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Eu tenho medo de casar. É, sempre tive. Na verdade, sempre me senti um pouco anormal por não sonhar com vestido de noiva, daminhas e pagens espalhando pétalas de rosa pelo meu caminho, votos de compromisso e trombetas angelicais.

Aliás, toda vez que ouço a marcha nupcial em casamentos eu sofro fisicamente, o que se resume a um misto de frio na barriga e enjôo. Temo pelos dois pobres coitados que estão entrando na igreja, e não consigo controlar o bombardeio de mau-agouros que rondam minha cabeça: o que será que eles estão pensando neste momento? Que ficarão MESMO juntos até que a morte os separe? Que respeitarão um ao outro na tristeza e na alegria? Que a vida de casados vai ser romântica e regada à libido?

Pra mim é nítido que essas pessoas estão jogando dinheiro fora, uma vez que, com toda certeza, vão se separar. Durante estes eventos, eu sofro. Muito. E na hora do buquê então? Nestes momentos, geralmente estou do lado oposto do burburinho, olhando com cara de desprezo as solteironas que se acotovelam pagando micos homéricos.

Vestido de noiva? Acho tudo igual. O neurônio feminino que distingue, há quilômetros de distância, um vestido com um bom corte de um vagabundo, não habita meu cérebro. No tal grande dia, sou capaz de achar que tanto a minha vizinha quanto a Lady Di têm o mesmíssimo aspecto. Quando o assunto é casamento, eu penso como homem m-e-s-m-o, porque, pra mim, ele se resume a três palavras: fim da linha.

Ao contrário do que possa parecer, não julgo os que sonham casar, nem a festa, nem o vestido, nem nada. Só nunca quis pra mim. A verdade é que eu sempre gostei da solteirisse. E a questão não era poder ficar livre pra pegar quem eu quisesse, mas sim para FAZER o que eu quisesse, sem me preocupar se vou magoar alguém ou ter que dar satisfação pra onde vou. Como sempre fui amante da dança, preferia dançar a namorar.

Minha mãe cansou de rezar pra Santo Antônio pra que eu mudasse de idéia, afinal, a vida toda ela me ouviu dizendo que não casaria. Eu sempre a tranqüilizava dizendo que, para mim, “solteira” não é sinônimo de “encalhada” ou “sozinha”. Eu sempre ressaltei que, caso viesse a envelhecer só, jamais seria triste, afinal, eu sei ser feliz comigo mesma.

Não era um discurso feminista, era sincero. Mesmo porque nunca descartei a hipótese de encontrar alguém de verdade (alou, eu gosto de homem!), eu só não procurava. Tanto que meu discurso, embora profético, sempre acabava com um tom animador: “Mãezinha, se aquiete. Quando eu encontrar alguém que tenha a minha cara, não vou ficar enrolando, namorando, noivando…vou me juntar rapidinho, você vai ver.”

E como tudo que a gente joga pro planeta realmente acontece, tou eu aqui, mais casada do que nunca. Aconteceu tudo como eu planejei, mesmo que sem querer. Eu conheci o Dan e, com seis meses de namoro estávamos morando juntos, e assim estamos até hoje – dividindo contas, problemas e muitos, muitos momentos bacanas. Isso não é casamento? Bom, pra mim é. Mas pras nossas católicas famílias, não. Lógico que elas anseiam por uma festança que marque esta passagem, que pra mim já aconteceu faz tempo.

Como eu não sou louca de contrariar minha gordinha, resolvi começar a pensar na possibilidade. Comprei então uma revista de noivas, pra ver se eu me animava (nem eu acreditei). Comecei a ficar assustada já na banca, quando a moça que me atendeu abriu um enorme sorriso e passou a falar com a voz da Sandy quando eu disse que estava pensando em me casar. Ao abrir a revista, fui direto ao editorial, pra ver o que tinham a me dizer. Tenho certeza que 99,9% das noivas não lê nem a primeira frase desta seção, afinal, oras bolas, o que importa são os vestidos!

Choquei com algumas frases do tipo: “um vestido de deixar todo mundo de boca aberta e ser comentado ao longo de todo o ano” e  “cheirinho de amor e sabor de chocolate com morango”. Meu, é muita melação pra uma coluna só, desculpa. Folheei apressada e impaciente e, assim que cheguei em casa, arremessei a revista no criado-mudo, lugar onde ela está até hoje, empoeirada.

Meses se passaram e eu dei um “abafa o caso” no assunto, mas pra minha falta de sorte ele voltou a tona em grande estilo. O irmão do Dan casou no último final de semana, como manda o figurino. Nem preciso dizer que o evento passou a ser a desculpa perfeita pra todo mundo nos cobrar em tom de brincadeira sobre a oficialização.

Tudo estaria bem se eu fosse uma pessoa que cagasse pra minha família e pros meus amigos. Se eu ignorasse o fato de que minha vozinha provavelmente iria morrer de emoção no meu casamento, que minha mãe ia se sentir plenamente realizada, que todos os meus amigos ficariam extremamente felizes – tantos foram os que acompanharam de perto minha história com o Dan e torceram intensamente.

Então eu mesma passei a me cobrar. Por que tenho tanto medo de casar? Comecei a puxar na memória e, apesar de achar que isso é caso pra terapia, existem alguns indícios bem óbvios.

Um dos motivos é o fato de eu ser bastante independente mesmo. Não consigo me lembrar de um dia que deixei de sair por falta de companhia. Meus pais sempre foram muito liberais comigo, e isso fez com que, na adolescência, eu tivesse algumas vantagens em relação às minhas amigas – ir às matinês, viajar, passear. Então eu tinha que escolher: ou esperava as raras vezes em que eram liberadas pra sair, ou eu ia sozinha. Eu optava por ir sozinha.

Outro motivo é a bagagem mesmo. Conheço tantos casais que eu julgava perfeito e que o casamento desgastou…que só de pensar nestes exemplos me dá mais medo de colocar a aliança…

Em meio a essa história toda, minha avó materna completa 80 anos este mês. Como jornalista da família, fiquei responsável por fazer o vídeo que irá homenageá-la na festa. Deparei-me com a certidão original de casamento dela, além de lindas fotos de momentos alegres dela ao lado do meu avô.

Ela teve a sorte de se casar com o homem que amava em uma época em que os pais escolhiam os maridos. Ele era um moreno bonito, falador e muito carismático – não é à toa que eles ficaram juntos por mais de 50 anos. Quando ele faleceu, ela poderia ter arrumado outra pessoa, mas não quis. Pra ela “não existe outro Tião no mundo”. Até hoje, quando fala dele, abre um sorrisão apaixonado.

Do alto da minha teoria sobre casamentos mau-sucedidos, me senti bem idiota. Sempre achei que quem se “entrega” ao casamento não sabe direito o que está fazendo, mas descobri que é justamente o contrario. A cagona da história sou eu. Quem decide apostar em um compromisso sério definitivamente é alguém corajoso, que quer viver intensamente, dure o tempo que durar. Ninguém casa pensando que vai acabar um dia, mas, se vier e acabar…qual o problema? Pelo medo de acabar não vale tentar?

Acho que só o fato de acreditar já é um mérito. Quantas coisas deixaríamos de fazer por medo? Chego à conclusão que, neste caso, vale mais a pena remediar do que prevenir. Mesmo porque a aliança é só um simbolismo pra um casamento que já existe, dentro da alma e do coração. Com ou sem aliança, o que importa é viver sem economizar sentimentos, palavras e emoções, fazendo valer o “sim” dia após dia. Taí minha vozinha pra confirmar: amar vale a pena.

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Vó Nena e Vô Tião, que dançaram juntos por mais de 50 anos

Pergunto eu, neste momento, o que um ser humano com idade acima dos cinco anos, pensa ao escrever um texto com um título desse. A resposta é simples: tirei férias! =D Pois é, depois de quase dois anos sem sair de cima, consegui dez dias que, por serem tão breves, prefiro chamar de “raríssimos momentos para reflexão”, rs. E agora cá estou, na madrugada do meu penúltimo dia de descanso, fazendo o balanço do que se passou.

Na verdade dessa vez eu fiz questão de não programar nada muito radical, exótico, turístico, histórico ou adrenalínico (inventei essa palavra). Isso porque, quando voltei de Londres, em agosto do ano passado, não tive tempo nem pra respirar antes de voltar à vida real. Dois dias depois de desembarcar, já estava trabalhando – e na mesmíssima cadeira de onde saí quase sete meses antes. Olha, tava até quentinha viu…posso dizer que esse choque pós-retorno serviu pra confundir e pra organizar ao mesmo tempo, mas hoje até que meu fuso já voltou ao normal. Ainda mais depois da minha viagem ao túnel do tempo que vivi nesses dez dias.

Como eu ia dizendo, optei por não sair de SP. Queria aproveitar meus dias para fazer coisas simples: ficar na casa da minha mãe, passear com a minha cachorra, almoçar sem pressa (degustando uma deliciosa comidinha caseira), andar a pé pelo meu bairro, etc. Também aproveitei pra fazer aquelas coisas que, por mais que se programe, nunca saem. Do tipo visitar a Pinacoteca de São Paulo sem pressa e com tempo até pro cafezinho. A essa altura do meu cansaço, acreditem, até uma consulta médica virou passeio. Marquei três especialidades num dia só (rs) e ainda aproveitei pra almoçar no Mac e bisbilhotar as promoções lá da minha terrinha, São Caetano do Sul, a terra do nunca, rs.

Só que nesse meio tempo minha ilustríssima mãe resolveu organizar tudo pra irmos pra Maringá-PR, onde ela nasceu, foi criada e deixou pra trás aos 17 anos quando resolveu que queria algo mais – lórrico que ela veio buscar em SP. Essa história é longa e rende não só um post, mas um livro, então vamos direto à conclusão – passei toda a minha infância no lá-e-cá. Ela sempre deu um jeitinho de encaixar nossas rotinas de modo que vivenciássemos feriados, digamos, mega-familísticos, junto com nossos primos, tios e avós. Como nunca tivemos dinheiro de sobra, o jeito era pegar o busão na Barra Funda e bora encarar as oito horas rumo a mais uma sequência de dias de sol quente e muita folia. Sim, porque minha família é grande e festeira!

Essas circustâncias fizeram com que eu passasse a gostar, do fundo do meu coração, da idéia de viajar de ônibus. Afinal, desde muito pequenininha estou na estrada (no bom sentido, gente! rs). Tanto que, pra mim e pra minha irmã, essa rotina era sinônimo de festa. Tínhamos um ritual que ia mudando com o tempo, de acordo com o nosso tamanho e idade mental (esse último não evoluiu muito). Lembro que eu mal pisava no busão e já queria arrancar fora meu par de tênis. Minha mãe sempre escolhia os dois bancos da frente, justamente por apresentarem uma pequena vantagem de espaço em relação aos demais, e fazia uma “caminha” pra eu deitar.

Mas o mais legal era a sacolinha de guloseimas que ela preparava. Tinha um pacote de Fandangos pra cada uma, uma lata de refrigerante e, às vezes, uma caixa de Bis. Era incrível comer toda aquela baboseira em plena madrugada – uma verdadeira balada para nós, crianças.

Então cresci mais um pouquinho e acrescentei um item à minha mochila: o meu tão sonhado walkman. Ele era lindo e sempre tinha a mesma fita k7 dentro. Que os alternas / roqueiros / punks / emos que lêem esse blog me perdoem, mas nessa época o que me conduzia pelas oito horas de viagem era a mais pura e genuína música sertaneja. Não que eu tenha que me desculpar por algo, mas sei o quanto já fui tachada de tosca por isso. Mas raíz é raíz e quando eu chegava lá ouvia mais música sertaneja, com direito à roda de viola, bailão, churrasco e cerveja. E eu adorava. Esses dias eram mesmo inesquecíveis, especialmente as férias.

maringaPra quem não conhece, essa é Maringá! A cidade mais arborizada que eu já vi de perto.

Embora em muitos aspectos tenha sido modernizada, Maringá tem coisas que parecem ter parado no tempo. Dá pra se notar isso especialmente nos bairros mais antigos, onde ainda existem muitas casas feitas de madeira. Os muros são baixos, os portões servem não mais do que para separar a casa da rua, não há preocupação com segurança. A maioria dos quintais têm árvores frutíferas, principalmente mangueiras, e no verão seus frutos colorem o chão ao despencar e espalhar um cheiro cítrico adocicado pelo ar. As varandas têm umas cadeiras de plástico trançado, que eu só vi até hoje por lá, e sempre são nas cores azul, vermelha ou verde. A terra é cor de fogo e esta também é a cor dos pés das crianças.

Lá, eu tinha a oportunidade de vivenciar coisas que eu não via por aqui, na “cidade grande”. Minha vó tinha horta. Moía café na hora pra gente tomar. Fazia muitos, mas muitos pães caseiros cilindrados manualmente, e os desformava quentinhos na mesa comprida com uma penca de netos em volta, fazendo a maior bagunça na hora de comer. E ela nem brigava. Com o seu jeitinho sereno, passava horas sentada à maquina de costura. Muitas vezes eu inventava modelitos e pedia pra ela fazer pra mim, era muito divertido… nós éramos uma dupla e tanto!

Eu e a penca de primos aprontávamos até. A gente tomava banho de mangueira no quintal, subia nas árvores enormes que compõem lindamente a paisagem de Maringá, pulava corda no meio da rua que não tinha problema nenhum. Quando a gente terminava de almoçar, minha mãe descascava laranja praquele bando de criança, e, quando tinha melancia, era guerra de caroço na certa. A mania de fartura beirava o exagero e, quando minha mãe ouvia o carrinho do sorvete, pedia pro moço descarregar logo uns trinta picolés de frutas, daqueles bem baratinhos, que faziam a nossa alegria. Foram férias lindas que nós vivemos juntos, muito simples e felizes.

Quando eu voltava pra SP, sentia um misto de coisas. Eu SEMPRE chorava ao deixar minha vozinha, pois ela é minha segunda mãe. Minutos depois eu já estava um pouco melhor, ao entrar no ônibus, pois sabia que ele ia “pingar” nos municípios vizinhos e eu adorava ficar observando as casinhas, as pessoas, o comércio local. Eu filmava tudo e ficava imaginando como era a vida daquelas pessoas em cada uma das cidadezinhas.

O céu era tão forrado de estrelas que não dava nem vontade de dormir! Com muito custo eu adormecia e, horas depois, acordava na Marginal Tietê, MUITO puta da vida, descabelada e com bafo, rs. Era a volta à vida real. As férias tinham acabado e eu tinha saído de uma cidade linda, com violência ZERO, sem trânsito nem poluição, pra desembarcar em um lugar totalmente oposto, fedido, entupido de gente. Argh. Mas aí eu chegava no meu prédio e ficava feliz de novo, reencontrava meus amigos, ouvia as novas gírias nascidas durante o mês de férias, retomava minha rotina.

Esse ciclo sem fim de indas e vindas durou até eu começar a trabalhar. Como peguei na lida cedo, as férias enormes também passaram a se resumir a escassos feriados, divididos entre amigos, namorados, trabalho, emprego novo, trabalho, início de estágio, faculdade, trabalho, trabalho, trabalho. Também passei a ouvir outros tipos de músicas, não só as sertanejas, e a viajar pra outros lugares, não só pra Maringá. E não adianta se lamentar, isso faz parte da vida. As férias escolares entram pra história mas o que importa mesmo é guardar a essência e resgatar esses momentos sempre que possível.

Felizmente, consegui fazer isso depois de muito tempo. Felizmente, ainda posso ver minha vózinha – uma mulher forte de voz mansa – à beira da máquina de costura. Vê-la fazer minha comida preferida, ouvindo música sertaneja e dançando no meio da cozinha. Felizmente, percebi nessas férias que independente do mundo ao meu redor ter mudado bastante, minha essência não mudou. Essa simplicidade ainda me faz tão bem, que é mais rica do que qualquer viagem pelo mundo afora, financiada em euros.

Eu ainda como Fandangos durante a viagem, não espero nem o motor ligar pra tirar o tênis e amo, simplesmente amo observar as cidadezinhas pela janela. Eu ainda choro de amor pela minha vozinha, faço as mesmas solicitações gastronômicas a ela e à minha mãe e fico feliz ao ouvir a musiquinha do Jornal Hoje, pois ela me remete diretamente às minhas férias em Maringá, já que na vida real eu nem passo perto da TV durante o dia. E, com uma diferença aqui e outra ali com um primo ou um tio, ainda prezo muito, muito pela família.

Por mais que eu tenha aprendido por aí, a minha base mais primária foi costruída nesses momentos, junto com a turma da mesma “laia” que eu. É engraçado eu escrever tudo isso dois dias depois de ir ao show do Radiohead, que é uma referência oposta à toda essa atmosfera sertaneja que eu descrevi acima. E é por isso que reafirmo que esses poucos dias de férias me fizeram tão bem. Pra me mostrar que independente do lugar ou da trilha sonora, o que importa é estar perto de quem a gente ama. A trilha que embalou meu domingo foi Creep. Mas a trilha que embalou minhas férias foi uma canção bem menos complexa, apresentada a mim pela minha mãe, que mostra muito bem o quanto a felicidade tem tudo a ver com simplicidade.

Deus e eu no sertão

Victor e Léo / Composição: Victor Chaves

Nunca vi ninguém
Viver tão feliz
Como eu no sertão

Perto de uma mata
E de um ribeirão
Deus e eu no sertão

Casa simplesinha
Rede pra dormir
De noite um show no céu
Deito pra assistir

Deus e eu no sertão

Das horas não sei
Mas vejo o clarão
Lá vou eu cuidar do chão

Trabalho cantando
A terra é a inspiração
Deus e eu no sertão

Não há solidão
Tem festa lá na vila
Depois da missa vou
Ver minha menina

De volta pra casa
Queima a lenha no fogão
E junto ao som da mata
Vou eu e um violão

Deus e eu no sertão

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