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A menina observava o grande e brilhoso quintal, em um dia quente de fevereiro. Agarrada a uma boneca suja e descabelada, ela passava horas brincando naquele ambiente, que reconhecia como palco da sua ainda pequena e simples vidinha. Enquanto isso, ao som chiado de uma rádio AM, sua mãe esfregava o chão do banheiro. Era apenas o começo do dia de faxina da mansão de uma das suas três patroas.
Joyce tinha sete anos e estava radiante, pois aquele seria o seu primeiro dia de aula. Com uma roupinha surrada e os cabelos cuidadosamente amarrados por duas marias-chiquinhas, ela contava os minutos para finalmente ir à escola. Não sabia ver as horas, mas distinguia os períodos do dia pelo cheiro que a casa exalava ao passar dos segundos. Cheiro de café era bem cedinho. Cheiro de cândida, os primeiros passos da limpeza. Cheiro de feijão cozido: hora de ir embora, para o segundo turno do dia em outro casarão que ficava a duas ruas acima daquele bairro nobre.
Diariamente às dez da manhã, Dona Monique descia para o desjejum. Essa hora tinha cheiro de suco de laranja fresco e bronzeador importado: ela não abria mão do solzinho da manhã. Alheia a toda a movimentação da casa, Joyce continuava conversando com a sua bonequinha, mas não descuidava um segundo sequer dos sinais olfativos que a sua mãe silenciosamente enviava. Joana, a essa altura, já estava atrás de uma grande pilha de roupas para passar.
Era quarta-feira, e, como de costume, este era um dia bem estressante para Bárbara, a caçula da família. Este era o dia que tomava aulas particulares de piano, a contragosto, obrigada pelo pai. Descia sempre para a sala principal aos berros, ainda de pijama e meias, como se estivesse sendo castigada pela vida. Em vão, tentava convencer a mãe: eu odeio isso! Eu odeio essa professora! Eu odeio você! Insensível às ofensas da filha, Monique buscava com irritação o telefone da manicure no seu celular, por detrás dos imensos óculos escuros Prada.
Mas o barulho que a menina fazia era tanto, que acabou despertando a atenção de Joyce. Em tempo: um delicioso cheiro de feijão cozido saía da cozinha. Tomada por uma enorme euforia, ela largou a boneca no chão e saiu ao encontro da mãe. Depois de um longo e inesperado abraço, disparou: “Mãezinha, chegou a hora!”. Com um largo sorriso, Joana abandonou delicadamente o avental sobre a mesa da cozinha e acariciou os cabelos da filha.
- Dona Monique, até amanhã. O almoço já está na mesa.
- Obrigada Jô. Tô sem fome. Essa menina me tira do sério.
Pela grande janela de vidro que separava a copa do jardim central, a patroa observava mãe e filha indo embora, unidas, dando risadas. Juntas, contavam as moedas para a próxima condução e davam instruções para a boneca descabelada, pedindo que se comportasse. Afinal de contas, era dia de estudar.
Out/2007

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