decidido. Ela continuou a argumentar, até apelar para a máxima que não só ela, mas todas elas, usam em uma discussão: “Faça isso por mim”, ela pediu, ainda com os olhos molhados.

Então ela tirou a bolsa do pescoço dele, delicadamente. Ele não falava nada. “Eu te espero exatamente aqui, neste ponto”. Ele continuava calado. Virou sem olhar pra trás e caminhou até o primeiro segurança.

Ela acompanhou todo o processo novamente. Ele foi revistado, deu alguns passos em direção à arena, tentou achar o rosto dela em meio as pessoas lá de fora. Com dificuldade, conseguiu a ver por um pequeno vão entre várias cabeças. Jogou um beijo apertado e saiu correndo feito criança em dia de Natal.

Ela pôde ver ele sendo engulido pela platéia. E continuou parada bem ali, conforme o combinado, no ponto em que ele a deixou. O vento voltou a soprar. Ele curtindo o show lá de dentro, pensando nela, lá fora. Ela curtindo o show lá de fora, pensando nele, lá dentro.

Uma hora se passou. E os primeiros acordes de uma das músicas preferidas dos dois começaram: “House of cards”. Ela abaixou a cabeça, fechou os olhos, e começou a cantar baixinho, tremendo de frio.

Mal pôde acreditar quando ouviu os passos dele, correndo em direção a ela e dizendo ao seu ouvido: “Eu não conseguiria ouvir essa sem você”.

E continuaram a “assistir” o show dali, passando frio juntos, dançando agarrados ao som que vinha de longe. Afinal, o que é o amor senão um eterno teste de cumplicidade?

Jun/2008

(*) Esta história é real e aconteceu ontem, no show do Radiohead.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.