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Para todos que se emocionaram e até derramaram lagriminhas lendo o post “Sucesso de público e crítica“, devo uma satisfação, certo? Pois bem: sim, eu fui no show do Radiohead! Foi incrível poder escutar ao vivo a trilha sonora que mais marcou minha estada em Londres.
Bem, pra quem não leu, acho bom ler! Pra quem está com preguiça, vou resumir em poucas palavras. Eu e meu namorado estávamos em Londres quando o Radiohead deu início à sua nova turnê, no ano passado. Milagrosamente, dois ingressos caíram na nossa mão (ficou curioso sobre como isso aconteceu? Leia! Rs) e a máquina fotográfica dele, com uma lente nada discreta, nos impediu de entrar. Depois de muito chororô e vou-não-vou, o convenci a aproveitar a oportunidade, já que ele é fã da banda a muito mais tempo do que euzinha aqui.
Em resposta ao meu gesto, assim que as abriram as vendas aqui no Brasil ele foi correndo comprar dois ingressos. Ele queria um desfecho pra esse enredo, porém, nós dois sabíamos que aquele dia já tinha entrado pra nossa história de uma maneira muito bonita.
E lá vamos nós, chegar muitas horas antes pra garantir um lugar no estacionamento da Chácara do Jockey e previnir qualquer possibilidade de erro! Felizmente, dessa vez não teve tragicomédia – tudo deu certo! Ao comecar pela organização do show, que me surpreendeu positivamente. Não vi nenhum tipo de confusão e todas as bandas entraram britanicamente na hora marcada.
O Los Hermanos levou a galera à loucura com a festejada apresentação depois de dois anos de distância. Especialmente quando o Amarante se despediu com um reticente “Até breve”. Já sobre o Kraftwerk não tenho muito o que falar, pois não fui apresentada a eles anteriormente, rs. Ou seja, pra mim eles tocaram uma única música! Mas visualmente achei bem legal o show, com vídeos que, combinados ao som, davam um certo “barato”.
Com relação ao Radiohead, nem tenho palavras…simplesmente voltei no tempo. Parece que faz uma década, mas lembro de cada detalhe. Diferentemente do show em Londres (que eu só ouvi, rs), achei o Thom Yorke bem interativo! Ensaiou palavras em português – as clássicas “boa noite” e “obrigado”- e, quando o público continuava a cantar uma música já terminada (do tipo “queremos mais”), ele emendava e a banda vinha junto.
Novamente ele deixou “House of cards” pro final e foi nessa hora que a bichisse prevaleceu e eu me pus a chorar. Só que, dessa vez, abraçada ao Dan DENTRO da arena. Pra fechar o show, eles escolheram “Creep”. Embora para muitos essa música soe como a “Anna Julia” deles, pra mim foi uma surpresa muito boa, um verdadeiro grande finale pro meu enredo. Capítulo concluído: mais um pra entrar pras histórias que marcaram minha vida e que fazem tudo ter mais sentido.
Como não quero mais choradeira por aqui, escolhi uma mais “alegrinha”, ok? Pra mim essa é a melhor do disco.
Quem pega o metrô de Londres tem acesso gratuito a três jornaizinhos diários: o Metro (que é publicado em vários países), o London Paper e o Lite. O primeiro é um Notícias Populares, se expremer sai sangue. Os dois últimos concorrem pra ver qual consegue colocar as fotos mais bizarras das celebridades em seus bafões na noite londrina, com direito a bebedeira, tombos, aparições de calcinhas (ou a ausência delas), novos affairs, entre outros. Eu sidivirto a lot.
Mas a artista que eu mais vi estampada na capa dos jornais daqui, sem dúvida alguma, foi a Amy. E a overdose (sem trocadalhos) da aparição da moça se estende à imprensa brasileira com algumas horas de atraso, quando o que era notícia no jornalzinho daqui no fim da tarde vira manchete do Ego, Quem, Uol e outras publicações com suas editorias das celeb’s.
Fazendo um balanço do que eu li, concluo que definitivamente não é legal acompanhar TÃO de perto a vida de um artista. Atire a primeira pedra quem não curte uma fofoquinha (ADOURO), mas pra mim já passou da conta. Nos últimos meses, os jornais noticiaram que ela usou todas as drogas que existem no planeta, bateu em fã, paparazzi e até no próprio segurança, conversou com filhotes de rato (cena bizonha), fugiu de casa, foi internada com enfisema pulmonar e saiu do hospital fumando umas dez vezes…enfim, taaanta exposição…pra quê?
Teve uma que também me chamou bastante atenção. Foi quando ela divulgou um vídeo zoando negros, paquistaneses, orientais e japoneses, fazendo paródia com uma música infantil. Fez isso pra atacar os milhares de imigrantes que vivem em Londres (oi? engordo as estatísticas?). Tudo bem, ela pediu desculpas depois, e, até eu, que não sou daqui me irrito com essa invasão…mas peraí, né?
Mas o cúmulo pra mim é quando eles publicam aquela foto com close na napa da coitada contendo “substância-branca-duvidosa”. Ah, façameofavor, né! Não foi uma vez que eu vi isso, foram inúmeras. Quer coisa mais deprê do que acompanhar, diariamente, as novidades quentíssimas de um depende químico?
Só ressaltando: eu adoro a Amy. Mas pra mim ela já virou um caso de segurança pública. Porque assim, ok achar uma artista sensacional. Mas acompanhar ela batendo em pessoas, incitando o preconceito racial ou conversando com filhotes de ratos, definitavamente não é da minha conta. Eu tenho medo do que este tipo de fenômeno pode causar.
Fora o desrespeito com o ser humano, por trás da artista, em recuperação. É nítido que a mídia esqueceu o que é bom senso faz tempo. E isso é tanto no Brasil, com os casos Isabela da vida, como na Inglaterra, com os rehabs.
Acima de tudo, acredito na recuperação da Amy! Talvez seja muito polianismo (polianismo: termo cunhado por mim mesma para descrever o altíssimo nível de otimismo que eu tenho com, irritantemente, quase tudo) da minha parte, mas acho que se ela saísse dessa poderia tentar ser uma resposta a tantos ídolos que só se tornaram mitos depois da overdose fatal.
Essa semana ela deu uma sumidinha da mídia e eu até senti falta, rs. Prefiro acreditar que ela está do lado do super-papy se recuperando. E já que eu trombei com ela estes dias, resolvi mandar umas verdades:
Amy, sua fanfarrona, não morre não, pôooorra! Esquece o Blake que agora é hora do…cafunéeee!
Uma coisa que eu acho muito bacana aqui em Londres é a singela capacidade de homenegar aqueles que morreram de maneira brutal e sem possibilidade de defesa. E nem é preciso ser super observador para encontrar este tipo monumento e entender o peso de cada um. Com poucas palavras, eles dizem muito. Um dos primeiros que me chamaram a atenção foi este aqui:
Trata-se de uma homenagem aos animais que morreram em guerra. A frase “They had no choice”, esculpida no muro, é uma cassetada e, na minha opinião, representa a imbecilidade do homem ao longo das guerras e suas consequências. Pobres animaisinhos. =(
Já no Museu de Londres, logo na entrada, as pessoas dão de cara com fotos do atentado de 7 de julho de 2005, no qual morreram pais de família, imigrantes, crianças, jovens…Um livro grosso exibe fotos e com a história de vida de cada um, além de gostos e objetivos pessoais, depoimentos da família e a trajetória no fatídico dia. Uma forma de manter viva a memória destas pessoas inocentes.
Estes são apenas dois exemplos, mas, andando pela cidade, é possível fazer algumas boas descobertas neste sentido. Caminhando pela City, bairro onde tudo começou por aqui (onde você encontra arquitetura do século 19 ao lado de gigantes prédios modernos e espelhados), me deparei com um pequeno portãozinho de grades pretas, que dava acesso a um jardim colorido ao redor de uma fonte.
Fui entrando e notei algumas pessoas tirando fotos de uma parede repleta de azulejos. Pintados à mão, traziam histórias de pessoas comuns que morreram heróicamente. E o que mais surpreende: as mortes datam do ano de 1800! São crianças que morreram inocentemente tentando salvar os próprios amigos, um senhor que livrou uma mulher doente mental do suicídio na linha do trem, um irmão que salvou a irmã do incêndio na própria casa…muito emocionante.
Saí de lá me perguntando quando no Brasil iremos nos comover pela morte dos que morrem inocentemente. Vítimas da violência, da ganância, do sistema precário de saúde. Reflexão do dia: como se livrar da anestesia que nos submetemos para nos defendermos? Perguntinha difícil, se alguém aí tiver a resposta, me conte, porque eu também ainda estou tentando achar um jeito de ler as notícias e parar de fingir que tudo está indo bem.
Hoje foi um dia atípico, eu diria. Abri meus e-mails, nada urgente pra fazer. Meu período de estudos por aqui está se esgotando e eu não poderia perder, dentro de casa, um dos seis dias de sol que ocorrem anualmente em Londres (rs). Coloquei algumas apostilas e livros dentro da mochila e saí rumo a algum parque, ainda sem saber qual.
Desci do metrô na Oxford St., uma das principais vias comerciais da cidade. Era cedo, mas as ruas, como sempre, estavam cheias. Turistas com suas máquinas fotográficas disputavam espaço com consumidores e sacolas.
Passei em um café e, enquanto esperava na fila, pude ver inúmeras grades que isolavam um grande trecho em construção. Justamente em frente ao parque escolhido. Fiquei um pouco puta ao saber que eu teria que dar uma enorme volta para acessar o portão de entrada. Respirei fundo, olhei para o céu, limpinho, e pensei que realmente não valeria a pena esbravejar.
Andei por alguns metros e parei no meio da larga e arborizada avenida, mas o farol seguinte parecia inabrível (inventei essa palavra). Foi aí que olhei para o lado e vi uma simpática senhorinha. Eu não sei explicar exatamente por que mas, muitas vezes, consigo sentir se a pessoa tem uma energia boa ou ruim à primeira vista. Quando é ruim, ignoro. Já quando é boa, eu sempre dou um sorrizinho, que, normalmente, é recíproco. Soa meio hare krishna isso, rs, mas pra mim é fato.
E foi exatamente o que aconteceu. Ela respondeu positivamente. Olhei pra frente. Homenzinho vermelho no farol. Olhei de novo pra ela e, para minha surpresa, em se tratando de Looondooon, ela puxou papo: “Você tem aproveitado bem o verão, não?”. Eu dei risada e disse: “Na verdade não, mas estive em Barcelona na semana passada e fazia 35 graus. Só de andar pela cidade peguei essa cor.”
Ela emendou: “Você fala espanhol?”. “Não, falo português, sou brasileira”. Então ela me perguntou desde quando estou aqui e por que, e eu disse que a estudo e desde janeiro, e foi aí que a veínha conquistou meu coração: “Really? Because your English is very good!”.
“Não é possível”, pensei. No dia anterior eu estava justamente em um conflito a respeito do quanto efetivamente evoluí no idioma durante este tempo todo, considerando desenvoltura, gramática, entonação…e, especialmente, no quesito cara-de-pau. “Estou indo pra aquele lado. Você vai pra lá?”. Respondi sem pensar: “Sim!”. “Você se importa de andar na sombra?”, ela sugeriu. Pronto. O convite estava feito. Eu acabava de ganhar uma amiguinha.
O mais engraçado é que em seis meses de Londres eu não fiz uma única amizade. Tenho preguiça de falar com os brasileiros que vivem aqui. De novo, odeio generalizar, mas, no geral (hahuhahauahuahuahahua) todos falam dos MESMOS fucking assuntos: tô ganhando tantos pounds por hora, não aguento mais compartilhar casa com 15 pessoas, ontem saí e só pude tomar 2 pints porque essa cidade é caríssima, zzzzzzzzzz.
Já com os simpáticos britânicos, nem preciso comentar, né? Primeiro porque nem vejo eles (seria mais fácil fazer amizade com um colombiano, indiano ou turco, porque a cidade TÁ-DO-MI-NA-DA por imigrantes), segundo porque né…eles nem de conversar gostam, rs. Mas o fato é que, ironicamente, a três semanas de voltar pra casa, fiz minha primeira amizade. Uma senhorinha de 64 anos.
Ela usava saia preta até o joelho, uma discreta camiseta branca e um elegante terninho. Tinha um rosário azul-turquesa amarrado ao pulso, terminando em um crucifixo prateado que refletia à luz do sol. O batom era laranja escuro e manchava dois dos seus dentes da frente. Tinha também um par de óculos daqueles que toooda tiazinha e tooodo tiozão A-DO-RAM, com lentes de grau que escurecem ao sol. Um luxo.
Fui seguindo a minha nova companheira sem saber ao certo pra onde estava indo e, aos poucos, ela foi me contando coisinhas sobre a sua vida. Nada muito pessoal, mas, para um primeiro encontro, achei até que ela me confiou histórias bem interessantes. Me contou que é irlandesa, que nunca teve filhos e que o seu ex-marido mora na França. Disse também que, recentemente, reencontrou seus amigos de escola depois de décadas de distância. E que agora eles se visitam com freqüência. Contou ainda que é viciada em TV e dirige até hoje. =0
Eu também falei algumas coisas sobre mim, e, a cada preposição comida ou verbo mal-conjugado, ela me corrigia elegantemente. Tinha um inglês perfeito, falava entre pausas e pontuava as frases com delicadeza, me chamando sempre de “darling”. Como se fôssemos velhas conhecidas.
Depois de uns 20 minutos andando, perguntei pra onde estávamos indo. Ela apontou pra um monumento que eu nunca tinha visto, afinal, estava bem escondido no meio de um imenso campo verde. Era um pequeno pedaço de mármore preto, cravado na grama, com algumas inscrições em dourado. Na frente da pedra, havia poucos vasos, porém com flores bem vivas e coloridas.
Perguntei: “O que é isso?”. Ela disse: “Leia. Você é capaz”. Ops!?! Fiquei encantada com a capacidade dela me incentivar a usar meu inglês sem me tratar como uma criança de 4 anos ou me fazer parecer ridícula – coisa que não acontecia na escola.
Ela colocou a bolsa no chão com cuidado e tirou duas garrafas pet com água limpa. Então começou a regar as plantinhas que lá estavam. Ao ler a inscrição, descobri que se tratava de uma homenagem a quatro cavaleiros do Buckingham Palace que morreram em um ataque terrorista em 1982.
Com certo medo da resposta, não pude segurar: “Você conhecia algum deles?”. E ela: “No, darling”. Em seguida, me explicou que os terroristas eram irlandeses (muito provavelmente, suponho eu, do IRA – Irish Republican Army), e como ela era irlandesa, regava as flores sempre que podia.
Eu já tinha ganhado meu dia ali, diante de tamanha sensibilidade em um gesto tão simples. Mas que nada! Ela se sentou comigo debaixo de uma árvore e ficamos por pelo menos mais uma hora conversando. Ela me deu dicas riquíssimas, sobre inglês e sobre a vida, que vou levar pra sempre comigo. Repetidas vezes me falou a respeito de alguns livros que eu TENHO que ter perto de mim, pra treinar o idioma. Me deu até a livraria onde eu poderia encontrá-los, colocando a mão na testa e fazendo força pra puxar na memória o nome da tal loja.
Seria piegas falar que eu aprendi muito ouvindo uma senhora de idade, mas pra mim essa experiência serviu pra confirmar que, definitivamente, as coisas não acontecem por acaso. Ganhei uma aula particular, de primeiríssima qualidade, exatamente um dia depois de me questionar a respeito da minha evolução neste período.
Pude perceber que, mesmo com um erro ali e outro aqui, entendi e consegui me fazer entender. Acima de tudo, vi que todo o esforço feito aqui em Londres durante estes seis meses foi mesmo válido. Estudei inglês e, de brinde, ganhei uma boa dose de maturidade também.
Ela pegou meu telefone e disse que me ligaria caso não fosse visitar o ex-marido em terras francesas. “Moderninha, hum?”, pensei. Ela se mostrou uma mulher livre, que soube e ainda sabe tirar o melhor do que cada fase da vida pode trazer. Não tem filhos e é divorciada, mas nem por isso se sente carente, amarga ou sozinha. Ama viver, ama a casinha dela, ama ver TV, ama as árvores do parque. Ama compartilhar.
Ao final da conversa, ela se levantou (ao contrário do esperado, sem nenhuma dificuldade) e, com ar de autoridade, me perguntou: “Qual é a primeira coisa que você vai fazer mesmo, ao sair daqui?”. “Comprar os livros que você me recomendou, é claro!”, respondi, obediente. Seu ar de satisfação foi coroado com um sonoro “Well done, darling”. Eu sorri.
Antes de ir embora, me perguntou: “Você gostou desse tempo que passamos juntas”?. “Não tenha dúvida que foi a melhor aula que eu tive em Londres”, eu disse. “Então eu espero que a gente possa se encontrar novamente”, ela se despediu, pegando o rumo de casa.
Sentei novamente debaixo da árvore e fiquei só observando…aquela senhorinha sumindo no meio dos enormes troncos do Hyde Park. Demorei alguns minutos para processar tantas informações que ganhei de presente em nosso primeiro e talvez único enconto. Tentei abrir uma das apostilas e estudar, mas não consegui. E afinal de contas, pra quê? A lição do dia já havia sido mais do que aprendida. Sem sombra de dúvida, valeu ter vindo pra Londres.
A dor de cabeça e o enjôo no estômago começaram no dia 30 de junho, quando pisei pela primeira vez na University of the Arts London, onde eu faria um curso de férias chamado “Creative Writing”.
Como boa ariana que sou, tenho a péssima mania de comprar brigas, sempre. Achando meeesmo que vou ganhar (há, há, há). Sempre prefiro optar pelo “bora tentar pra ver o que vai dar”. No final das contas, eu me arrebento até não aguentar mais e estresso todos ao meu redor. As vezes eu ganho, muitas outras, perco.
Quero deixar claro que pra mim isso nem de longe é uma qualidade, absolutamente. Não acho bonito querer ser sempre a primeira da classe. Acho um porre. Acho coxinha demais, old-fashioned demais.
Engraçado que eu só fui perceber este meu defeito de fábrica aqui em Londres, mas já na escola eu apresentava este irritante e estranho comportamento chamado “competitividade”. Mas agora estou com 27, e, do auge do meu amadurecimento (cof, cof), resolvi comprar mais uma briguinha: fazer o tal summer course.
As primeiras impressões foram tensas. A escola é tradionalíssima, do tipo antigassa. Escadas e corrimões de madeira, janelas imensas, corredores silenciosos. O cheiro que sai do fucking aquecedor fixado em praticamente todas as instalações londrinas (em grande parte, centenárias) me fez lembrar dos meus primeiros dias por aqui. Trata-se de um cheiro inexplicável, que eu nunca havia sentido antes (talvez porque eu more em um país tropical, rs).
Eram exatamente 18h01 e a classe já estava completa. É, eles são mesmo pontuais. A minha professora era uma escritora renomada, dona de um currículo bem interessante. Ela usava um óculos de aro oval, umas batinhas floridas de tecido fininho, calça jeans e um chinelo de dedos de cor laranja, every single day. O cabelo desgrenhado era preso em um rabo no alto da cabeça. Uma coisa meio bicho-grilo. Ela também era meio estrábica, e quando falava rápido, tinha a mania de olhar pra cima e ficar ligeiramente vesga. A little bit funny.
Como o meu alarme do bom senso apitou a tempo de eu não pedir uma foto abraçadinha ao diploma e à professora, eu a desenhei (** em aula **) e resolvi postar, pois, modéstia parte, ficou igualzinha.
Na primeira parte da aula, ela falou bastante sobre o curso, recomendou bibliografia, contou um pouco da própria experiência. Até aí eu tava feliz da vida: “Opa, tá no papo” (desculpem a falta de gírias novas, no momento estão em falta, rs).
Na maldita segunda metade da aula, as coisas começaram a mudar de figura. Hora das apresentações. Odeio essa parte, que você tem que ficar falando sobre si mesmo pra um bando de desconhecido (talvez por isso eu tenha evitado por tanto tempo um blog, rs). Mas ok, me apresentei dentro do meu inglês tupiniquim e tava tudo certo. Todo mundo ali tinha um inglês fluentíssimo, com todas as entonações, preposições e tempos verbais, mas, até aí, eu pensava…”Ninguém me conhece nessa merda! Vou falar do meu jeito e, se eles entenderem, já estou no lucro”.
Mas o bolo desandou na hora que eu descobri que existia uma brasileira entre nós. Pronto. Agora fodeu. Paguei de ridícula. Nossa, ela deve estar rindo horrores do meu inglês. Deve estar me achando uma tosca. Que merda. E a partir deste cagaço inicial se desencadeou um bloqueio inexplicável, que nem fazendo muita força consigo lembrar a última vez que senti.
A primeira aula até que correu bem, já na segunda, percebi o ritmo que o curso tomaria. A professora nos dava um tema por dia e, a partir disso, fazíamos um exercício em sala. Na seqüência, tínhamos que compartilhar as calhordices escritas, lendo, EM-VOZ-ALTA, para o restante da classe.
O silêncio nessa hora da leitura era de matar. Eu ouvia as pessoas lendo e ficava dura, de tanta tensão, pra não deixar nenhuma palavra escapar e perder o contexto. A entonação e a cadência com que eles liam eram tão perfeitas, que me fizeram repensar minha forma de encarar o inglês. Sempre achei aula de entonação um saco, do tipo, “por que preciso aprender a tabela periódica se não vou ser Química???”.
Mas nuoooossa, como aquelas aulinhas cheias de símbolos estranhos na lousa pra treinar pronunciação se faziam necessárias naquele momento! A minha vez de ler estava chegando, minhas mãos começaram a suar. O meu estômago revirava e nem fome eu sentia, apesar de não ter ingerido mais do que uma barra de cereal – e olha que eu, sem fome, é quase que caso de internação.
Até que ouço a frase final do texto vizinho, seguido do comentário da professora, que olha pra mim e dá aquela erguidinha de cabeça, como quem diz: “Fala aí, minha garota, o que você tem a nos dizer?”.
O ar faltava. Me desculpei pelo meu inglês e segui em frente, gaguejando a cada duas palavras. “A brazuca tá me avaliando. Com certeza ela tem um inglês melhor que o meu”. E assim foi. Sofriiiiiiido, mas consegui terminar. Os minutos seguintes foram um misto de anestesiamento com raiva. Quase como um instinto de defesa, passei a achar que a aula nem era tão boa assim.
Mas vejam só, nem tudo estava perdido! Eu tenho uma maniazinha, e dessa sim, eu me orgulho, de não saber prolongar problemas. Odeio reclamar e não fazer nada pra mudar, odeio empurrar com a barriga, odeio fazer algo meia-sola só pela incapacidade de reverter a situação ou por simples preguiça.
Então decidi que eu tinha que fazer aquelas aulas valerem. Falei com a professora e expliquei que eu não me sentia segura pra expor meus textos. Não pela escrita, e sim pela falta de entonação, possíveis erros gramaticais e blá, blá, blá. A primeira coisa que ela me disse foi: “Nobody cares about your English! You can do it!”. Do tipo, filhinha, estamos na Inglaterra, aqui ninguém se importa meeeesmo. Mas eu a convenci que pra mim seria melhor assim.
Os dias foram se passando e eu trabalhando dentro do meu limite, escrevendo pra mim mesma, de acordo com as técnicas que ela fornecia em aula. Do meu jeito, aprendi muitas coisas interessantes, embora não tenha participado tão ativamente em classe.
O final seria feliz se ainda não existisse uma pulga bem atrás da minha orelha. Não me conformava de ter passado TANTO nervoso, pelo simples fato de supostamente a brazuca me achar uma tosca e rir de mim em casa. Mas oi? Eu nem conheço ela! Ela nem me conhece! E o pior, o speech dela era tão FISK quanto o meu! Ou seja, o único mérito dela é que ela deu a cara pra bater, e eu, a duras penas, arreguei.
No último dia de aula, recebi o certificado e uma ligação do meu namorado, dizendo que tinha um vinho branco na geladeira me esperando pra comemorar minha vitória. A turma foi pra um pub celebrar. Eu agradeci a professora e vazei, afinal, tive tanto medo de falar com esse povo durante o mês inteiro…não era agora que eu ia desatar a conversar. Caminhei rumo ao metrô com uma sensação estranha. Quantas conversas produtivas eu evitei por medo de me expor? Quantas situações bacanas eu poderia ter experimentado, inclusive errar em público, ser corrigida, rir, aprender?
O tempo todo, durante esta experiência, tive a sensação de ser a criança mais novinha da rua que quer de qualquer jeito brincar na turma dos grandes. Eles até deixam, mas você fica ali, meio apagadinha, meio sem-graça.
Quando finalmente cheguei em casa, e meu namorado me parabenizou pelo fim do curso, eu disse: “Acho que não sou merecedora deste certificado”. Então perguntei pra ele se ele me amava mesmo sendo café com leite. Ele me respondeu da forma mais linda e simples: “Café com leite é quem nem tenta, Dan.” E é isso, missão cumprida. Vivendo, aprendendo e arregando, sempre que o oponente da sua briga tiver o dobro do seu tamanho.
No mês de junho, o Tate Modern, mega museu londrino de arte contemporânea, foi palco de um evento inusitado. Durante uma semana, as paredes externas do local (gigantes) foram entregues a artistas selecionados em diferentes países. E não estou falando de qualquer arte não, estou falando de arte de rua! =0
O Street Art Exhibition foi super festejado por aqui. Achei bem interessante porque, por mais que Londres seja a “capital do mundo” (clichezismos à parte), o lance da tradição é nitidamente muito forte. E liberar as paredes do Tate pra um tipo de arte que em certos países é discriminado, proibido, ou simplesmente ignorado, é muita modernisse pra terra da Rainha! =)
Senti um orgulho (involuntário) quando cruzei o Tâmisa e dei de cara com um grafite imenso feito pelos osgemeos:
É inevitável ver as marcas do nosso país aqui na Europa e não se orgulhar por sermos reconhecidos por outras riquezas que não estejam relacionadas a futebol/carnaval/praia/bunda.
Anyway, eu falei, falei, mas o que mais me chamou a atenção foi essa foto, do JR, fotógrafo francês que eu ainda não conhecia e acabei de descobrir que nuóooossa o cara é muito foda:
Pense rápido e seja beeem sincero: qual foi a primeira coisa que viu? Guerra? Assalto? Briga entre morros inimigos? Resposta êeeeee-rrada! Não é arma não, bobinho, é uma câmera de vídeo. Pois é, eu também não imaginava, logo eu…que me esforço tanto pra não ser enganada por esterótipos…Calou minha boca, viu, JR?
Pra quem gostou, tá aqui o site do cara (tem fotos tiradas no Complexo do Alemão e na favela do Capão Redondo), e o trailer do projeto “Women are heroes”, que ele lançou este ano. A-NI-MAL!
Ele ouvia Beatles, R.E.M, Ramones. Ela ouvia Marisa. Ele ouvia Beck, White Stripes, The Smiths; e por que não Bjork? Ela ouvia Zeca Baleiro; e o Pagodinho também. Salsa. Samba. E por que não uma música sertaneja de raiz?
Eles se encontraram, nem de longe pela sintonia dos seus gostos musicais, e aprenderam a ouvir aos sons um do outro. Juntos, se revezavam entre Caetano, Orishas, Beastie Boys, Chico Buarque, Amy Winehouse, Elvis, Gotan Project, Lauryn Hill, Philip Glass, Jorge Ben, Los Hermanos, Queens of the Stonage, Cold War Kids…E tantos outros…E assim foram compondo uma trilha sonora de momentos.
Obviamente, foi um grande aprendizado. Ele deixou de ”odiar os ecléticos” e passou a não mais somar ou subtrair pontos de alguém a partir de preferências musicais. Ela, por sua vez, passou a abrir a mente para bandas que ainda não faziam parte do seu repertório e, como ele, aprendeu a ouvir mais de uma vez o mesmo som, cuidadadosamente, para poder classificá-lo como bom ou ruim.
Até que um dia ele disse pra ela: Ouve essa banda aqui! E ela gostou. Algum tempo depois, esta mesma banda tocaria em um grande parque, em Londres, onde eles viviam. Os ingressos já haviam se esgotado há tempos, uma pena, mas mesmo assim, resolveram dar uma volta por lá para tentar capturar algo, mesmo que de longe.
Logo na entrada, ouvia-se o alvoroço dos londrinos, todos com seu pint na mão, embora soubessem que teriam que dispensá-lo durante a rígida revista feita na fila de entrada. As pessoas estavam felizes, o show era especialmente aguardado por aquele público. Até mesmo o vocalista da banda, dias antes, confessou em entrevista estar excepcionalmente ansioso para este momento.
Como não podia deixar de ser, dada a localidade do evento, o show começou, pontualmente, às oito horas e quinze minutos daquela noite fria de quarta-feira. Em um típico dia de verão inglês, o sol ainda estava alto, mas a temperatura caía e o vento batia forte e gelado.
Grudados à grade que separava a fila de entrada do palco, há muitos metros de distância, e em meio a inúmeros outros na mesma situação, eles puderam ouvir a gritaria (contida, inglesa) do público quando a banda começou o primeiro som, a faixa do CD novo que estava entre as preferidas dos dois. Vibraram.
Ele divagou, em um comentário quase que infantil: Bem que alguém podia desistir de entrar no show e nos dar os ingressos”. Ela sorriu, com o coração apertado, porque sabia que esta era uma das suas bandas preferidas. Ela tinha noção do quanto entrar naquele show seria significativo para ele; mais do que para ela.
Para inaugurar o seqüência de dramas à la novela mexicana que estaria por vir, cinco minutos após o singelo comentário, um ser humano desprovido de visão de negócio iniciou o seguinte diálogo com um garoto que se encontrava exatamente ao lado dos dois:
- Do you want a ticket?
- No, man, thanks…I don’t have any money.
- But it’s for free, man.
Cinco minutos de silêncio então se fizeram, como que em respeito àquele cena tão surreal. Ele não acreditava; ela, tampouco. O sortudo, menos ainda. Mas finalmente o garoto que há um instante atrás tinha o olho perdido em busca de alguma visão do palco, entendeu que sim: ele havia sido o protagonista de um milagre – porque dentro daquele contexto aquilo só poderia ser um milagre.
Os dois então passaram a acompanhar cada ação que se seguiu: ele avançou na fila, foi revistado, mostrou o convite para o segurança, que ficou alguns instantes avaliando a procedência. Suspense. Será que era real? Sim, ele conseguiu entrar, e, em poucos, minutos passou a correr em direção ao palco, com um sorriso bobo no rosto.
Mais uma vez ela sentiu seu coração apertado: “Talvez se eu não estivesse aqui, ele poderia ter sido o escolhido do tal bom-samaritano”.
Duas músicas se seguiram e eis que uma nova tentativa de final feliz aparece em forma de uma mestiça com dois ingressos nas mãos, com voz leve e envergonhada.
- Vocês comprariam dois ingressos por 30 pounds?
Ele não tinha nada na carteira. Ela, somente 20 pounds. Considerando que dois ingressos no preço normal custariam 80 pounds, eles estariam perdendo um grande negócio se não agissem rápido.
Na agonia do momento, os minutos se passavam, e a mestiça oferecia pra um, e pra outro, e pra mais outro…ninguém que estava lá fora tinha dinheiro. Caso contrário, estariam lá dentro. A música que vinha do palco parecia tocar mais alto naquele momento, as luzes pareciam mais fortes, e até o vento tinha parado de soprar.
Então a mestiça desistiu de vender os convites e seguiu pra fila, afinal, a banda já estava na quarta música. Ela agiu rápido: “Corra e ofereça os 20 pounds pra ela…ela vai jogar no lixo dois convites”.
Ele correu, em uma última tentativa de negociação, tentou explicar para os seguranças que precisava falar com a menina que já estava com um pé dentro da arena. E eis que em uma fração de segundo ele estava com os dois ingressos na mão, brilhando, sorrindo para ele. Finalmente, ele e ela entrariam e assistiriam o show. Juntos.
“Nem acredito”, disse ele, abrindo a bolsa para ser revistada, enquanto ela, de tão eufórica, já estava alguns passos a frente. Porém, desta vez, o que impediu a entrada não foi a falta de ingressos, nem a de dinheiro. Foi a máquina fotográfica que ele trazia dentro da bolsa.
O segurança, rígido, não trocou mais do que poucas palavras com ele: “It’s not alowed here”. “Mas esta câmera não é profissional”, ele argumentava, ao que o segurança já nem mais pra ele olhava. A esta altura já estava cuidando de outro caso. Mais uma vez eles se deram conta de onde estavam: em um país onde as leis e regras são seguidas acima de tudo. Não tem jeitinho, não tem suborno, não tem molhar a mão. Não existe dó, essa é a verdade.
Ele insistiu, falou com outro segurança, explicou a situação para outro, e pra mais outro. E desistiu. Ela só ficou parada na fila, com os olhos cheios d’água. “Não acredito que ele vai perder esse show”, ela pensava. E emendou: “Entra no meu lugar. Eu fico aqui fora segurando sua bolsa”.
“Nem pensar”, ele disse, “Só vou se for com você”. E então começou mais um capítulo do dramático dia, que até às oito e quinze da noite não demostrava nada de diferente em relação aos demais.
Ele dizia que não, que não era possível viver uma experiência dessa sem ela, que não teria graça, que seria injusto. Ela respondia que não fazia sentido, que ele gostava muito mais daquela banda do que ela, que seria egoísmo se não fizesse isso por ele.
As pessoas ao redor acompanhavam o diálogo com atenção. Um rapaz que assistia toda a cena, abordou os dois e ofereceu “tudo o que tinha”, com ar de misericórida, para comprar um dos ingressos. Com um Português de Portugal arrastado, negociava aquela chance agarrado a uma penca de moedas que caçou no bolso e uma nota amassada de 5 pounds.
Ele pegou a nota, dispensou a moedas e disse, com certa inveja: “Bom show, amigo”.
Mas ainda restava um ingresso. E ela não acreditava que ele iria parar no lixo ou em um bolo de papéis em casa como “recordação”. Recordação de quê? E continuava a chorar em silêncio, enquanto ele se recusava a entrar. Ela persistia. Ele estava decidido. Ela continuou a argumentar, até apelar para a máxima que não só ela, mas todas elas, usam em uma discussão: “Faça isso por mim”, ela pediu, ainda com os olhos molhados.
Então ela tirou a bolsa do pescoço dele, delicadamente. Ele não falava nada. “Eu te espero exatamente aqui, neste ponto”. Ele continuava calado. Virou sem olhar pra trás e caminhou até o primeiro segurança.
Ela acompanhou todo o processo novamente. Ele foi revistado, deu alguns passos em direção à arena, tentou achar o rosto dela em meio as pessoas lá de fora. Com dificuldade, conseguiu a ver por um pequeno vão entre várias cabeças. Jogou um beijo apertado e saiu correndo feito criança em dia de Natal.
Ela pôde ver ele sendo engulido pela platéia. E continuou parada bem ali, conforme o combinado, no ponto em que ele a deixou. O vento voltou a soprar. Ele curtindo o show lá de dentro, pensando nela, lá fora. Ela curtindo o show lá de fora, pensando nele, lá dentro.
Uma hora se passou. E os primeiros acordes de uma das músicas preferidas dos dois começaram: “House of cards”. Ela abaixou a cabeça, fechou os olhos, e começou a cantar baixinho, tremendo de frio.
Mal pôde acreditar quando ouviu os passos dele, correndo em direção a ela e dizendo ao seu ouvido: “Eu não conseguiria ouvir essa sem você”.
E continuaram a “assistir” o show dali, passando frio juntos, dançando agarrados ao som que vinha de longe. Afinal, o que é o amor senão um eterno teste de cumplicidade?
Jun/2008
(*) Esta história é real e aconteceu ontem, no show do Radiohead.









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